Monday, September 10, 2007
A escritura, tradição e magistério
A ESCRITURA, A TRADIÇÃO E O MAGISTÉRIO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum ensina que “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, constituem um só Sagrado Depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja” (n. 10). O mesmo documento define uma e outra fonte da revelação divina: “A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam” (n. 10). Mostra então o texto conciliar que “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo” (n. 10). Ressalta, porém, que “tal Magistério evidentemente não está acima da Palavra de Deus, mas a seu respeito, não ensinando senão o que foi transmitido” (n. 10).
O ensino oral teve importância capital nos primórdios do cristianismo e a mensagem de Cristo foi transmitida oralmente antes de ser compendiada pelos Evangelistas. Pelos mesmos textos escritos sabemos da existência de uma tradição vigorosa. Assim é o que consta neste trecho de São Paulo: “Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo tinha aprendido; que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos onze” ... (1 Cor 15,3-4 ss). Aos coríntios ele diz ainda: “Eu vos louvo, pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções como eu vo-las ensinei” (1 Cor 11,2). Aos filipenses o mesmo apóstolo afirma: “O que aprendestes, recebestes e ouvistes de mim e verificastes em mim, isso é que deveis praticar” (Fl 4,9). No início do Evangelho de São Lucas lemos que “muitos tentaram compor um relato dos acontecimentos, assim como os transmitiram aqueles que desde o começo foram testemunhas e ministros da Palavra” (Lc 1,2).
Entretanto, assim como Cristo com sua autoridade divina interpretou para os seus discípulos a Escritura que fôra transmitida por aqueles que o Espírito Santo inspirou, os apóstolos e depois seus sucessores, sob guia do mesmo Espírito continuaram a velar pelo depósito revelado e a interpretá-lo. Eis a explicação dada por De Fraine: “É portanto a tarefa do carisma apostólico transmitir o mais fielmente possível aquilo que foi recebido de Cristo. Esta tarefa compete em primeiro lugar aos “apóstolos por excelência”, mas depois também aos seus sucessores na Igreja que é o “corpo de Cristo”, em que seu espírito continua a agir, não se pode, portanto, ignorando esta continuidade, construir uma distinção entre “tradição apostólica” (perpetuada o melhor possível na Sagrada Escritura) e a tradição eclesiástica ...”.
É o que frisa também Mannucci, notando que “os estudos bíblicos e a reflexão teológica fizeram com que todos tomassem consciência, inclusive os protestantes, de que Escritura e Tradição não são duas realidades dissociáveis entre si; a Tradição precede a Escritura; a própria Escritura é fruto da elaboração da Tradição, e até mesmo seu momento privilegiado, a Tradição continua também depois da Escritura; a Escritura como momento privilegiado da Tradição constitui o primeiro critério de validade para julgar o desenvolvimento sucessivo da Tradição”.
Todos estes aspectos são de vital importância para que se compreenda o papel da Igreja no que tange à reta compreensão da Bíblia Sagrada.
Como observa D. Estevão Bettencourt, “a tradição oral, sendo anterior à Bíblia, é o único critério para se elucidarem questões atinentes à Bíblia, a começar pela questão capital: “Quem me garante o que no estudo da Escritura, isto é, que tais livros têm autoridade divina?” Naturalmente não qualquer voz da Tradição, merecerá crédito, mas, sim, aquele testemunho constante e unânime que, tendo atravessado ininterruptamente os séculos, hoje se manifesta no Magistério da Igreja”.
Isto mostra a garantia que os fiéis possuem de receberem, de fato, a genuína Palavra de Deus.
Cumpre, pois, total adesão ao Magistério, que, desta maneira, sempre fala assistido pelo Espírito Santo. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum ensina que “a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura, constituem um só Sagrado Depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja” (n. 10). O mesmo documento define uma e outra fonte da revelação divina: “A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto é redigida sob a moção do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles por sua pregação fielmente a conservem, exponham e difundam” (n. 10). Mostra então o texto conciliar que “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo” (n. 10). Ressalta, porém, que “tal Magistério evidentemente não está acima da Palavra de Deus, mas a seu respeito, não ensinando senão o que foi transmitido” (n. 10).
O ensino oral teve importância capital nos primórdios do cristianismo e a mensagem de Cristo foi transmitida oralmente antes de ser compendiada pelos Evangelistas. Pelos mesmos textos escritos sabemos da existência de uma tradição vigorosa. Assim é o que consta neste trecho de São Paulo: “Porque, antes de tudo, ensinei-vos o que eu mesmo tinha aprendido; que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras; e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras, e que foi visto por Cefas, e depois pelos onze” ... (1 Cor 15,3-4 ss). Aos coríntios ele diz ainda: “Eu vos louvo, pois, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções como eu vo-las ensinei” (1 Cor 11,2). Aos filipenses o mesmo apóstolo afirma: “O que aprendestes, recebestes e ouvistes de mim e verificastes em mim, isso é que deveis praticar” (Fl 4,9). No início do Evangelho de São Lucas lemos que “muitos tentaram compor um relato dos acontecimentos, assim como os transmitiram aqueles que desde o começo foram testemunhas e ministros da Palavra” (Lc 1,2).
Entretanto, assim como Cristo com sua autoridade divina interpretou para os seus discípulos a Escritura que fôra transmitida por aqueles que o Espírito Santo inspirou, os apóstolos e depois seus sucessores, sob guia do mesmo Espírito continuaram a velar pelo depósito revelado e a interpretá-lo. Eis a explicação dada por De Fraine: “É portanto a tarefa do carisma apostólico transmitir o mais fielmente possível aquilo que foi recebido de Cristo. Esta tarefa compete em primeiro lugar aos “apóstolos por excelência”, mas depois também aos seus sucessores na Igreja que é o “corpo de Cristo”, em que seu espírito continua a agir, não se pode, portanto, ignorando esta continuidade, construir uma distinção entre “tradição apostólica” (perpetuada o melhor possível na Sagrada Escritura) e a tradição eclesiástica ...”.
É o que frisa também Mannucci, notando que “os estudos bíblicos e a reflexão teológica fizeram com que todos tomassem consciência, inclusive os protestantes, de que Escritura e Tradição não são duas realidades dissociáveis entre si; a Tradição precede a Escritura; a própria Escritura é fruto da elaboração da Tradição, e até mesmo seu momento privilegiado, a Tradição continua também depois da Escritura; a Escritura como momento privilegiado da Tradição constitui o primeiro critério de validade para julgar o desenvolvimento sucessivo da Tradição”.
Todos estes aspectos são de vital importância para que se compreenda o papel da Igreja no que tange à reta compreensão da Bíblia Sagrada.
Como observa D. Estevão Bettencourt, “a tradição oral, sendo anterior à Bíblia, é o único critério para se elucidarem questões atinentes à Bíblia, a começar pela questão capital: “Quem me garante o que no estudo da Escritura, isto é, que tais livros têm autoridade divina?” Naturalmente não qualquer voz da Tradição, merecerá crédito, mas, sim, aquele testemunho constante e unânime que, tendo atravessado ininterruptamente os séculos, hoje se manifesta no Magistério da Igreja”.
Isto mostra a garantia que os fiéis possuem de receberem, de fato, a genuína Palavra de Deus.
Cumpre, pois, total adesão ao Magistério, que, desta maneira, sempre fala assistido pelo Espírito Santo. * Professor no Seminário de Mariana - MG