Thursday, September 20, 2007

 

JESUS TRINDADE BARRETO

MODELO DE HOMEM PÚBLICO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No atual contexto histórico brasileiro se multiplicam as recriminações sobre alguns políticos, a ponto de se falar até na extinção do Senado Federal, devido os últimos inglórios acontecimentos. É, portanto, de bom alvitre recordar aqueles que se fizeram modelos de seriedade no exercício do mandato a eles confiados pelos eleitores. Um destes merecedores de destaque faleceu recentemente, dia 12 de setembro: Jesus Trindade Barreto. Vereador na Câmara Municipal de Belo Horizonte e deputado estadual durante quatro mandatos, de 1971 a 1986 se mostrou sempre um varão impoluto, um lutador a favor dos mais necessitados, jamais se valendo de seus cargos públicos para defender seus próprios interesses ou de seus parentes e amigos. Sempre serviçal, mas dentro da mais autêntica ética que convém a um político ilibado. Por isto mesmo foi reconduzido em vários pleitos eleitorais à Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais. Declarou, porém, que “a vitória nas urnas não é um “bonus”, sim um “onus”, “munus”. O eleito recebe tremenda carga de responsabilidade que pode ser sintetizada no dever de estudar, conhecer, equacionar e dar solução aos problemas que afligem e atormentam a população de sua jurisdição”. Esta foi sempre a sua filosofia política e o móvel de todas as suas atividades, continuamente agindo em função da humanização da sociedade. Debruçado sobre os problemas sociais, diagnosticava-os e propunha soluções oportunas. Em um de seus escritos oportunamente advertia: “É preciso educar o povo para viver, conviver e sobreviver com o automóvel e com o trânsito, cada vez maior, mais veloz , mais letal.”. A política foi seu principal campo de ação. Praticou-a como autêntica arte de promover o bem comum durável. Notável, além disto, a mineiridade que se pinça na sua vida e nos seus numerosos livros, como o intitulado “Sentimentos Mineiros”. Mostrava então que “a vocação de Minas é a de liberdade e a de brasilidade. Por isso é que , invariavelmente, origina-se em Minas, convergem para Minas e irradiam-se de Minas as idéias liberais, os movimentos políticos, os grandes anseios nacionais”. Seus textos revelam um extremo gosto no lavor literário. Nunca permitiu desleixo e desalinho no vestuário de suas pulcras idéias.Possuia um estilo cristalino, direto, puro, reflexo de sua personalidade, dado que era um pletórico de uma inteireza moral admirável. Modelo do chefe de família, deixou viúva sua virtuosíssima esposa Maria Vera Fagundes Barreto, três filhos e uma neta. Católico fervoroso, irradiava uma fé profunda, destacando-se seu fervor na participação da Santa Missa. Cumpre sempre colocar em prática o conselho bíblico "Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antepassados, em sua linhagem". (Eclo 44,1)
* Professor no Seminário de Mariana - MG

 

Os dois irmãos

OS DOIS IRMÃOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No seu livro “Jesus de Nazaré” o papa Bento XVI tece comentário profundo sobre a parábola dos dois irmãos, ou seja, o filho pródigo e o que ficou em casa. Observa que alguns autores julgam que esta narrativa melhor seria designada como a parábola do Pai bondoso, figura também destacada por Cristo. Lembra que os Padres da Igreja bem atinaram com o pormenor de que o filho mais novo “vai para uma terra distante”, assinalando deste modo “o interior alheamento do mundo do pai - o mundo de Deus, a ruptura interior da relação, a extensão do afastamento do que é próprio e do que é autêntico”. O filho pródigo se mostra um dissipador, “esbanja a “sua essência”, a si mesmo”. Perde tudo e “aquele que se tornara totalmente livre, se torna agora escravo: guardador de porcos, o qual seria feliz se recebesse o comer dos porcos como alimento”. Exara então Bento XVI uma admirável reflexão sobre o mau uso do livre arbítrio: “O homem que entende a liberdade como radical arbitrariedade da própria vontade e do próprio caminho vive na mentira [...] Por isso, uma falsa autonomia conduz à escravidão”. O papa patenteia então como foi dolorosa a peregrinação interior do filho pródigo até à “conversão”, até o retorno à casa do pai. De fato, a metamorfose se deu no momento em que o esbanjador iludido com os falsos prazeres reconheceu sua miséria interior e exterior e pôde, arrependido, exclamar: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti" (Lc 15,18). Reconheceu que estava num miserando abismo. Era preciso ter coragem para se erguer e reparar o erro diante de seu progenitor. Analisando a atitude paterna assim se expressa Bento XVI: “O pai “vê o filho de longe” e vai ao seu encontro. Ele ouve a confissão do filho e vê assim o caminho interior que o filho percorreu, vê que este encontrou a vereda da verdadeira liberdade”. Jesus salientou bem como o pai reconstitui o filho, assim arrependido, no seu status anterior: "Mas o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés"(Lc 15,22). Comenta então o papa que Cristo nos dá uma visão de Deus sempre repleto de “compaixão”, mudando o castigo em perdão. Acrescenta, porém, que há, outrossim, uma cristologia implícita nesta atitude do Pai celeste, pois Jesus havia dito: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30). Ninguém pode, realmente, duvidar da bondade imensa deste oceano de infinito amor que é o Coração de Jesus, continuamente pronto a anistiar os pecadores arrependidos. Finalmente, Bento XVI faz uma análise da triste atitude do filho mais velho que ficou “muito zangado”. Faz uma queixa que revela toda sua revolta: "Ele, então, respondeu ao pai: Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos" (Lc 15,29). É que ele “não conhece a graça do que significa estar em casa, da verdadeira liberdade, que ele como filho tem”. Não entendia a grandeza da filiação e, por isto, "explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu".(Lc 15,31). Aqui vale uma viagem interior de cada um, indo lá dentro de si mesmo para verificar se, em toda sua plenitude, tem a verdadeira noção de ser filho de Deus com todas as dádivas que tem em seu derredor, dons do Pai Onipotente e Misericordioso. Como observa Bento XVI, nós que permanecemos em casa, que nos convertamos sempre a esta bondade divina e “estejamos alegres por causa da nossa fé”. Cumpre valorizar a paternidade de Deus. Nela confiar, superando todas as vicissitudes terrenas através de uma total entrega a seu amor sem limites. Nunca se refletirá demais sobre a gratuidade das graças recebidas. Elas são dons, favores, cuja única fonte é a soberania do amor divino. Esta dileção não é devida à criatura. É o resultado de uma iniciativa graciosa do Onipotente Senhor. É preciso, porém, que o cristão saiba ser agradecido, tendo em alto apreço as dádivas do Pai celeste. * Professor no Seminário de Mariana - MG

 

O administrador infiel

O ADMINISTRADOR INFIEL
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A parábola do administrador infiel (Lc 16,1-13) está repleta de preciosas lições. Cumpre observar, inicialmente, que o cerne da narrativa feita por Jesus não está num aplauso da ação profundamente censurável do intendente que, além de malbaratar os bens de seu senhor, ainda o lesa para tornar propício a si mesmo os credores, diminuindo os débitos deles. O que Jesus quer dizer é que, assim como os maus têm notável capacidade para, por caminhos escusos, ganhar amigos, os bons devem ter argúcia para obter vantagens espirituais. Isto, até mesmo, bem se utilizando o cristão de bens materiais, sublimando ações temporais em vistas ao tesouro lá no céu. Deste modo, quem ampara com o vil metal os necessitados, vendo neles a figura do Redentor, ainda que empregando meios materiais e socorrendo o próximo em sua fome, na sua doença e outras indigências, está crescendo em santidade diante de Deus. Dentro desta linha de reflexão quantos, de fato, perdem merecimentos imensos por não saber dar uma aplicação transcendental às menores ações. Foi o que São Paulo aconselhou: "Portanto, quer comais quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Cor 10,31). Quem, pela manhã, tem a intenção de tudo fazer naquele dia para o maior louvor do Ser Supremo e diz isto a Ele, transforma as mais simples ações numa vibrante prece, atraindo os maiores favores divinos. Este será fiel nas mínimas coisas, jamais sendo injusto consigo, com o próximo e com o próprio Deus. Trata-se do cristão que cuida de seu corpo, por ser o templo vivo do Espírito Santo. Entrega-se a seu labor, por vezes, até material, mas com o reto desígnio de estar em tudo a serviço do próximo e o próximo é o próprio Jesus Cristo. Deseja até, honestamente, ganhar dinheiro, mas para poder ajudar os familiares e os mais necessitados. A perfeição do motivo que leva cada um a operar é de vital importância. As atividades ficam impregnadas de uma intenção sobrenatural em função do amor a Deus e ao semelhante. Todos os atos lícitos praticados por quem está em estado de graça são imensamente meritórios diante de Deus, mas os atilados filhos da luz aumentam tal mérito, explicitando o objetivo maior de tudo que faz, qual seja o maior glorificação a Deus e o bem espiritual e material do próximo. Descendo a pormenores, se pode afirmar que, por exemplo, comer para refazer as forças, é um ato honesto que num batizado, isento de pecado grave é meritório. Entretanto, reparar as forças com intenção de melhor trabalhar por Deus e pela salvação dos outros é um objetivo superior que nobilita ainda mais este ato material e lhe confere valor imenso aos olhos do Criador. Os que são espertos espiritualmente colocam até várias intenções na sua ação e aumentam o mérito. Por exemplo, o filho que acata a autoridade de seus pais e lhes obedece cresceu muito perante Deus, mas quem obedece e acrescenta a dileção a seus pais, duplamente, entesourou para o céu. Pode-se até triplicar o merecimento. Assim quem destesta o pecado por ser ofensa de Deus, pode ter também a intenção de praticar ao mesmo tempo a mortificação e a humildade, pedindo sempre o auxílio celestial. Tudo isto é realizado sob a inspiração do Divino Espírito Santo. Este modo de agir leva a uma intensidade ou fervor em tudo que se pratica. Deste modo, se evita o desleixo espiritual e, com toda a energia possível, se utiliza a graça que a cada hora se recebe do alto. A indolência é, assim, banida e até as faltas veniais desaparecem. Enchentes de favores divinos envolvem desta maneira o autêntico cristão, visto que Deus retribui centuplicadamente tudo que se faz por Ele. Vale, de fato, a pena renovar amiúde os esforços com energia e total perseverança. Daí resulta o júbilo de que fala o Apóstolo: Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!" (Fl 4,4). Este é aquele que não serve a dois senhores, mas somente a Deus e, para aqueles que amam a Deus. tudo coopera para a sua total felicidade (Rm 8,28).* Professor no Seminário de Mariana – MG

Monday, September 10, 2007

 

O magistério da Igreja e a Bíblia

O MAGISTÉRIO E A BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A Igreja, a quem foi entregue por Deus o depósito sagrado, sempre se preocupou com a difusão de um texto correto da Bíblia e cuidou que os fiéis não recebessem a Palavra de Deus insidiosamente deformada. Além disto, há passagens obscuras sobretudo no Antigo Testamento que exigem estudos e explicações adequadas, donde, ter o magistério através dos séculos advertido sobre o cuidado em interpretar tais lances bíblicos. Eis por que a Igreja exige que as Bíblias católicas tenham notas explicativas para orientação dos leitores. O que a Igreja sempre vetou é a leitura de textos espúrios, deturpados, manipulados que deformam a Palavra de Deus e envenenam as almas. Ela nunca foi contrária à divulgação das Letras Sagradas, muito pelo contrário. Eis alguns textos do Magistério da Igreja.
Diz claramente o documento Dei Verbum do Concílio Vaticano II: “A Igreja sempre venerou as Divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor, já que principalmente na Sagrada Liturgia, sem cessar toma da mesa tanto da Palavra de Deus quanto do Corpo de Cristo o pão da vida, e o distribui aos fiéis” (n. 21).
Os papas dedicaram encíclicas à Bíblia como Leão XIII, em 1893, na Providentissimus Deus assevera: “Ardentemente desejamos que o maior número de fiéis se empenhem, como convém, na defesa das Santas Letras, e a ela se dediquem com constância”. Bento XV, em 1920, na Spiritus Paraclitus exprimia este anelo papal: “Entrementes, formulamos votos para que todos os filhos da Igreja se deixem penetrar e fortificar pela doçura das Santas Letras, a fim de chegarem a um conhecimento perfeito de Jesus Cristo”. Pio XII, em 1943, na Divino afflante Spiritu: “Nem se deve aqui passar em silêncio quanto os mesmos Nossos Predecessores, sempre que se lhes ofereceu a ocasião recomendaram o estudo, pregação, a lição e a meditação das Sagradas Escrituras”. Cita então o exemplo de Pio X que “aprovou, calorosamente, a Sociedade de S. Jerônimo que tem por fim propagar entre os fiéis o louvável costume de ler e meditar os Santos Evangelhos e facilitar quanto possível este pio exercício. Exortou-o a perseverar constantemente a empresa afirmando que “era coisa útil e adaptada aos tempos”, pois contribui não pouco “a desfazer o preconceito de que a Igreja se opõe à leitura da Sagrada Escritura em língua vulgar e procura impedí-la”. Eis aí testemunhos decisivos do interesse da Igreja pela difusão da Bíblia e cabe aos fiéis atender as diretrizes eclesiásticas e ler e viver a Palavra sacrossanta de Deus, familiarizando-se com as Letras Santas. A Bíblia deve ser, de fato, o primeiro manancial de espiritualidade dos fiéis, assim não se estará subestimando o grande dom divino. * Prof. no Seminário de Mariana - MG

