Monday, September 10, 2007

 

A Igreja e a Bíblia

A IGREJA E A BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quem traceja estas linhas já escutou em palestras de leigos católicos bem intencionados equívocos clamorosos como estes: “A Igreja proibia antigamente o povo ler a Bíblia”... “Foi o Concílio Vaticano II que começou incentivar a leitura da Sagrada Escritura ...”. E outros disparates. Em primeiro lugar é preciso fique claro que em todas as celebrações litúrgicas sempre houve passagens bíblicas e as homilias dominicais no decorrer dos séculos são reflexões a partir da Escritura. Nos primórdios da Igreja ao surgirem as heresias se apelava para as Sagradas Letras. Páginas auríferas dos Santos Padres e demais teólogos que enriquecem a literatura eclesiástica são comentários bíblicos do mais alto valor. Santo Agostinho, por exemplo, deixou profundo estudo sobre o Evangelho de São João. São Teófilo, sexto bispo da Antioquia que se converteu, lendo a Bíblia: “Não sejais, pois, incrédulo, mas crê. Pois tão pouco eu em outro tempo cria que Ele existisse. Agora, porém, após madura reflexão creio, por que justamente li as Sagradas Escrituras dos santos profetas, as quais inspiradas pelo Espírito Santo, predisseram o passado tal como passou, o presente tal como sucede e o porvir tal como sucederá”. Orígenes, no século III, em carta a Gregório Taumaturgo, aconselhava: “Mas tu, senhor e filho meu, atende antes de tudo à leitura das Sagradas Escrituras, sim, atende bem. Por que devemos por muita atenção quando lemos as Escrituras, para que não falemos ou pensemos demasiado temerariamente acerca delas ... Atento à leitura divina busca com retidão e com fé inquebrantável em Deus o sentido das letras divinas, oculto para a maioria. Mas não te contentes com chamar e buscar, porque para entender as coisas divinas o mais necessário é a oração”. Santo Ambrósio no século IV exorta às Virgens a ler as Escrituras e a cantar os salmos. São Jerônimo no século V, escreveu a Eustóquia, filha de Santa Paula: “Lê com freqüência e aprende o melhor que possas. Que o sono te encontre com o livro nas mãos e que a página sagrada acolha o teu rosto vencido pelo sono”. No mesmo século asseverava São João Crisóstomo: “O gosto da palavra de Deus é não somente mais doce do que o mal, mas também é mais precioso do que o ouro e pérolas, mais puro do que a prata”. No dizer de S. Beda, o Venerável, “leite e mel o que são o Antigo e o Novo Testamento na Igreja”. Rufino de Aquiléia testemunhou sobre São Gregório Naziazeno e São Basílio: “Durante treze anos segundo dizem tendo deixado de lado todos os livros pagãos gregos, entregaram-se ao estudo dos livros da Escritura Divina, que eles procuravam entender, apoiados não em seu juízo próprio, mas nos escritos e na autoridade dos antepassados”7. Os testemunhos se multiplicam através dos séculos, mostrando que a Bíblia sempre foi venerada pelos cristãos. Dom Estêvão Bettencourt lembra que o livrinho “intitulado Seelentrost (consolo da Alma), escrito em 1407, publicado em doze edições sucessivas até 1523, exprimia-se do seguinte modo: “O consolo da alma está nos ensinamentos divinos e na meditação da Sagrada Escritura. Deves ler e ouvir com prazer os livros da Bíblia, porque, assim como o corpo vive do alimento terrestre, a alma vive da mensagem divina; sim, o homem vive não somente do pão cotidiano, mas também da Palavra que sai da boca de Deus ou da Sagrada Escritura”. Segundo Santo Tomás de Aquino a Bíblia leva à vida da graça à qual nos dispõe; à vida da justiça, consistindo no reto obrar, para a qual nos dirige; à vida da glória que promete. É obvio, por outra, que antes da invenção da imprensa e do papel, o que só ocorreu no século XV, a divulgação do Livro Santo, na proporção de hoje, era impossível. A arte gráfica foi evoluindo aos poucos e as grandes tiragens com recursos e técnicas sofisticadas são bem recentes. Mesmo quando a Missa era ainda em latim os Missais e folhetos traziam, ao lado do texto latino, a tradução em vernáculo. Célebres as edições, vertidas do francês, da obra de D. Gaspar Lefebvre, iniciada em 1916, e dos monges beneditinos da abadia de Santo André, de Burges na Bélgica, que posteriormente o auxiliaram. Numa das edições do Original, datada de 15 de janeiro de 1953, está belíssima carta do Cardeal Liénart, bispo de Lille a D. Lefebvre. Esta epístola assim se inicia: “Após a Bíblia, que é obra de Deus, não existe livro mais belo do que o Missal, o qual é divino e humano. A Igreja, para o compor no curso dos séculos (grifo nosso), tomou da Sagrada Escritura textos admiráveis que dispôs como jóias valiosas em torno da parte imutável da Missa”. * Prof. no Seminário de Mariana - MG

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