 

A Igreja e a Bíblia

A IGREJA E A BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quem traceja estas linhas já escutou em palestras de leigos católicos bem intencionados equívocos clamorosos como estes: “A Igreja proibia antigamente o povo ler a Bíblia”... “Foi o Concílio Vaticano II que começou incentivar a leitura da Sagrada Escritura ...”. E outros disparates. Em primeiro lugar é preciso fique claro que em todas as celebrações litúrgicas sempre houve passagens bíblicas e as homilias dominicais no decorrer dos séculos são reflexões a partir da Escritura. Nos primórdios da Igreja ao surgirem as heresias se apelava para as Sagradas Letras. Páginas auríferas dos Santos Padres e demais teólogos que enriquecem a literatura eclesiástica são comentários bíblicos do mais alto valor. Santo Agostinho, por exemplo, deixou profundo estudo sobre o Evangelho de São João. São Teófilo, sexto bispo da Antioquia que se converteu, lendo a Bíblia: “Não sejais, pois, incrédulo, mas crê. Pois tão pouco eu em outro tempo cria que Ele existisse. Agora, porém, após madura reflexão creio, por que justamente li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, as quais inspiradas pelo Espírito Santo, predisseram o passado tal como passou, o presente tal como sucede e o porvir tal como sucederá”. Orígenes, no século III, em carta a Gregório Taumaturgo, aconselhava: “Mas tu, senhor e filho meu, atende antes de tudo à leitura das Sagradas Escrituras, sim, atende bem. Por que devemos por muita atenção quando lemos as Escrituras, para que não falemos ou pensemos demasiado temerariamente acerca delas ... Atento à leitura divina busca com retidão e com fé inquebrantável em Deus o sentido das letras divinas, oculto para a maioria. Mas não te contentes com chamar e buscar, porque para entender as coisas divinas o mais necessário é a oração”. Santo Ambrósio no século IV exorta às Virgens a ler as Escrituras e a cantar os salmos. São Jerônimo no século V, escreveu a Eustóquia, filha de Santa Paula: “Lê com freqüência e aprende o melhor que possas. Que o sono te encontre com o livro nas mãos e que a página sagrada acolha o teu rosto vencido pelo sono”. No mesmo século asseverava São João Crisóstomo: “O gosto da palavra de Deus é não somente mais doce do que o mal, mas também é mais precioso do que o ouro e pérolas, mais puro do que a prata”. No dizer de S. Beda, o Venerável, “leite e mel o que são o Antigo e o Novo Testamento na Igreja”. Rufino de Aquiléia testemunhou sobre São Gregório Naziazeno e São Basílio: “Durante treze anos segundo dizem tendo deixado de lado todos os livros pagãos gregos, entregaram-se ao estudo dos livros da Escritura Divina, que eles procuravam entender, apoiados não em seu juízo próprio, mas nos escritos e na autoridade dos antepassados”7. Os testemunhos se multiplicam através dos séculos, mostrando que a Bíblia sempre foi venerada pelos cristãos. Dom Estêvão Bettencourt lembra que o livrinho “intitulado Seelentrost (consolo da Alma), escrito em 1407, publicado em doze edições sucessivas até 1523, exprimia-se do seguinte modo: “O consolo da alma está nos ensinamentos divinos e na meditação da Sagrada Escritura. Deves ler e ouvir com prazer os livros da Bíblia, porque, assim como o corpo vive do alimento terrestre, a alma vive da mensagem divina; sim, o homem vive não somente do pão cotidiano, mas também da Palavra que sai da boca de Deus ou da Sagrada Escritura”. Segundo Santo Tomás de Aquino a Bíblia leva à vida da graça à qual nos dispõe; à vida da justiça, consistindo no reto obrar, para a qual nos dirige; à vida da glória que promete. É obvio, por outra, que antes da invenção da imprensa e do papel, o que só ocorreu no século XV, a divulgação do Livro Santo, na proporção de hoje, era impossível. A arte gráfica foi evoluindo aos poucos e as grandes tiragens com recursos e técnicas sofisticadas são bem recentes. Mesmo quando a Missa era ainda em latim os Missais e folhetos traziam, ao lado do texto latino, a tradução em vernáculo. Célebres as edições, vertidas do francês, da obra de D. Gaspar Lefebvre, iniciada em 1916, e dos monges beneditinos da abadia de Santo André, de Burges na Bélgica, que posteriormente o auxiliaram. Numa das edições do Original, datada de 15 de janeiro de 1953, está belíssima carta do Cardeal Liénart, bispo de Lille a D. Lefebvre. Esta epístola assim se inicia: “Após a Bíblia, que é obra de Deus, não existe livro mais belo do que o Missal, o qual é divino e humano. A Igreja, para o compor no curso dos séculos (grifo nosso), tomou da Sagrada Escritura textos admiráveis que dispôs como jóias valiosas em torno da parte imutável da Missa”. * Prof. no Seminário de Mariana - MG

 

A escritura, tradição e magistério

A ESCRITURA, A TRADIÇÃO E O MAGISTÉRIO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum ensina que “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, constituem um só Sagrado Depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja” (n. 10). O mesmo documento define uma e outra fonte da revelação divina: “A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam” (n. 10). Mostra então o texto conciliar que “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo” (n. 10). Ressalta, porém, que “tal Magistério evidentemente não está acima da Palavra de Deus, mas a seu respeito, não ensinando senão o que foi transmitido” (n. 10).
O ensino oral teve importância capital nos primórdios do cristianismo e a mensagem de Cristo foi transmitida oralmente antes de ser compendiada pelos Evangelistas. Pelos mesmos textos escritos sabemos da existência de uma tradição vigorosa. Assim é o que consta neste trecho de São Paulo: “Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo tinha aprendido; que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos onze” ... (1 Cor 15,3-4 ss). Aos coríntios ele diz ainda: “Eu vos louvo, pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções como eu vo-las ensinei” (1 Cor 11,2). Aos filipenses o mesmo apóstolo afirma: “O que aprendestes, recebestes e ouvistes de mim e verificastes em mim, isso é que deveis praticar” (Fl 4,9). No início do Evangelho de São Lucas lemos que “muitos tentaram compor um relato dos acontecimentos, assim como os transmitiram aqueles que desde o começo foram testemunhas e ministros da Palavra” (Lc 1,2).
Entretanto, assim como Cristo com sua autoridade divina interpretou para os seus discípulos a Escritura que fôra transmitida por aqueles que o Espírito Santo inspirou, os apóstolos e depois seus sucessores, sob guia do mesmo Espírito continuaram a velar pelo depósito revelado e a interpretá-lo. Eis a explicação dada por De Fraine: “É portanto a tarefa do carisma apostólico transmitir o mais fielmente possível aquilo que foi recebido de Cristo. Esta tarefa compete em primeiro lugar aos “apóstolos por excelência”, mas depois também aos seus sucessores na Igreja que é o “corpo de Cristo”, em que seu espírito continua a agir, não se pode, portanto, ignorando esta continuidade, construir uma distinção entre “tradição apostólica” (perpetuada o melhor possível na Sagrada Escritura) e a tradição eclesiástica ...”.
É o que frisa também Mannucci, notando que “os estudos bíblicos e a reflexão teológica fizeram com que todos tomassem consciência, inclusive os protestantes, de que Escritura e Tradição não são duas realidades dissociáveis entre si; a Tradição precede a Escritura; a própria Escritura é fruto da elaboração da Tradição, e até mesmo seu momento privilegiado, a Tradição continua também depois da Escritura; a Escritura como momento privilegiado da Tradição constitui o primeiro critério de validade para julgar o desenvolvimento sucessivo da Tradição”.
Todos estes aspectos são de vital importância para que se compreenda o papel da Igreja no que tange à reta compreensão da Bíblia Sagrada.
Como observa D. Estevão Bettencourt, “a tradição oral, sendo anterior à Bíblia, é o único critério para se elucidarem questões atinentes à Bíblia, a começar pela questão capital: “Quem me garante o que no estudo da Escritura, isto é, que tais livros têm autoridade divina?” Naturalmente não qualquer voz da Tradição, merecerá crédito, mas, sim, aquele testemunho constante e unânime que, tendo atravessado ininterruptamente os séculos, hoje se manifesta no Magistério da Igreja”.
Isto mostra a garantia que os fiéis possuem de receberem, de fato, a genuína Palavra de Deus.
Cumpre, pois, total adesão ao Magistério, que, desta maneira, sempre fala assistido pelo Espírito Santo. * Professor no Seminário de Mariana - MG

Friday, September 07, 2007

 

Novo Arcebispo de Mariana

O NOVO ARCEBISPO DE MARIANA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Antes mesmo de penetrar os limites da Arquidiocese de Mariana, o novo Arcebispo D. Geraldo Lyrio Rocha já havia cativado suas ovelhas. Não apenas a fama de notável e culto Pastor e o fato de ter sido eleito Presidente da CNBB, mas também a atenção cordial que deu a quantos se dirigiram a ele ao ensejo de sua eleição para suceder ao saudoso D. Luciano Mendes de Almeida.
Toda a Arquidiocese e sobretudo a cidade de Mariana, sede primaz das Minas Gerais, se preparou para o glorioso dia 23 de junho.
D. Geraldo, na homilia na Missa de sua posse, traçou as linhas básicas de seu episcopado, defendendo o valor da vida humana, patenteando seu apreço pelos sacerdotes e diáconos, mostrando a importância do engajamento dos leigos e leigas nas diversas pastorais, o desvelo que terá para com o Seminário e a dedicação que devotará aos pobres, os marginalizados, seguindo os passos de D. Luciano, Ratificou sua total adesão a S. Santidade o Papa Bento XVI.
Feliz Arquidiocese de Mariana que tem a partir de agora à sua frente um Pastor segundo o Coração de Cristo, dotado de rara cultura e santidade existencial. Ele sempre desempenhou o seu múnus com uma atividade extraordinária e nunca houve diligências que não fizesse, incômodos que não vencesse, meios divinos e humanos que não invocasse e empregasse com muito empenho.
Tem vivido em plenitude o seu lema episcopal, realizando uma obra de um autêntico Evangelista. Une à virtude uma grande fortaleza e uma bondade que encanta e fascina e a tudo isto se ajunta um talento administrativo admirável. Seu ardor pelo bem, a consistência de sua têmpera, a fibra do seu coração, está revestido de uma energia admirável. Não há dúvida que D. Geraldo, a exemplo dos que o precederam no Áureo Trono Marianense, haverá intensificar a religiosidade desta região.
Quantos o conheceram são unânimes em afirmar que ele une a máxima brandura a um zelo pastoral inexcedível. É bom por natureza, tolerante por convicção, envolve a todos no temperado e delicioso ambiente de uma cordialidade sem limites.
Nele se cumprem maravilhosamente as maviosas palavras do salmista: “Bondade e fidelidade apertam-se as mãos, a justiça e a paz se abraçam” (Sl 84,11).
Tal é o perfil de D. Geraldo Lyrio Rocha pelo que dele se sabe através de sua gloriosa trajetória como admirável Antístite, pelo testemunho de quantos o conhecem e pelo que já demonstrou em Mariana.
Deus no-lo conserve por muitos e muitos anos para Sua glória e bem da Santa Igreja! * Professor no Seminário de Mariana - MG

 

Temas bíblicos (IV)

A CARTA AOS EFÉSIOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Uma das principais comunidades da Ásia estava em Éfeso. Questiona-se se realmente São Paulo endereçou esta epístola aos efésios. A crítica interna do texto encontra alguns problemas como a falta de informação pessoal, sem o extravasar do coração de Paulo, para uma comunidade na qual estivera três meses17. Uma hipótese é que “originariamente não trouxesse nenhum sobrescrito e tenha sido depois intitulada “aos efésios” por uma conjetura tirada de 2 Tm 4,12 ou então porque encontraram-na nos arquivos de Éfeso, quando, colecionaram as epístolas de São Paulo”18.
O importante é o conteúdo da carta, pois nela o apóstolo apresenta pontos fundamentais do dogma, focalizando a Redenção, a soberania de Cristo, do qual a Igreja é o corpo místico. A eclesiologia paulina é profunda e firma aspectos importantes das relações de Cristo com os batizados. Dá normas morais bem objetivas, visando precaver os cristãos das falsas doutrinas. São Paulo escreveu esta epístola provavelmente em Roma entre 61 e 62. Após a saudação (1,1-2), são expostas questões práticas (1,3-3,21). Eis os tópicos principais: a união de todos em Cristo; na Igreja se realiza esta união; tal a missão de Paulo: pregar este grande mistério. No final desta parte ele roga a Deus que confirme os efésios na fé. Vem, em seguida, instruções morais (4,1-6,20). A vocação cristã, a vida familiar, o combate espiritual são os temas principais que são tratados pelo apóstolo. A conclusão (6,21-24) enfoca a missão de Tíquico e apresenta a saudação final.
Esta epístola é a mais rica em conteúdo doutrinal. É um verdadeiro compêndio de teologia dogmática e moral. Deus, ensina São Paulo, “nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por (meio de) Jesus Cristo para a sua glória, por sua livre vontade, para fazer brilhar a glória de sua graça, pela qual nos tornou agradáveis (a seus olhos) em seu amado filho” (1,5). Adverte: “E nem sequer se nomei entre vós a fornicação, ou qualquer impureza ou avareza, como convém a santos; nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices, que são coisas inconvenientes; mas antes (saiam de vossa boca) ações de graças (a Deus). Porque, sabei bem, nenhum fornicador, ou impudico, ou avaro, o qual é um idólatra (do dinheiro), terá herança no reino de Cristo e de Deus” (5,3-5). Belos conselhos: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja” (5,25) ... “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento que tem promessa, a fim de que sejas feliz e tenhas larga vida sobre a terra” e “vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas educai-os na disciplina e nas instruções do Senhor” (6,1-4). As armas do cristão são espirituais para que ele resista “às ciladas do demônio” (6,11). Eis por que alerta: “Tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e ficai de pé depois de ter vencido tudo. Estais, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade e vestido a couraça da justiça, e tendo os pés calçados (prontos) para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus) ... (6,13-18).
Suporte espiritual encontra o batizado perlustrando os capítulos desta carta, sólido alimento para as almas de boa vontade.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG

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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG



APÓSTOLO DAS GENTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Participação decisiva teve São Paulo na marcha da nascente Igreja de Cristo a partir do ano de 42. Pelo Atos dos Apóstolos e por suas maravilhosas Epístolas, suas principais atividades podem ser seguidas.. Nasceu no ano 8 da era cristã em Tarso, importante cidade da Cilícia, Paulo afirmava ser cidadão romano (At 22,26). Foi baseado neste privilégio que o tribuno Cláudio Lísias o libertou, (At 23,27). Como Tarso não era colônia romana, a opinião de Renié é que “o pai de São Paulo ou um de seus ancestrais tinha recebido este título para recompensar serviços prestados à causa romana ou para reconhecer uma especial classe social a que pertencia...”. Judeu da dispersão teve sólida formação cultural, tendo sido discípulo do célebre Gamaliel. Seu talento extraordinário dotou-o de profunda erudição, mas seu caráter impetuoso levou-o ao fanatismo. Ei-lo na cena do desumano martírio de Estêvão (At 7,59), como um dos que fizeram sofrer o protomártir. Judeu ardente, combatia o cristianismo. Aos 26 anos se dirigiu ao príncipe dos sacerdotes e lhes pediu credenciais para ir a Damasco, a fim de prender os cristãos daquela cidade. Então, precisamente, se deu a sua conversão narrada nos Atos dos Apóstolos (9,4). A graça divina dele se apoderou. Ele seria o apóstolo dos gentios. Bem observou Renié: “Judeu de raça e pela educação; grego pelo lugar de seu nascimento e de sua língua; cidadão romano, ele era o ponto de contacto de três mundos” Desde que se converteu, Cristo foi o pensamento central de sua vida e pelo seu Senhor ele se sacrificou no afã de O fazer conhecido e amado. Entregou-se a tal apostolado com toda lealdade e total desprendimento, numa faina ininterrupta. Ananias foi o instrumento de Deus em Damasco na preparação para as lides a favor da evangelização do mundo. Por dois anos ele retirou depois para a Arábia, onde, na oração e na penitência, fez o grande noviciado para bem cumprir sua missão. Damasco, Jerusalém, Tarso foram os primeiros campos de trabalho, testemunhando Paulo aquele mesmo Jesus, que tão duramente combatera. Em 42 o vemos com Barnabé em Antioquia, onde esteve três anos. Sua primeira viagem apostólica deu-se nos anos de 45 a 49. Esteve na ilha de Chipre, onde converteu o procônsul romano Sérgio Paulo. Dirigiu-se depois a Antioquia da Pisídia e a outras cidades do interior. Esteve em Icônio e Listra, na Licaônica. Sua palavra arrastava milhares para a crença em Cristo. Operava em nome de Jesus, milagres estupendos. Em Derbe finalizou esta sua 1a viagem. Estabeleceu a hierarquia, ordenando presbíteros e deixando-os com seus representantes nos diversos núcleos cristãos. A porta da fé ficava inteiramente aberta aos gentios. Voltou a Antioquia, onde se opôs tenazmente à exigência que os judeus convertidos faziam de suas práticas. Participou do Concílio de Jerusalém, onde foi o paladino da liberdade cristã. Pedro proclamou claramente que a graça e a revelação de Cristo é que proporcionam aos homens a salvação. Como, posteriormente, o Príncipe dos Apóstolos, em Antioquia, se acomodou às práticas judaico-cristãs, São Paulo recriminou tal proceder que comprometia a expansão cristã (Gl 2,11). Ele foi de fato o corifeu do cristianismo supra nacional. No ano 50 iniciou a 2a viagem apostólica, que o levaria até à Grécia, ressoando no Aerópago de Atenas a voz que falava aos helenos do Deus desconhecido. Por três anos missionou a Ásia Menor até o sul da Europa, regressando a Corinto. Surgem, então, as Epístolas do grande teólogo. Nelas rebrilha seu gênio de escritor apaixonado por Cristo. Em 53 mesmo, iniciou sua 3a viagem apostólica. Tito, seu discípulo predileto, o acompanhou então.Regressou em 58 a Jerusalém satisfeitíssimo com o trabalho dos quatro anos de missão e trouxe para os cristãos de Jerusalém as esmolas que recolhera. Os judeus de Jerusalém (At 21,21) não o acolheram bem e Paulo, aconselhado por Tiago, resolveu, a bem da paz, se retirar. Esteve dois anos em Cesaréia sob custódia do procurador Félix. No ano 60 iniciou sua última viagem quando vai a Roma, onde desejava reivindicar seus direitos de cidadão romano. De 61 a 63, lá esteve cativo, mas podia pregar e “com franqueza, sem impedimento”, o Reino de Deus (At 21,28) a todos que vinham a ele. Em 63, posto em liberdade, vai até à Espanha. Em 66 foi de novo preso e levado a Roma. Era a época do terrível Nero. Em 67 foi decapitado na via ostiense, onde, mais tarde foi levantada grande basílica em sua honra. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Sua ação apostólica para a Igreja foi de transcendental importância. Com genial clarividência ele a orientou rumo ao universalismo cristão, operou a conversão dos gentios, sem os atar à lei antiga. Dirigiu-se sabiamente aos centros vitais do Império Romano e consolidou as Igrejas que se tornaram focos de irradiação da cultura cristã. * Professor no Seminário de Mariana - MG



SEGUNDA E TERCEIRA CARTAS DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Duas cartas típicas são conhecidas como epístola de São João. O concílio de Trento as declarou canônicas. Não se sabe ao certo quem é o autor destes textos sagrados, embora tudo indique que seja o apóstolo João. Alguns pensam ser João Presbítero, referido por Pápias, dado que o autor se intitula “Presbítero”. A data mais provável destes textos é o fim do primeiro século. A segunda carta é dirigida a uma comunidade de fiéis asiáticos e os previne contra os pseudos profetas, confirmando-os na fé verdadeira. Os biblistas assim entendem a Senhora Eleita do versículo primeiro a quem é dirigida a missiva. Diz Harrington: “Não há a menor dúvida de que o título designa uma igreja (1,14,13) provavelmente da Ásia Menor”. Significativa esta passagem que retém o ideal de toda a igreja fiel: “Alegra-me muito saber que teus filhos caminham na verdade, conforme o mandamento que recebemos do Pai” (3 Jo 4). Eis uma sábia orientação para os discípulos de Cristo de todos os tempos: “... que nos amemos uns aos outros. Mas amar é viver segundo os mandamentos dele. E o mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que vivais no amor” (v. 6). Adverte: “... apareceram no mundo muitos sedutores, que não admitem que Jesus Cristo se tenha encarnado. Quem age assim deveis considerá-lo como sedutor e anticristo. Cuidado para não perder o que já ganhastes, mas pelo contrário, receber uma plena recompensa. Quem não permanecer na doutrina de Cristo e dela se afastar não possui a Deus. Quem permanece na doutrina possui o Pai e o Filho” (v. 7-9). Não se deve favorecer o erro: “Se alguém vier vos procurar e não tiver esta doutrina, não o recebais em casa, nem o saudeis. Quem o cumprimenta participa de suas más obras” (v.10-11). Quantos, ou por respeito humano, ou por comodismo, são hoje coniventes com os erros, sob pretexto de um falso ecumenismo! A terceira carta, dirigida a Caio foi escrita por força de um problema local. Diz o texto: “Tenho escrito à Igreja. Mas Diótrefes que ambiciona o primeiro posto aí, não nos recebe. Por isso, se eu for aí, vou chamar sua atenção para as más obras que faz, divulgando coisas falsas contra nós. Não contente com isto, deixa de receber os irmãos e expulsa da igreja os que querem recebê-los” (v.9-10). Comenta Mackenzie: “Gaio é elogiado por sua fé e lealdade. Segundo alguns, Demétrio, o portador da carta, teria sido enviado precisamente para depor Diótrefes e empossar Gaio; trata-se de um interessante esboço de uma tensão jurisdicional primitiva que permanece obscura”. Neste bilhete inspirado esta lição preciosa: “Caríssimo, não imites o mau, mas o bom. Quem faz o bem é de Deus. Quem faz o mal não viu a Deus” (v.11).Duas pequeninas cartas, mas a deixarem seus recados celestiais para os que se alimentam com a Palavra de Deus! * Professor no Seminário de Mariana - MG

PRIMEIRA CARTA DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao perlustrar a primeira carta do apóstolo João, o leitor percebe ao vivo que fala sobretudo um coração palpitante de amor a Deus. Não há uma ordem lógica entre as diversas partes, mas tão cadentes são as mensagens que prendem do começo ao fim a atenção de quem as percorre. Após os estudos feitos pelos peritos, apesar de algumas diferenças explicáveis pelo contexto e pelo objetivo, a conclusão é que o autor desta carta é o mesmo do quarto Evangelho. O discípulo amado, apresenta neste texto, que é mais uma homilia, aspectos sublimes da espiritualidade do cristão, o qual deve viver em função de Deus que é luz (1,5 s) e que é amor (4,7 s). Escrita nos últimos anos do primeiro século para os fiéis das igrejas asiáticas, o escopo é firmar os crentes na fé os erros. São João revela uma sábia postura: melhor do que simplesmente combater os hereges é esclarecer e robustecer os cristãos, pois, então sim, se bloqueia o erro e se difunde a verdade. Cumpre, é certo, denunciar as falsas doutrinas, mas o principal é que o discípulo de Cristo esteja firme numa fé esclarecida. O batizado é aquele que habita amorosamente em Deus e, assim, fica isento do pecado: “Quem é filho de Deus não peca, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (3,9). Esta união com Deus é a ventura suprema: “Esta é a mensagem que ouvimos dele e trazemos para vós: Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com ele e andamos na escuridão, mentimos, e não estamos agindo segundo a verdade. Mas se andamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1,5-7). Grande a confiança que se deve ter na bondade divina: “Meus filhinhos, eu vos escrevo isto para que não pequeis, mas, se alguém vier a pecar, temos um advogado, Jesus Cristo, junto ao Pai. Ele é vítima de expiação por nossos pecados, e não só pelos nosso, mas pelos de todo o mundo” (2,1-2). A caridade fraterna é atitude básica: “Quem diz estar na luz e odeia seu irmão, está ainda nas trevas. Quem ama seu irmão está na luz e nela não há nada que induza a pecar. Mas o que odeia seu irmão está nas trevas: caminha nas trevas, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (2,9-11). Adverte São João: “Não ameis o mundo, nem coisa alguma que existe nele. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo desejo incontrolado da carne, desejo incontrolado dos olhos e orgulho pelos bens da vida não vem do Pai do mundo. Mas o mundo passa e seus desejos imoderados também, mas o que cumpre a vontade de Deus permanecer para sempre” (2,15-17). Luminoso o destino de quem ama a Deus: “Se aquilo que ouvistes desde o começo permanecer em vós, vós também permanecereis no Filho e no Pai. Ora, esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (2,24-25). Que o batizado erga a fronte e marche impávido: “Vede como é grande o amor que o Pai nos dedicou, concedendo-nos ser chamados filhos de Deus. E nós o somos! Se o mundo não nos conhece é porque o não tem conhecido. Caríssimos, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto o que viremos a ser. Sabemos que, quando Cristo aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é” (3,1-2). Eis a condição para que a prece seja atendida: “Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, podemos recorrer confiantes a Deus, e tudo que pedirmos receberemos dele porque cumprimos seus mandamentos e fazemos o que é agradável aos seus olhos” (3,21-22). Crer em Cristo é fanal seguro de salvação: “Podereis reconhecer assim o Espírito de Deus: quem confessar que Jesus Cristo se encarnou é de Deus. Quem não aceitar Jesus, esse não é de Deus, mas do anticristo” (4,2-3). Verifica um fato que merece toda a atenção: “É assim que o amor de Deus se manifestou a nós: Deus mandou seu Filho único ao mundo para que recebêssemos a vida por ele. Nisto consiste o seu amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele o primeiro que nos amou e mandou seu Filho como expiação pelos nossos pecados” (4,9-10). Acrescenta: “Este Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (4,16). Cumpre observar que a permanência de Deus no cristão é constante, mas a permanência do cristão em Deus é defectível, pois Ele respeita a liberdade de cada um. Esta é a triste sina do ser racional, poder desprezar o Bem Supremo, deixando-se arrastar pela voragem das paixões não dominadas. Daí o conselho de São João: “E nós amemos a Deus, porque ele nos amou primeiro” (4,19). Mostra, porém, que “se alguém diz: “Amo a Deus” e detesta seu irmão, está mentindo. Porque quem não ama seu irmão, a quem vê, não é possível que ame a Deus, a quem não vê” (4,20). Dá um sólido argumento para o crente: “Se aceitamos o testemunho dos homens, maior é o testemunho de Deus, que deu o testemunho de seu Filho” (5,9). Deste modo termina esta formosa carta: “Sabemos ainda que o Filho de Deus veio e que nos deu a inteligência para que conheçamos ao Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, em Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Filhinhos, cuidado com os ídolos!” (5,20-21). Num estilo didático e homilético São João mostra assim que a vida cristã é uma ontológica relação vital de comunhão com Deus. Esta epístola é, deste modo, de enorme importância para que a vivência do batizado atinja seu pleno esplendor, pois o imerge a luminosidade e no amor divinos.. * Professor no Seminário de Mariana - MG


A SEGUNDA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Grande a controvérsia sobre a autoria do texto sagrado conhecido como a segunda carta de São Pedro. Muitos pensam que foi algum seguidor deste Apóstolo, talvez um judeu-cristão, quem a escreveu, por volta dos últimos decênios do primeiro século. Ramazzotti adere à opinião dos que pensam ser Pedro o autor e assevera: “Tendo considerado tudo, pensamos que se pode defender ainda a tese mais tradicional da autenticidade, concedendo, porém, grande parte à obra do redator; este poderia ter reelaborado o texto após a morte do apóstolo, inserindo alguma referência à nova situação”. Quanto às discrepâncias no que tange à primeira carta do mesmo apóstolo, observadas pela crítica interna, se pode dizer com São Jerônimo que São Pedro teve secretários diferentes na redação destas cartas. Sobretudo após o concílio de Trento não paira para a mínima dúvida sobre a canonicidade deste livro. A finalidade do escrito é advertir os destinatários, provavelmente os mesmos da primeira epístola, contra os falsos doutores, que deturpam o pensamento paulino e disseminavam a cizânia na grei de Jesus Cristo. Há um breve preâmbulo (1,1-2), seguido da exortação à perseverança na fé (1,3-21). Logo após vem a admonição contra os pregadores de heresias (2,1-3,16). A conclusão (3,17-18) exprime um voto e apresenta bela doxologia. Sobre a generosidade de Deus, que elevou o homem a alta dignidade, assim se expressa São Pedro: “Seu poder divino nos concedeu tudo quanto se relaciona com a vida e a piedade. Pois nos deu a conhecer aquele que nos chamou pela sua própria glória e força. Por estas é que nos deu os bens preciosos e grandíssimos que tinham sido prometidos, para que graças a eles entreis em comunhão com a natureza divina, havendo escapado da corrupção que reina no mundo por causa dos maus desejos” (1,3-4). Notável este conselho atinente à postura cristã: “... empenhai todos os vossos esforços para acrescentar à vossa fé o bom procedimento, ao bom procedimento a ciência; esforçai-vos também por unir à ciência o autodomínio, ao autodomínio a constância, à constância a piedade, à piedade a estima fraterna e à estima fraterna o amor” (1,5-7). Ressalta o valor das profecias escriturísticas: “Deveis saber isto antes de tudo: nenhuma profecia da Escritura é assunto da interpretação pessoal, porque de uma vontade humana jamais veio uma profecia, mas, sim, homens movidos pelo Espírito Santo é que falaram da parte de Deus” (1,20-21). Ontem, hoje e enquanto o mundo existir, aparecerão os falsos doutores, oportunistas a serviço da desagregação inspirada pelo espírito das trevas. A este respeito, deste modo, se exprime São Pedro: “Mas apareceram também falsos profetas entre o povo; do mesmo modo, aparecerão entre vós falsos doutores. Eles introduziram sorrateiramente doutrinas perniciosas, chegando até a renegar o Soberano que o resgatou e atrairão sobre si uma repentina perdição” (2,1). Sério o alerta sobre a punição divina para os endurecidos no pecado, pois Deus “castigará especialmente os que seguem a carne, levados pelas paixões impuras, e desprezam a autoridade do Senhor” (2,10). É que os olhos de tais prevaricadores “são ávidos de adultério; e são insaciáveis seus desejos de pecar. Armam ciladas aos titubeantes e têm o coração afogado na avareza. A maldição do Senhor pesa sobre eles” (2,14). Não menos inditosa a sorte dos que tendo se emendado não perseveram, pois “se, na verdade, os que se apartaram das corrupções do mundo por meio do conhecimento de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, de novo nelas se enredam e se deixam vencer, seu estado final se torna pior do que o primeiro” (2,20). Brilha, porém, o raio luminoso da esperança fagueira, pois Deus é clemente e bondoso: “O Senhor não atrasa o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam. Mas usa de paciência para convosco, não querendo que ninguém pereça; pelo contrário, quer que todos cheguem a mudar de vida. Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão” (3,9-10). Apelo sublime à santidade e à vigilância faz o apóstolo: “Visto como tudo vai ser destruído, compreendeis bem qual deve ser o vosso comportamento, a saber, santo e piedoso, esperando e apressando a vinda do dia de Javé, o dia em que os céus inflamados vão se dissolver e os elementos abrasadores vão se fundir. Contudo, nós esperamos novos céus e nova terra, segundo a sua promessa, onde a justiça terá moradia estável. Eis, por que, meus amigos, esperando esse dia, envidai todos os vossos esforços por viverdes sem mancha e irrepreensíveis, para vos encontrardes em paz” (3,11-14). Com chave aurífera São Pedro encerra esta belíssima epístola; “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele, glória, agora e a eternidade. Amém” (3,18). Em nossos dias as cartas petrinas estão sendo objeto de particular atenção. É que eles fornecem preciosas lições que firmam pontos essenciais da fé cristã, alimentando a esperança e revigorando o amor a Deus e ao próximo. * Professor no Seminário de Mariana - MG


A PRIMEIRA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O príncipe dos Apóstolos deixou na sua primeira carta valiosos ensinamentos, sobretudo quanto a uma existência cristã digna, autêntica. Esta epístola foi escrita em Roma, onde ele terminou os seus dias martirizado. A estadia e morte de São Pedro na capital do império romano são fatos inegáveis. Nenhuma outra igreja da cristandade primitiva reivindicou jamais a honra primacial que sempre foi atribuída a Roma. Os catálogos dos papas colocam Pedro como o primeiro bispo romano. O endereço da carta está consignado logo no início da mesma: “Eu, Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, a vós eleitos, que viveis como estrangeiros, dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1,1). Objetivava dar apoio aos fiéis daquelas comunidades nas provas que padeciam. Isto em derredor do ano 64. A divisão do texto é esta: prólogo (1,1-12); exortação à santidade (1,13-2,10); orientações sobre as relações dos cristãos com os pagãos entre si; instruções sobre a vida interna das comunidades (4,7-5,11) e a saudação final (5,12-14). Pedro destaca, logo no início, o mistério trinitário: “Louvado seja Deus, Pai de nosso Jesus Cristo! Em sua imensa misericórdia nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, imaculada, perene, reservada a vós nos céus ... Esta salvação foi objeto das atenções e investigações dos profetas, ao vaticinarem sobre a graça destinada a vós ... Foi-lhes revelado que propunham não a si próprios, mas a vós, estes mistérios que agora vos têm sido anunciados por aqueles que vos evangelizaram, movidos pelo Espírito Santo enviado do céu” (1,1-12). Faz veemente apelo à perfeição: “Sede santos em toda a vossa conduta, assim como é santo Aquele que vos chamou” (1,15). Exorta: “Amai-vos uns aos outros de coração puro e incessantemente” (1,22b). O batizado deve aborrecer a malícia, a falsidade, as hipocrisias, as invejas e toda espécie de maledicência” (2,1). Cristo é a pedra angular da Igreja e, assim, concita São Pedro: “Incorporai-vos a Ele que é pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhidas aos olhos de Deus. Também vós sois como pedras vivas. Sois erigidos em templo espiritual para um sacerdócio santo, a fim de oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (2,4-6). O mistério salvífico está compendiado neste trecho no qual o apóstolo patenteia que Cristo “carregou pessoalmente, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro a fim de que, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça, porquanto por suas chagas é que fostes curados” (2,24). Deveres especiais do cristão são então enumerados. Aconselha às mulheres: “Vosso adorno não deve consistir em exterioridades, como cabeleiras artísticas, jóia de ouro, trajes de gala, mas deve ser a pessoas interior, com o espírito de mansidão e tranqüilidade. Isto, sim, é altamente precioso diante de Deus” (3,3). Aos maridos recomenda que respeitem suas esposas, “porque também elas são co-herdeiras da graça da vida” (3,7). Insiste na fraternidade: “Todos, enfim, cultivai o espírito de concórdia, de compaixão, de amor fraterno, de misericórdia e humildade. Não pagueis mal com mal, nem injúria com injúria” (3,8). Faz este apelo: “Cristo padeceu na carne. Portanto, tende também vós os mesmos sentimentos, pois aquele que sofreu na carne rompeu com o pecado, para viver o resto de sua vida, não segundo as paixões humanas, mas segundo a vontade de Deus” (4,2). Fala da parusia: “O fim de todas as coisas está próximo. Sede pois sensatos e vigiai na oração” (4,7). Nas tribulações e perseguições cumpre coragem e alegria. Assevera então: “Felizes de vós, se padeceis ultrajes pelo nome de Cristo, porque e Espírito da glória, que é o Espirito de Deus, paira sobre vós” (4,14). Acrescenta advertências gerais, antes da conclusão. Aos presbíteros adverte: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, vigiando-o, não pela força mas de bom grado, como Deus o quer; não pela sórdida ganância de lucros, mas com zelo amoroso” (5,2). Aos fiéis deixa, entre outros, esta sábia admonição: “Sede sóbrios! Vigiai! Vosso adversário, o Diabo, ronda qual leão a rugir, buscando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé, certos de que os mesmos sofrimentos atingem vossos irmãos dispersos pelo mundo” (5,8-9). Num rasgo de pulcra inspiração acrescenta: “E o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua glória eterna, a vós que sofrestes um pouco, Ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer, e vos tornar inabaláveis. A Ele o poder dos séculos! Amém!” (5,10-11). É proveitoso ler e meditar esta bela epístola! Vivê-la é atingir a eminente perfeição cristã, afastando definitivamente o indesejável esplim. * Professor no Seminário de Mariana - MG

 

Temas bíblicos (III)

SÃO PAULO E O SOFRIMENTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Apóstolo São Paulo fez do sofrimento o principal meio de seu apostolado. Ele, como mensageiro de Cristo, que percorreu mais de sete mil quilômetros a pé, movido pelo zelo pelo reino de Deus, era de aparência fraca. Sua saúde deixava a desejar. Aos Gálatas ele dizia: “Bem sabeis, eu estava fisicamente doente quando pela primeira vez vos anunciei o Evangelho” (4,13-15). Aos Coríntios afirmava: “Sim, alegramo-nos quando somos fracos, enquanto que vós sois fortes” (2 Cor 13,9). Um mal crônico experimentava o Apóstolo: “... foi colocado um espinho na minha carne ...” (Idem 12,7). Trata-se de uma verdadeira doença, de um incômodo físico e não de tentações. Com efeito, além de possuir o dom da continência (1 Cor 7,8) as dificuldades carnais são representadas por São Paulo pelo fogo (1 Cor 7,9). Poder-se-ia supor que ele se referisse às perseguições de seus inimigos, mas todos os demais discípulos de Cristo, sobretudo os apóstolos, eram duramente perseguidos. Além disto, Paulo se refere a algo muito pessoal: na minha carne. Muitos autores erroneamente diagnosticam a enfermidade de São Paulo. Walace Brockway, em sua obra “Momentos decisivos na vida dos grandes homens”, ao se referir à visão do Apóstolo na estrada de Damasco e à sua queda, assim se expressa: “Muitos dos eminentes críticos históricos e cientistas de religião acreditam que Paulo caiu em transe ou teve acesso. Isso não é improvável, pois ele sofreu de epilepsia durante toda a sua vida, como Kenkel demonstrou convincentemente”. Tal explicação não se coaduna nem com a História, nem com a Ciência. Com efeito, Allo mostra como “as visões de Paulo, que estavam gravadas tão profundamente em sua memória, não podiam ter por causa a epilepsia, pois há inconsciência total durante os grandes acessos, retendo uma lembrança muito atenuada e confusa do que lhe ocorreu e do que lhe aconteceu nos “estados crepusculares”, que precedem e que seguem” o ataque. Renié acrescenta um outro argumento: “... O epiléptico vive voltado para si mesmo e não está apto a exercer o papel de líder ou de condutor de homens, que foi o de São Paulo”. Hoje, renomados hermeneutas, especialistas no estudo da vida deste gênio do cristianismo, cientistas, particularmente médicos, ensinam que a doença que acometeu o Apóstolo foi a malária. Assim Ramsay, o Dr. Seeligmüller, Joseph Holzner. Este último assim se expressa: “... atravessando a Panfília (antiga região do Sul da Ásia Menor entre a Lícia e a Cilícia) Paulo contraiu a malária; esta febre se declara quando o organismo está em estado de esgotamento. Ele havia já passado já três vezes por este estado quando escrevia sua segunda carta aos coríntios”6.Num corpo que sofria, havia uma alma viril. Uma energia extraordinária o levaria a obrar prodígios nas quatro viagens missionárias que empreendeu. Diante do mundo pagão brilhou o valor do sofrimento. A doença passou a ser vista numa ótica cristã. Ele louvou os Gálatas: “Este meu estado físico foi para vós uma provação, e não me demonstrastes nojo nem desprezo” (4,14). Como ensina Holzner, “o sofrimento faz parte integrante da união com Cristo. Os sofrimentos dos cristãos se tornam os sofrimentos de Cristo”. São Paulo aplicava seus padecimentos pela difusão do bem: “Agora estou contente com os sofrimentos que tenho de suportar por vós. Porque assim completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor de seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24) “Per crucem ad lucem”. É pela dor cristamente aceita que se chega à luz da felicidade eterna e se pode cooperar eficazmente pela conversão dos que estão longe da Verdade. *Professor no Seminário de Mariana - MG

 

Temas bíblicos (II)

O EVANGELHO DE MARCOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelho de São Marcos apresenta peculiaridades verdadeiramente interessantes. Notável concisão e simplicidade estão a serviço de uma narração viva. Marcos tem o condão de apresentar seus personagens dentro de cenas dinâmicas. Com perspicácia destaca as posturas das pessoas, cujas manifestações estão palpitante de sentido. Após a Introdução na qual estão o batismo de Cristo, seu jejum no deserto e as tentações (1,1-13); aborda o ministério de Jesus na Galiléia (1,14-9,49) e a viagem de Cristo a Jerusalém, sua paixão, morte e ressurreição (10,1-16,20). Este Evangelho foi escrito em Roma por volta do ano de 65, conforme opinião mais comum. O autor dirige-se a cristãos não-judeus, ou seja, a gentios cristãos. A autoria de Marcos no que tange a este evangelho é certa. Trata-se, realmente, de João Marcos, discípulo de São Pedro. Este ao sair miraculosamente da prisão, “consciente da sua situação, dirigiu-se à casa de Maria, mãe de João, chamado também Marcos, onde muitos estavam reunidos em oração (At 12,12). No ano de 44, São Paulo e Barnabé “voltaram para Jerusalém, levando com eles João, chamado também Marcos” (At 12,25), que assim se associara aos dois apóstolos. Foi com eles a Perge, na Panfília, “mas aí separou-se deles para voltar a Jerusalém” (At 13,13). Não se sabe ao certo o motivo desta possível deserção. Este fato, posteriormente, seria a causa da separação de Paulo e Barnabé no início da segunda viagem paulina: “Depois de alguns dias, Paulo disse a Barnabé: “Voltemos agora para visitar os irmãos em cada cidade onde anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão passando” (At 15,36). Ora, Barnabé quis levar com eles João Marcos. Paulo, ao contrário, era de opinião que não deveriam levar consigo aquele que, já os tinha abandonado na Panfília e não os tinha acompanhado no trabalho. Desentenderam-se tanto que os dois se separaram. Barnabé tomou consigo a Marcos e navegou para Chipre” (At 15,36-39). Aliás Marcos era “primo de Barnabé” (Cl 4,10). Esteve com São Paulo em Roma, e estando prestes a regressar à Ásia Menor, diz o apóstolo aos colossenses: “Se ele for se encontrar convosco recebei-o bem” (Cl 4,10). São Pedro+, afetuosamente, de Roma, assim se refere a este evangelista: “Saúda-vos a Igreja de Babilônia, vossa companheira de eleição, como também Marcos, meu filho” (1 Pd 5,13). Ele voltou, de fato, ao Oriente, pois lemos na 2a Carta de São Paulo a Timóteo escrita também de Roma: “Somente Lucas está comigo. Procura a Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério” (4,11). São estas as passagens bíblicas referentes àquele a quem a Tradição diz, com razão, ser o autor do segundo Evangelho. Marcos foi, realmente, um discípulo de Pedro. Os argumentos a favor desta assertiva são sólidos. Nem Mateus, Lucas ou João colocam com tanto realce a figura do príncipe dos apóstolos. Logo no início de sua narrativa está a vocação de Pedro bem destacada (1,16 s). Os lances infelizes da vida de Pedro são narrados com detalhes. Como observa Eusébio, Pedro numa atitude de humildade não relatava tanto os instantes de glória, mas os momentos em que, por fraqueza humana, não foi fiel a Cristo. Assim lemos em Marcos a lamentável cena do Horto das Oliveiras, quando Cristo, que se retirara para orar, “voltou aos discípulos e os encontrou dormindo. E então disse a Pedro: “Simão, tu dormes? Não foste capaz de vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (14,37-38). No mesmo capítulo está a negação de Pedro. Como se fôra uma testemunha ocular, Marcos, cinematograficamente, narra o que houve (14,66-71). Quando Pedro pela terceira vez negou o Mestre, diz Marcos: “E neste momento um galo cantou pela segunda vez. Pedro se lembrou do que Jesus lhe tinha dito: “Antes de o galo cantar duas vezes, tu me negarás três vezes. E prorrompeu em choro” (14,66-72). Com razão, pois a tradição atribuiu a Marcos o segundo Evangelho, dado que não tendo ele presenciado os acontecimentos, para ser deste modo tão preciso, deve ter escutado, muitas vezes, a pregação de outro apóstolo. Na verdade, ele foi um ouvinte de Pedro. O fio condutor da mensagem de Pedro era a vida pública do Filho de Deus, o taumaturgo (At 1,21-22;10,34-43). Raciocina Renié: “Ora, Marcos omite o evangelho da infância e apela sobretudo para o argumento do milagre para demonstrar a divindade de Nosso Senhor, colocando particularmente em relevo o império exercido por Jesus sobre os demônios”. O grande objetivo de Marcos é eminentemente catequético, intentando divulgar a pregação do príncipe dos Apóstolos, fixando na mente de seus leitores esta verdade sublime: Jesus Cristo é o Messias, o Filho de Deus. * Professor no Seminári0 de Mariana - MG

Teologia de São Marcos
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O tema central do evangelista Marcos é a divindade de Cristo. Daí a ênfase dada aos milagres operados pelo Mestre.
Há um eixo na estrutura do texto, a partir desta indagação de Jesus: “Quem é que eu sou? (8,28). Percebe-se então uma primeira etapa na qual a messianidade de Cristo não devia ser divulgada. Depois, os discípulos têm a imagem de um Messias terreno (8,29; 8,31-33). Finalmente compreendem qual a vera missão do Prometido das nações, cujo reino não era deste mundo. Ele devia morrer e ressuscitar (Lc 24,26). Após a vinda do Espírito Santo ficaram, definitivamente, abertos os olhos deles à plena realidade da pessoa divina de Cristo.
No cerne da narrativa de Marcos está, assim, o segredo messiânico (1,34.44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,26.30; 9,9). Hemelsoet explica que “o segredo messiânico não é um artifício literário de Marcos; tem as suas raízes no próprio acontecimento messiânico; sobre este o evangelho dá testemunho. Pode-se admitir, no entanto, que Marcos o tenha acentuado intencionalmente e de modo mais esquemático do que os demais evangelistas ... O segredo messiânico, portanto, não é apenas pedagogia em vistas dos ouvintes do Evangelho; é uma condição da revelação do Messias”. É que, como observa Léon-Dufour, “Jesus não reivindicou abertamente o título de Messias antes que sua morte houvesse demonstrado claramente o significado deste título”.
Marcos fixa a divindade de Cristo com passagens marcantes. A cena do paralítico de Cafarnaum é notável. Com maestria e vivacidade o que ocorreu é mostrado para destacar estes aspectos: “Jesus, vendo a fé que os animava, disse ao paralítico: “Meu filho, os teus pecados estão perdoados”. Assevera o evangelista que alguns mestres da lei, assim pensavam: “Quem pode perdoar os pecados, a não ser Deus? “Cristo faz então o milagre: “Para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados disse ao paralítico Eu te ordeno: Levanta-te, pega a tua padiola e vai para casa!” (2,1-12) Por que é Deus, Cristo expulsa os demônios: “Cala-te e sai deste homem”. O espírito impuro, sacudindo o homem com violência, deu um forte grito e saiu dele” (1,25-26). Jesus prediz sua Paixão e Ressurreição (8,31 ss) e o fim dos tempos (cap. 13). O fato da transfiguração (cap. 9) patenteia a divindade do Filho do Homem e em pleno Calvário ressoa a voz do centurião: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15,39).
Deus e homem verdadeiro, Cristo, o Messias, é aquele que mostra uma nova ordem: “Quando ele ficou sozinho os doze, que estavam com ele, perguntaram-lhe o sentido das parábolas. Ele lhes respondeu: “A vós é revelado o mistério do Reino de Deus” (4,10). Este é um dos aspectos salientados pelo texto de Marcos: o Reino, que é escatológico e apocalíptico (cap. 13).
Após o estudo destas páginas admiráveis escritas por este evangelista, a fé do crente se robustece e ele passa a viver mais intensamente unido a Jesus, única esperança do homem.
Ler e meditar Marcos é imergir-se no que a cristologia tem de mais sublime.
* Professor no Seminário de Mariana - MG


O EVANGELHO DE MATEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelho de São Mateus, dirigido a judeus cristãos, provavelmente escrito entre os anos 70 e 90, tem como objetivo primordial demonstrar que em Cristo se realizaram as profecias. Jesus é o Messias, Filho de Davi, prometido no Antigo Testamento.
Ao narrar a concepção e o nascimento do Redentor ele diz textualmente: “Ora tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, ao qual será dado o nome de Emanuel, que quer dizer: Deus conosco” (1,22-23).
Adite-se que São Mateus tem em vista também mostrar que Cristo, o novo Moisés, veio não para abolir simplesmente a Lei mas para aperfeiçoar. O que visa o evangelista é colocar em relevo a obstinação dos judeus em não aceitar a Jesus. Este inclusive se submete à lei. Ostenta, porém, com seu poder e sabedoria a autêntica perfeição da Lei. Não aceitar Cristo é o resultado de uma oposição fortuita, fruto de uma intolerância descabida.
Uma questão pendente é quanto aos textos aramaico e grego deste evangelho. O primeiro desapareceu e só temos referência a ele através de Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, pelo ano de 110. Ele assevera que Mateus escreveu um evangelho em aramaico ou hebraico. Há ainda o testemunho de Santo Irineu, Orígenes, Clemente de Alexandria, São Jerônimo e outros. Quanto ao texto grego, a opinião tradicional é que o primeiro evangelho foi traduzido do aramaico e reproduz substancialmente o original. Não se sabe quem foi o tradutor. Trata-se não de uma tradução literal, mas de uma adaptação livre. O essencial foi conservado integralmente. Ignora-se onde e quando foi feita tal tradução, embora se possa pelos menos dizer que o trabalho foi realizado na Ásia Menor. Outros autores se afastam da explicação tradicional. Harrington assim se expressa: “A relação entre o tradicional escrito aramaico e o evangelho posterior é obscura. Mateus pode ter sido o autor da obra aramaica. É-nos impossível dar o nome do autor do Evangelho grego”. Scharbert assevera: “O atual Evangelho grego dificilmente pode ser idêntico ao tal redigido em hebraico. Mateus grego depende de Marcos; ora, parece impossível que o Apóstolo Mateus, a testemunha ocular da vida pública de Jesus, se tenha submetido tanto assim a uma testemunha secundária que nem era apóstolo. Ademais o grego de Mateus é tão castiço que não se parece com uma tradução dum original semítico, ao menos quanto às seções narrativas; os discursos de Jesus deixam entrever um fundo semítico”. Acrescenta, porém, que “em hipótese nenhuma deve ser menosprezada a tradição eclesiástica antiga, porquanto o Evangelho inteiro mostra ser escrito em benefício da comunidade judeu-cristã. Isso combina com os depoimentos no tocante a um texto original hebraico tendo Mateus como autor”.
Estas divergências em nada afetam o que é basilar: o texto do Evangelho que a tradição atribui a São Mateus é canônico, portanto inspirado. Assim o que interessa sobretudo é seu conteúdo teológico, seus pontos doutrinais.
Quanto à pessoa de Mateus, a narrativa de sua vocação se encontra nos sinóticos (Mt 9,9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). Em Cafarnaum ele exercia o mister de publicano. Estava a serviço de Herodes como portageiro, uma espécie de guarda alfandegário. Hemelsoet observa que “como publicano, sem dúvida, sabia escrever e entendia, além de sua língua materna, o aramaico, bastante bem o grego” Em Marcos e Lucas ele aparece com o nome de Levi. Segundo São Marcos era ele filho de Alfeu (Mc 2,14). O Evangelho de São Mateus apresenta três partes: A infância e a vida oculta de Cristo (1-2); seu ministério público (3-25); sua Paixão e vida gloriosa (26-28). Lagrange tem esta magistral passagem: “Mateus não tem o realismo expressivo de Marcos nas suas narrativas, nem no mesmo grau a graça enternecedora de Lucas, nem o olhar de João fixado as coisas divinas, ele contém mais palavras de Jesus, simples e diretas, e tão penetrantes que se crê ouvi-las com o acento e quase as entoações com que foram pronunciadas”.
Eis por que o Evangelho de São Mateus é o mais usado, estudado e citado.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

TEOLOGIA DE SÃO MATEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Além de deixar bem claro que em Cristo se cumpriam as Escrituras, São Mateus aborda com precisão o tema do Reino dos Céus, expressão que cinqüenta vezes aparece no texto. Diz ele que “Jesus circulava por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino, e curando toda a espécie de doença e enfermidade que havia no povo” (Mt 4,23). Aos doze apóstolos Jesus dirá: “Pregai pelo mundo: o Reino dos céus está perto” (10,17). Através de parábolas, Cristo dá a seus ouvintes uma idéia deste reino (cap. 13). Assim Ele diz: “O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra. Então esconde-o novamente e, cheio de alegria, vai vender tudo o que tem e compra esse campo” (13,44)”... é como o fermento, que uma mulher toma e mistura com uma boa quantidade de farinha, até que toda a massa fique fermentada (13,33). “... é como um grão de mostarda, que um homem pega e semeia no seu campo. É a menor de todas as sementes, mas quando cresce vira a maior das hortaliças, tornando-se até uma árvore em cujos ramos as aves do céu vão pousar” (13,31-32). É que este reino deve, de fato, se entender a todos os povos, abrigando todas as gentes. É imenso trigal no qual o homem inimigo semeia o joio (Mt 13,24). Para entrar neste reino uma condição é o desapego total dos bens materiais: “Felizes os pobres em espírito, porque a eles pertence o reino dos céus” (5,3). Outra condição é a humildade, pois Cristo disse: “Eu vos declaro esta verdade: se não vos tornardes de novo como meninos, não podereis entrar no Reino dos Céus” (Mt 18,2). Este deve ser o referencial constante em tudo: “Portanto, acima de tudo tende todo o interesse pelo Reino e pela justiça de Deus ...” (6, 33). Cumpre, porém, suportar as diversidades para alcançá-lo: “Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque a eles pertence o reino dos céus” (5, 10). Acrescente-se que elevada deve ser a perfeição de quem o aspira: “Porque eu vos digo: se a vossa justiça não superar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (5,20). A Igreja possui as chaves deste reino, pois Cristo disse a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha igreja, e as forças diabólicas não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (18, 19).
O Sermão da Montanha é uma sinopse que mostra o que deve praticar o candidato a este reino. É a carta magna da nova ordem fundada por Cristo. Proferido por Ele numa colina próximo a Cafarnaum, entre a segunda Páscoa e o Pentecostes seguinte, tem como tema central a verdadeira justiça, ou seja, a perfeição moral, indispensável ao cristão. No exórdio estão as bem-aventuranças (5, 3-12) e o papel dos discípulos neste mundo (5, 13-16). O corpo deste discurso apresenta as relações entre a Lei evangélica e a Lei mosaica (17, 48), as obras de justiça da Lei evangélica (cap. 6), a partir deste princípio geral: “Evitai praticar vossas boas obras diante dos homens para serdes notados por eles, porque assim não tereis recompensa de parte de vosso Pai que está nos céus” (6, 1). Daí as aplicações práticas: esmola, prece e jejum, sendo que tais devem ser as disposições interiores do cristão: pobreza, pureza de intenção, confiança em Deus, caridade, piedade confiante através da prece. Antes da peroração esta regra de ouro, síntese admirável de tudo: “Portanto, tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei o mesmo também vós a eles: nisso está a Lei e os Profetas” (7,12). A exortação à vigilância (7, 13-23) e a parábola da casa construída sobre a rocha encerram magistralmente esta extraordinária peça oratória que é uma sinopse da mais sublime moral prática.
Segundo Algisi o Evangelho de São Mateus pode ser considerado o Evangelho do Pai, pois o autor “mostra predileção especial pela primeira pessoa da SS. Trindade e para o seu Nome”. Este biblista mostra que vinte e uma vezes São Mateus patenteia que Jesus fala de Deus como Pai dos homens e dezessete vezes se refere a seu Pai. Aditem-se as parábolas do Pai: a parábola do servo infiel (18,23-35), a parábola dos trabalhadores na vinha (20,1-16); a parábola das bodas reais (22,1-14), a parábola dos dois filhos (21,28-31), a parábola da cizânia (13,24-30). Em São Mateus, Jesus é o Mestre que doutrina. Eis por que a mensagem celestial do Filho de Deus flui nestas páginas de maneira tão diáfana. Aí está o motivo também porque o Evangelho de São Mateus é tão referido nas pregações e na catequese em geral. * Professor no Seminário de Mariana - MG

O OBJETIVO DOS EVANGELISTAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cada evangelista teve um escopo específico. São Mateus objetivava mostrar que Jesus é o Messias, o Filho de Davi, anunciado no Antigo Testamento e ansiosamente esperado, mas rejeitado pelos judeus. Marcos intenta focalizar Cristo também como Messias, mas dá ênfase à sua filiação e missão divinas. São Lucas é claro quanto ao fim que teve em vista: “Muitos se propuseram escrever uma narração dos fatos que acontecem entre nós, como nos transmitiram o que deles foram testemunhas oculares desde o começo e, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, eu também resolvi te escrever um relato com ordem e seqüência, para que tenhas na devida conta a solidez dos ensinamentos que recebestes oralmente” (1,1-4). São João também deixou claro o móvel de seu escrito; “Jesus fez ainda, nas presença dos discípulos, muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, acreditando, tenhais vida no seu nome” (20,30-31). Nota Lavergne que “Mateus escuta e argumenta; Marcos observa e narra; Lucas examina e expõe; João reflete e comunica”7. Por isto mesmo se pode dizer que Mateus é o evangelho dos sermões; Marcos o texto dos eventos; Lucas a boa nova do gáudio cristão e João a carta dos sinais da glória de Cristo. No que tange aos textos cumpre notar que os autógrafos do Novo Testamento se perderam por força da fragilidade do material usado. Restam-nos cópias antigas desses autógrafos que são os papiros, os códices unciais, ou seja, escritos em caracteres maiúsculos sobre pergaminho, os códices minúsculos, isto é, escritos tardiamente em caracteres minúsculos e os lecionários, que são antologias de textos para o uso litúrgico. Tais antigos manuscritos do Novo Testamento se acham espalhados por bibliotecas do mundo inteiro, inclusive de Moscou e São Petersburgo. No tocante aos milagres de Cristo narrados pelos Evangelistas, objetos de ferrenha crítica por parte dos racionalistas, é preciso observar vários aspectos. Em primeiro lugar não se percebe nos textos dos evangelistas narrativas tendenciosas que explorem o maravilhoso para impor determinada doutrina. Não se percebe nada de fantasioso. Cristo realiza seus prodígios em estado de vigília, não em estados hipnóticos ou em instantes de transes psíquicos. É sua poderosa palavra que atua com autoridade de Senhor da vida e da morte, que tem poder sobre a natureza. Outras vezes, Ele, enquanto homem, se dirige ao Pai em ardentes preces e opera o milagre. Nada de práticas mágicas ou rituais esdrúxulos. Usa, por vezes, sinais significativos como o uso da saliva o caso do surdo-mudo e do cego (Mc 7,33-35; 8,23; Jo 9,6) mas fez isto à vista de todos, seguindo um uso de medicina antiga. Age com toda a sobriedade e superioridade de quem age pelo poder divino, sem mistificações, sem tratamento anterior ou preparação planejada; valeu-se dos mesmos meios e modos de agir para atingir efeitos diversos; curou pessoas à distância. Caracterizam, de fato, os milagres de Cristo a benevolência, a simplicidade, a instantaneidade da cura em quase todos os casos, a religiosidade do contexto, a discrição, a variedade dos casos, incluindo ressurreição dos mortos. Além disto, convém observar que os evangelistas não apresentam a figura de Cristo de maneira deturpada. Por não serem relatos biográficos, mas escritos voltados unicamente para a obra salvífica do Redentor, só se preocupam seus autores com o que basicamente a isto se refere. Adite-se que os autores narram o que viram e ouviram. Não inventam episódios como os escritos apócrifos que violam a realidade histórica com ficções literárias, no intuito de alimentar a fantasia de seus leitores. Os Evangelhos canônicos são sóbrios e se percebe que não há nada inventado para apresentar um melhor perfil de Cristo. Narraram o que de fato aconteceu. Os milagres de Jesus estão inseridos na sua tarefa messiânica (Mt 21,2 s). Sobre os prodígios operados por Cristo, sinais de seu poder divino, Santo Agostinho tem esta bela passagem: “Perguntemos aos próprios milagres o que eles nos dizem de Cristo. Se bem os compreendermos, veremos que têm a sua linguagem. Cristo é o Verbo de Deus, e todo o fato realizado pelo Verbo é para nós uma palavra”. Cumpre ler, reler, meditar e praticar o que transmitiram os quatro Evangelistas. Aplicar sempre as palavras na conduta de cada instante. É preciso questionar-se todos os dias, se, realmente,o que se diz e se faz está de acordo com o que Jesus ensinou. A caminhada espiritual de cada um depende, exatamente, da total e completa conformidade com a doutrina do Mestre Divino. * Professor no Seminário de Mariana – MG.



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Temas bíblicos (1)

OS TEXTOS DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Os textos bíblicos foram redigidos em três línguas: a maior parte dos livros vétero-testamentários em hebraico, alguns em aramaico e o segundo livro dos Macabeus e todo o Novo Testamento, com exceção do Evangelho de São Mateus, em grego.
Os hebreus falaram hebraico até o século sexto antes de Cristo, quando esta língua ficou restrita à liturgia e o aramaico se tornou o idioma do cotidiano.
O aramaico, muito próximo do hebraico, cujo nome vem de Aram, região do norte da Síria e da Mesopotâmia, foi, desde o oitavo século antes de Cristo a linguagem internacional da Ásia. Mais tarde o árabe o suplantou.
Todos os originais da Bíblia desapareceram. Isto se deu por causa da precariedade do material então utilizado.
Como Deus não costuma multiplicar milagres, só restaram cópias. Como sói acontecer, os copistas cometeram erros, pois apenas uma cadeia de prodígios excepcionais impediria os equívocos.
Entretanto, a mensagem divina foi transmitida integralmente.
A comparação dos diversos manuscritos comprovam ter havido modificações acidentais que não deturparam nunca o núcleo básico da revelação.
A integridade do escrito foi preservada. Descobertas de traslados antigos levam também a esta conclusão.
Diversos os motivos das falhas. Houve confusão dos caracteres então empregados muito semelhantes entre si.
No caso do hebraico, este não possuía vogais e a vocalização, que foi feita pelos rabinos, ditos massoretas, não é necessariamente a do original. Aditem-se a distração, a negligência e a ignorância de quem copiava.
Note-se que há hoje cerca de quatro mil cópias manuscritas do Novo Testamento, sendo a maior parte incompleta. As mais antigas remontam ao século quarto.
Notável foi a descoberta, em Qumran, nordeste do Mar Morto, entre 1947 e 1958 dentro de onze cavernas. Isaías completo, comentário de Habacuc, fragmentos de todo o Antigo Testamento, com exceção de Ester, dos deuterocanônicos Tobias e Eclesiásticos, mereceram especial atenção, uma vez que outros documentos foram também aí achados.
Os especialistas concluíram que a escrita é típica do século primeiro antes de Cristo e do primeiro século depois de Cristo.
A comunidade que os teria possuído seria a dos essênios, cuja característica era a santidade de vida.
Os estudos que prosseguem sobre o material encontrado vem enriquecendo a exegese bíblica, sobretudo a crítica neotestamentária.
As peripécias pelas quais passaram os livros revelados mostram que Deus, apesar de não ter querido multiplicar intervenções miraculosas, fez com que sua mensagem atravessasse íntegra os séculos e chegasse até hoje na sua prístina grandeza.
* Professor no Seminário de Mariana - MG


O CÂNON DOS LIVROS DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O catálogo dos livros inspirados da Bíblia tem sua história. O termo cânon que vem do grego e significa régua de caniço que servia para medir distâncias, na linguagem eclesiástica passou a ser regra de fé ou de conduta. Daí foi aplicado às Escrituras, que contêm esta norma e, depois, ao elenco dos livros que as compõem. Canonicidade e inspiração são termos intimamente relacionados entre si, pois todo livro canônico é inspirado. Pode haver um livro inspirado que não seja canônico, como, por exemplo, se viessem a ser encontradas certas epístolas perdidas de São Paulo. Entretanto cumpre observar que “quanto à questão teórica da possibilidade de algum livro inspirado se haver perdido, é preciso distinguir entre livro apenas inspirado e livro canônico. Ora, não parece possível que se haja perdido um livro inspirado e canônico, isto é, já universalmente reconhecido e declarado inspirado pela Igreja, pois isto suporia que a Igreja não tenha sido fiel à sua missão de guardiã das fontes da revelação, o que é inadmissível”. Deste modo ao se falar em canonicidade implicitamente se está colocando a existência da inspiração, de uma Revelação formal e verdadeira e o pronunciamento da Igreja, ainda que tácito. Uma distinção importante é entre os livros protocanônicos e deuterocanônicos. Os primeiros são aqueles cuja inspiração nunca foi, com motivos plausíveis, colocada em dúvida, não havendo controvérsias sobre eles. Os outros foram questionados por alguma igreja particular e tiveram sua aceitação universal apenas depois de anos de controvérsias. Tais livros são chamados apócrifos pelos protestantes. Os católicos chamam apócrifos livros não inspirados e que foram tidos como tais. Os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento são: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, os dois livros dos Macabeus. Aditem-se os sete últimos capítulos de Ester e certas partes de Daniel: a prece de Azarias e o cântico dos três jovens na fornalha (Dan 3,24-90), a história de Suzana e a do ídolo Bel e do dragão (Dan 13,14). Há igualmente sete livros deuterocânonicos no Novo Testamento, a saber: a carta aos hebreus, as cartas de São Tiago e de São Judas, a segunda de São Pedro, a segunda e a terceira de São João, o Apocalipse e três fragmentos: o final de São Marcos (16,9-20), o episódio do suor de sangue em São Lucas (22,43-44), a cena da mulher adúltera em São João (7,53-8,11). As bíblias protestantes, porém, trazem este livros deuterocanônicos não, porém, os do Antigo Testamento.
Quanto aos textos vétero-testamentários a Igreja os recebeu da Sinagoga. Não se pode precisar qual o critério que permitiu aos judeus fixar o seu cânon. É possível que Deus tenha revelado por algum meio quais os textos inspirados e isto pode se ter dado através dos profetas.
Como os autores do Novo Testamento se serviam da tradução dos Setenta eles admitiam a inspiração dos livros deuterocanônicos. Estes até meados do século II foram aceitos sem reservas. Por circunstâncias históricas o cânon restrito começou a prevalecer. É que nas discussões com os judeus só se podia apelar para os protocanônicos. Assim nos séculos III e IV havia insegurança quanto a afirmativa da inspiração dos deuterocanônicos, tanto mais que os apócrifos eram, às vezes, apresentados como livros sagrados. São Cirilo de Jerusalém, Santo Hilário de Poitiers, São Gregório Naziazeno, Santo Atanásio, São Jerônimo, Rufino os consideravam apenas como livros edificantes. O concílio de Florença, em 1441, enumerou os livros vétero-testamentários sem fazer a distinção dos protocanônicos e deuterocanônicos. Quanto ao novo Testamento o cânon de Muratori é o mais antigo. Caso o autor deste cânon seja Hipólito que conheceu e empregou todos os escritos do Novo Testamento, menos a carta aos filipenses, a epístola de São Judas, a segunda e a terceira carta de São João, que entretanto enumeradas no cânon, se pode asseverar que pelo fim do século segundo o cânon da Igreja romana era idêntico ao de hoje.Muratori foi um sábio italiano que encontrou o referido cânon na Biblioteca ambrosiana de Milão e o editou em 1740. No que tange ao Antigo e ao Novo Testamento, o Concílio de Trento, na sessão de 8 de dezembro de 1546, definiu, uma vez por todas, a lista completa dos livros inspirados, sendo que o Concílio Vaticano I, na sessão de 24 de abril de 187030, ratificou a mesma doutrina. A Constituição Dogmática Dei Verbum do Vaticano II afirma: “Pela mesma tradição torna-se conhecido à Igreja o cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nela cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar atuantes .... * Professor no Seminário de Mariana - MG

A INSPIRAÇÃO BÍBLICA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Para os crentes os livros que compõem as Escrituras Sagradas são inspirados por Deus, que é, deste modo, o autor principal de todos os textos bíblicos. Trata-se de uma ação especial exercida pelo Espírito Santo sobre o hagiógrafo para levá-lo a escrever. O termo foi tirado de São Paulo: “Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça; a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa”. São Pedro emprega o mesmo vocábulo: “... nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Porque a profecia nunca foi dada pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus (é que) falaram inspirados pelo Espírito Santo”.
Atinentes a estas passagens a explicação de Mannucci: “O carisma da inspiração bíblica encontrou a sua plena e explícita formulação somente nos escritos mais recentes do Novo Testamento. O que não deve causar estranheza, visto que a reflexão sobre a natureza de um fato segue sempre a afirmação do mesmo. Israel tinha consciência de que possuía a realidade da palavra de Deus, feita livro; mas ainda não se dizia claramente em virtude de que ação divina se havia realizado a encarnação num Livro da Palavra de Deus. Para responder a esta interrogação, o Novo Testamento recupera a categoria da ação do Espírito Santo (2 Pd 1,21) e introduz a categoria mais técnica da Escritura inspirada por Deus (2 Tim 3,17), tirando-a do mundo helenístico, mas sem aceitar o sentido helenista da inspiração divinatória”.
Adite-se que Cristo afirmou claramente a inspiração do salmo 109, declarando que Davi falou pelo Espírito Santo. Ele, muitas vezes, apelou para o testemunho das Escrituras nos debates com os judeus. Assim esta passagem: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna; e elas são as que dão testemunho de mim”.
Há no Novo Testamento trezentas e cinqüenta citações do Antigo Testamento, sendo que oitenta foram feitas por São Paulo. Ele e os demais apóstolos apelam para os trechos que provam ser Cristo o Messias. Vêem, assim, nas palavras dos autores da Antiga Aliança oráculos divinos. Quanto ao Novo Testamento, São Pedro coloca as cartas de São Paulo entre as Escrituras. São João no prólogo do Apocalipse declara a origem divina do livro que escreve. A tradição, por outra, confirma peremptoriamente o caráter inspirado dos livros canônicos da Nova Aliança. São Clemente de Alexandria assim se expressa sobre a inspiração: “O que com juízo firme crê nas divinas Escrituras recebe na voz de Deus, que as outorgou, uma demonstração inexpugnável; a fé, pois, não é algo que toma sua força de uma demonstração”. Ao se aprofundar a noção de inspiração se pode afirmar com Renié que esta ilumina a inteligência e as faculdades intelectuais dos escolhidos por Deus; determina a vontade a escrever e influencia sobre as diversas faculdades que concorrem para a composição das obras18. Lusseau et Colomb sintetizam assim esta questão: “Os livros que compõem a Bíblia são inspirados, isto é, redigidos por homens, que sob o influxo especial do Espírito Santo, têm Deus por autor; os escritores inspirados tomaram parte ativa na elaboração dos Livros Santos; eles são também verdadeiramente autores da Escritura; a colaboração de Deus e do homem na elaboração dos escritos sagrados não poderia ser explicado pela hipótese de um concurso simultâneo; ela exige uma subordinação do hagiógrafo ao Espírito Santo de tal forma que este seja, no sentido verdadeiro do termo, autor principal e aquele, autor instrumental da Sagrada Escritura. Cumpre observar com Mackenzie que “são poucos os livros bíblicos que contam com um único autor e os anônimos não são a minoria; eles são o resultado de longo processo de evolução. Neste caso Deus inspirou os diversos autores que participaram da elaboração de um livro na medida exata de sua contribuição. O Espírito Santo, portanto, guiou todo o processo da formação de um texto. Pierre Grelot especifica esta atuação divina, declarando que “Deus fez com que sua Palavra chegasse aos homens e fosse integralmente conservada no seu povo por meio de três espécies de carismas, conferindo a uns a missão de profeta e de apóstolo, assistindo outros no exercício de diversas funções, inspirando outros ainda para que escrevessem livros”. Por serem inspirados por Deus os Livros da Bíblia comunicam a Verdade que salva e liberta. * Professor no Seminário de Mariana - MG


REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO BÍBLICAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No que tange à revelação e à inspiração bíblicas, pertinente este esclarecimento de Dom Estêvão Bettencourt: “A inspiração não acrescenta noções novas ao autor humano, mas se serve das que ele possui, para que ele redija seu texto divino-humano. A revelação, porém, acrescenta ao autor conhecimento que ele não tem. Ora é verdade que nem todas as páginas da Bíblia nos trazem profecias ou noções inéditas em relação ao ambiente cultural do autor sagrado. Sabemos que o livro dos provérbios tem semelhança com textos do Egito; não obstante, o livro dos provérbios é todo inspirado, embora não traga revelação nenhuma”. Com efeito, a inspiração bíblica não significa revelação. Deus não comunicou ao autor sagrado verdades que ele não houvesse aprendido, mas se serviu delas para comunicar aos homens as realidades maravilhosas do mundo sobrenatural. O Espírito Santo iluminava o hagiógrafo de tal forma que ele percebesse claramente, com certeza divina, serem algumas nações já possuídas veículos da mensagem que Deus desejava transmitir aos homens e outras não aptas a tal sublime fim. Deste modo o que está na Bíblia vem de Deus. Uma explicação de Lagrange ilustra este fato: “Dando a luz da inspiração ... Deus comunicava à vontade do hagiógrafo o impulso necessário ... para rejeitar ou admitir. Desde então essa página humana tomava outra índole: ... em sua existência, essa página se tornava divina, garantida por Deus, inserida no livro de Deus, por especial efeito de sua vontade”. De tudo isto resulta que Deus é o inspirador de todos os textos bíblicos, sendo assim seu autor principal. É que Ele exerceu um influxo interno sobre o escritor sagrado, a saber, sobre sua inteligência, vontade e faculdades executivas. Deste modo o homem foi um instrumento, não objeto meramente mecânico, nas mãos do Ser Supremo. No ato da Inspiração, nem sempre houve revelação, mas sim um juízo sobrenatural sobre algo já conhecido. Adite-se que o autor inspirado pode não ter tido consciência de sua inspiração e ele gozou sempre de plena liberdade, mas, dada a ação divina, ele só escreveu o que Deus quis. Não houve um ditado por parte do Espírito Santo no sentido servil da palavra. Houve, sim, um ditado verbal, ou seja, uma real inspiração no que se refere aos conceitos. Daí resulta a inerrância bíblica, ou, como proclama a Constituição Dogmática, sobre a Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, Dei Verbum, “os livros das Escrituras ensinam, firmemente, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, para nossa salvação, desejou ver confiadas às Sagradas Escrituras”. Célebre a declaração de Santo Tomás: “Tudo que diz a Sagrada Escritura é verdadeiro”. Ante as ciências históricas e naturais é mister, contudo, uma análise acurada de cada parte, observando-se o contexto, o significado que o autor humano deu a suas expressões, o modo de pensar oriental. Esta inerrância, além disto, deve ser compreendida em termos de usos lingüísticos habituais. Em síntese, a Bíblia não contém erro algum, pois é impossível que o Criador inspirasse algo formalmente errado. Os originais é que gozam de tal prerrogativa. É óbvio que os textos atuais não possuem erros enquanto estão de acordo com os originais. Na transmissão através dos tempos da Palavra de Deus as corruptelas se deram em partes não essenciais, de pouca importância, sem afetar o núcleo fundamental inspirado. Quando se fala em inerrância bíblica se entende isto referente ao sentido certo e determinado que o hagiógrafo teve intenção de exprimir. Note-se que a linguagem empregada pela Bíblia é a popular, não a científica. Cumpre se ater aos gêneros literários para que se possa captar a verdade bíblica. O que caracteriza o gênero literário é o liame que existe entre a forma e o conteúdo expresso. Trata-se assim de aspecto fundamental a ser observado. O Vaticano II ensina: “Entretanto, já que Deus na Sagrada Escritura falou através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras. Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também “os gêneros literários”. Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos que são de vários modos históricos, proféticos ou poéticos, ou nos demais gêneros de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meios dos gêneros literários então em uso”. Desta maneira se compreende melhor a Palavra de Deus. * Professor no Seminário de Mariana - MG

VISÃO GLOBAL DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Antigo e Novo Testamento encerram a aliança que o Todo-Poderoso em sua admirável magnanimidade quis estabelecer com os homens. Primeiro com Moisés no Sinai e depois com Cristo, o qual no Gólgota selou, definitivamente, o pacto entre a divindade e a humanidade. Todos os quarenta e seis livros que compõem as Sagradas Escrituras giram em torno do mistério da Redenção humana.Apesar das partes da Bíblia serem escritas em várias línguas, por inúmeros autores e em contextos e lugares diversos, apresentando vários gêneros literários, nota-se uma impressionante unidade em toda a obra. Isto ocorre por ter ela um único autor principal e um mesmo objeto comum. A antiga aliança preparou a vinda do Messias; a nova aliança patenteia este Messias, suas obras e sua doutrina. Observa Paul Claudel que “o Antigo Testamento é incompreensível sem o Novo, que vem tudo preencher, justificar e explicar”. A revelação divina foi feita progressivamente. Adite-se a explicação de Richard France lembrando que enquanto se procura descobrir a autoridade de Jesus por Ele se é conduzido a descobrir a autoridade da Bíblia: “Não podemos atingir uma sem a outra. Sem dúvida, Jesus revelou Deus no homem de um modo que a letra do Antigo Testamento jamais teria podido fazer”. Adite-se que Cristo se referiu inúmeras vezes às Escrituras, estando sua doutrina enraizada nos ensinamentos vétero-testamentários, como se pode verificar a cada passo dos Evangelhos. É que o Antigo Testamento contém a Palavra Divina que Ele veio confirmar, esclarecer, completar e cumprir, realizando a obra salvífica por Ele preparada. O que confere às Escrituras um caráter sagrado é a inspiração divina. Desta é que vem a autoridade do Livro Santo. O papa Leão XIII na sua Encíclica Providentissimus Deus sobre o Estudo da Sagrada Escritura cita o Concílio Vaticano I: “Os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, em todas as partes, tais como são enumeradas pelo decreto do mesmo Concílio de Trento, e tais como estão contidos na antiga edição vulgata em latim, devem ser considerados como sagrados e canônicos. Tem-nos a Igreja por sagrados e canônicos não porque, redigidos só pela ciência humana, foram em seguida aprovados pela autoridade da dita Igreja; não porque só encerram a verdade sem erro; mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, a Deus têm por autor”. (Sess. III, c. II, de revel.). A Bíblia mostra este Deus agindo na história. Eis por que a Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II assevera que o plano de revelação divina “se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras”. É que “a história faz parte do testamento de fé da Bíblia”. Como, porém, o objetivo bíblico é religioso, ou seja, salvífico e cristológico, ela não apresenta um tratado histórico no sentido moderno, cientifico do termo. A atuação divina é o primordial para o autor sagrado, o resto é secundário e só serve de pano de fundo para a mensagem a ser transmitida. Não obstante isto, historiadores, através de hodiernas pesquisas científicas, têm confirmado eventos narrados pela Bíblia, que, deste modo, se torna, por outra, valiosíssima fonte histórica. Observa com razão Diego Arenhoevel que “o fato de acontecimentos históricos estarem integrados na mensagem bíblica não implica absolutamente em que todos os minuciosos registros de um sem número de pormenores que ocupam páginas inteiras do Antigo Testamento foram elevados à categoria de verdade da fé”. A propósito nota Kenneth Howkins que “o mais importante não é saber se determinado fato aconteceu ou não, e sim saber o que ele significa”7. A divisão da Bíblia em capítulos numerados foi feita por Estêvão Langton, professor em Paris e mais tarde Arcebispo de Canterbury, falecido em 1228. A divisão em versículos é mais recente ainda. O dominicano Santos Pagnino em 1528 iniciou o trabalho didático-prático desta subdivisão. Roberto Etienne, redator parisiense, a empregou na margem de sua edição grega do Novo Testamento em 1551 e de outras publicações dos Livros Sagrados. Teodoro de Beza a passou para o texto em 1565. Tal maneira de proceder facilitou as citações e acabou se tornando universal. Cumpre ler e estudar a Bíblia, porque, como lembra Tanquerey, ela é para nós “a palavra de Deus, uma carta escrita para nós pelo nosso Pai do céu, a comunicar-nos o seu pensamento e os seus desígnio sobre nós”. Cumpre então apreender as tocantes mensagens deste manancial de sabedoria sobrenatural, nutrimento da vida espiritual. *Professor no Seminário de Mariana - MG





OS POBRES E A ORAÇÃO EM SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Os pobres têm um lugar privilegiado no texto do Evangelho de São Lucas.
A parábola de Lázaro e do mau rico é expressiva (16,19-31). Este endeusa seu bem-estar, enquanto que ao pobre nem é dado apanhar as migalhas que são lançadas fora da mesa. O Papa Bento XVI no seu extraordinário livro intitulado “Jesus de Nazaré” mostra que “esta parábola, à medida que nos desperta, é ao mesmo tempo um apelo para o amor e para a responsabilidade que precisamos agora ter para com os nossos irmãos pobres, quer no plano da sociedade mundial quer na pequenez do nosso cotidiano”.
Multiplicam-se no Evangelho de São Lucas as passagens em que a pobreza de espírito, o desapego dos bens terrenos que é sabiamente inculcado por Cristo. Encontram-se em Lucas passagens como estas: “Como é difícil para os que possuem riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (18,24-25)... “não andeis muito preocupados em relação à vossa vida, com o que tereis para comer, nem relação ao vosso corpo com o que tereis para vestir” (12,22 .) “Vendei o que possuís e dai-o de esmola. Fazei para vós bolsas que não se gastem, um tesouro nos céus que não se esvaziará, do qual o ladrão não aproxima e a traça nada destrói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração” (12,34). É deste modo que os batizados se tornam uma verdadeira comunidade dos pobres de Deus, na qual não deve haver ricos de coração vazio, nem pobres que nada possuem mas que podem estar contaminados pela cobiça da posse das coisas terrenas. Alerta Bento XVI, na obra acima referida, que a verdadeira pobreza evangélica “não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus”.
No Evangelho de Lucas a oração tem realce especial. Jesus entregue à prece é um dos destaques feitos por este evangelista. Ele apresenta as qualidades da prece autêntica: humildade, tão bem traçada na parábola do fariseu e do publicano (18,9-14); a perseverança, é inculcada na parábola do amigo importuno (11,5-3), da viúva e do juiz iníquo supra referidas. Joseph Ratzinger lembra que “é muito característico para São Lucas ter atribuído à oração de Jesus um lugar muito especial no seu Evangelho. A ação de Jesus em geral surge da sua oração, é suportada por ela. Assim, acontecimentos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se desvela o seu mistério, aparecem como acontecimentos que brotam da oração. A confissão de Pedro a respeito de Jesus como o Santo de Deus relaciona-se ao encontro com o Jesus orante (Lc 9, 19 ss); a transfiguração de Jesus é um acontecimento que surge da oração (Lc 9,28ss). Por isto, é significativo que São Lucas coloque o Pai Nosso em relação com a própria oração de Jesus. Ele nos torna assim participantes na sua própria oração. Ele nos introduz no diálogo interior do amor trinitário, puxa, por assim dizer, para cima as nossas necessidades humanas até o coração de Deus”.
Eis aí aspectos fundamentais da teologia de São Lucas a deixar para os discípulos de Cristo lições sublimes, legadas pelo Mestre divino.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

O EVANGELHO DE SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Lucas, convertido do paganismo, não pertenceu ao grupo dos discípulos imediatos de Cristo, foi o autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. São Paulo mostra sua nobre profissão ao se dirigir assim aos colossenses: “Lucas, o querido médico, vos saúda e Demas também” (Cl 4,14). Ele acompanhou Paulo a Filipos, “cidade do primeiro distrito da Macedônia e colônia romana” (At 16,12) e aí ficou. Seis anos mais tarde ele se junta de novo a seu mestre quando este passa de novo em Filipos, para levar a Jerusalém o dinheiro recolhido na Macedônia (At 20,5-6). Fez com Paulo uma viagem à capital do Império: “Quando chegamos a Roma, Paulo recebeu licença para morar em domicílio próprio com soldado para o guardar” (At 28,16). No segundo cativeiro de São Paulo em Roma ele lá estava pois o Apóstolo escreveu a Timóteo: “Somente Lucas está comigo. Procura Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério (2 Tm 4,11). Na carta a Filémon, escrita em Roma, lemos: “Epafras que partilha comigo a prisão por Cristo, e os meus colaboradores Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, te mandam muitas lembranças” (v. 23-24). São Lucas usou diversas fontes para escrever o seu Evangelho. Ele mesmo assevera: “Muitos se propuseram escrever uma narração dos fatos que aconteceram entre nós, como nos transmitiram os que deles foram testemunhas oculares desde o começo e, depois, se tornaram ministros da Palavra” (1,1-2). Ele compulsou documentos escritos como o Evangelho de São Mateus e São Marcos, e escutou pessoas, entre as quais os apóstolos. Utilizou-se destes fatos com maestria e reescreveu o que leu e ouviu com suma fidedignidade e raro talento. No que tange aos dois primeiros capítulos de São Lucas, Ortensio da Spinetoli observa que “ainda que apresente traços originais, não habituais numa obra histórica, o Evangelho da infância (Lc 1-2) não tem as características de uma composição lendária. Sem dúvida, quem não aceita o sobrenatural, considera o conjunto das narrativas de Lucas 1-2 como míticas. Todavia, tal prevenção preconcebida não pode ser levada em séria consideração. Por isto a historicidade de Lucas 1-2 não pode ser seriamente posta em dúvida. Do ponto de vista puramente literário, as narrações não têm o colorido e as características de uma obra de ficção. Os protagonistas reaparecem em outros escritos de historicidade não dúbia (os Evangelhos) e se movem em uma moldura topográfica suficientemente garantida”. Sobre estes episódios estas observações de Estêvão Bettencourt: “A infância de Jesus em São Lucas é narrada de maneira intencionalmente artificiosa. De um lado, refere-se fatos reais, pois São Lucas logo no prólogo de seu Evangelho faz questão de se apresentar como historiador criterioso e fidedigno. Verifica-se também que o estilo de Lucas 1-2 difere muito das lendas de heróis pagãos, assim como dos das estórias dos Evangelhos apócrifos; nestes o maravilhoso é desarrazoado ou despropositado, chegando às raias do ridículo [...] De outro lado, observa-se que as narrativas da infância de Jesus em Lucas 1-2 fazem eco a numerosas profecias do Antigo Testamento. Dir-se-ia que o Evangelista intencionou apresentar tais episódios como sendo o cumprimento de vaticínios das Escrituras de Israel, principalmente as profecias de Dn 9 e Ml 3 inspiram a maneira como São Lucas dispôs e apresentou os episódios da infância de Jesus”. Com dedicatória a Teófilo, ele escreveu este Evangelho para os gentios, provavelmente antes do ano 62. Observa-se Hemelsoet que “na antigüidade livros eram dedicados a alguma pessoa importante a fim de que cuidasse da divulgação. Lucas dedica seu escrito a Teófilo (At 1,1), mas sem dúvida o texto é destinado a um público mais vasto. Lucas dirige-se propriamente às comunidades gentio-cristãs”. Não se sabe onde foi redigido este Evangelho. Além do prólogo, há quatro partes: a infância de Cristo (1,5-2,52); o ministério de Jesus na Galiléia (3,1-9,50); a viagem a Jerusalém (9,51-19,28); a Paixão e Ressurreição (19,23-24,53). São Lucas descreve a vida de Cristo que, ao rumar para Jerusalém, faz isto com a consciência de quem só entra naquela cidade para realizar o ato redentor da humanidade decaída. Escreve ele com raro talento literário. Os biblistas unanimemente exaltam a maneira elegante com que São Lucas se exprime em grego, a ponto de Renan ter declarado que o terceiro Evangelho é “o mais belo livro que existe”. Diz Renié que “se Marcos é inigualável pela vivacidade de suas cenas, Lucas o suplanta pela fineza da observação, pela harmonia e equilíbrio da composição. Releiam-se as parábolas encantadoras, sob o simples ponto de vista literário, do bom samaritano, do filho pródigo, ou da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús”. Tudo isto é um convite a que se estudem estas pulcras páginas, cuja doutrina teológica é, por outra, tão sublime e profunda. * Professor no Seminário de Mariana - MG


TEOLOGIA DE SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Se de um lado tantos são aqueles que exaltam a beleza literária do Evangelho de São Lucas, não poucos são os que ressaltam a grandeza teológica deste texto.
Lucas tem em vista apresentar um escrito coeso, fazendo trilhar a solidez doutrinária daquilo que Cristo ensinou.
A vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo são apresentadas de uma forma orgânica, numa concatenação admirável, culminando com a ascensão. Este é o fecho do Evangelho, no qual Lucas mostra que Jesus conduziu os apóstolos “até perto de Betânia e, impondo as mãos sobre eles, os abençoou. E, enquanto os abençoava, foi se afastando deles, e subindo para o céu. Eles se prostraram diante de Jesus e, depois, voltaram cheios de alegria a Jerusalém e permaneciam continuamente no Templo bendizendo a Deus” (24,50-51).
Admirável o universalismo deste Evangelho: A mensagem de Cristo se dirige a todas as gentes.
Eis alguns lances desta visão universal lucana: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por ele amados” (1,14). Ele registra as palavras de Simeão no templo, o qual se refere a Cristo, “uma luz para iluminar as nações” (2,32). O Redentor ressuscitado abre o espírito de seus epígonos e lhes diz: “Estava escrito que Cristo iria sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados seria proclamada às nações a começar de Jerusalém” (24,47). Relata ainda o que Cristo disse a um gentio, o centurião do qual ele cura o servo: “Eu vos garanto: nem mesmo em Israel achei tamanha fé” (7,9). A parábola do bom samaritano é por ele narrada muito a propósito (10,30-37). Comenta Harrington: “Com certeza Jesus achou que através dessa história pungente e sugestiva, tirada do mundo cotidiano de seu povo, poderia inculcar-lhe a verdade de que todas as barreiras, todas as distinções de pessoas caem perante as exigências absolutas do amor”.
Mackenzie observa que “uma das provas do universalismo de Lucas reside na importância que ele dá às mulheres: em Lucas aparecem mais mulheres do que nos outros três evangelhos”.
No mundo helenista, a posição social e legal da mulher era melhor do que no judaísmo, e Lucas desejava mostrar claramente que o evangelho não assumia a atitude judaica em relação à mulher”. De fato, através de seu Evangelho deparamos, além da figura excelsa da deípara Maria, Isabel, mãe de João Batista (1,39-58); a profetiza Ana (2,36-38); a viúva de Naim (7,11-17); a pecadora arrependida (7,36-58); as mulheres da Galiléia que acompanhavam a Jesus no ministério público, como Maria Madalena, Joana, Suzana (8,2 s; 23,55 s); Marta e Maria (10,38-42). Foi uma mulher que proclamou bem-aventurada a Mãe de Jesus (11,27 s). Ele registrou ainda a cena das mulheres de Jerusalém que saíam ao encontro de Jesus a caminho do Gólgota (23,27-31). Nas parábolas da dracma perdida (15,8-10) e do juiz iníquo (15,1-8), duas mulheres estão em cena.
Adite-se que Lucas é o evangelista da misericórdia. Duas parábolas sobretudo falam da generosidade divina; a do filho pródigo e a da ovelha perdida (cap. 15).
Em ambas aparece claramente a bondade divina para com os pecadores. Imensa é sua compaixão.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

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