Friday, September 07, 2007

 

Temas bíblicos (II)

O EVANGELHO DE MARCOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelho de São Marcos apresenta peculiaridades verdadeiramente interessantes. Notável concisão e simplicidade estão a serviço de uma narração viva. Marcos tem o condão de apresentar seus personagens dentro de cenas dinâmicas. Com perspicácia destaca as posturas das pessoas, cujas manifestações estão palpitante de sentido. Após a Introdução na qual estão o batismo de Cristo, seu jejum no deserto e as tentações (1,1-13); aborda o ministério de Jesus na Galiléia (1,14-9,49) e a viagem de Cristo a Jerusalém, sua paixão, morte e ressurreição (10,1-16,20). Este Evangelho foi escrito em Roma por volta do ano de 65, conforme opinião mais comum. O autor dirige-se a cristãos não-judeus, ou seja, a gentios cristãos. A autoria de Marcos no que tange a este evangelho é certa. Trata-se, realmente, de João Marcos, discípulo de São Pedro. Este ao sair miraculosamente da prisão, “consciente da sua situação, dirigiu-se à casa de Maria, mãe de João, chamado também Marcos, onde muitos estavam reunidos em oração (At 12,12). No ano de 44, São Paulo e Barnabé “voltaram para Jerusalém, levando com eles João, chamado também Marcos” (At 12,25), que assim se associara aos dois apóstolos. Foi com eles a Perge, na Panfília, “mas aí separou-se deles para voltar a Jerusalém” (At 13,13). Não se sabe ao certo o motivo desta possível deserção. Este fato, posteriormente, seria a causa da separação de Paulo e Barnabé no início da segunda viagem paulina: “Depois de alguns dias, Paulo disse a Barnabé: “Voltemos agora para visitar os irmãos em cada cidade onde anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão passando” (At 15,36). Ora, Barnabé quis levar com eles João Marcos. Paulo, ao contrário, era de opinião que não deveriam levar consigo aquele que, já os tinha abandonado na Panfília e não os tinha acompanhado no trabalho. Desentenderam-se tanto que os dois se separaram. Barnabé tomou consigo a Marcos e navegou para Chipre” (At 15,36-39). Aliás Marcos era “primo de Barnabé” (Cl 4,10). Esteve com São Paulo em Roma, e estando prestes a regressar à Ásia Menor, diz o apóstolo aos colossenses: “Se ele for se encontrar convosco recebei-o bem” (Cl 4,10). São Pedro+, afetuosamente, de Roma, assim se refere a este evangelista: “Saúda-vos a Igreja de Babilônia, vossa companheira de eleição, como também Marcos, meu filho” (1 Pd 5,13). Ele voltou, de fato, ao Oriente, pois lemos na 2a Carta de São Paulo a Timóteo escrita também de Roma: “Somente Lucas está comigo. Procura a Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério” (4,11). São estas as passagens bíblicas referentes àquele a quem a Tradição diz, com razão, ser o autor do segundo Evangelho. Marcos foi, realmente, um discípulo de Pedro. Os argumentos a favor desta assertiva são sólidos. Nem Mateus, Lucas ou João colocam com tanto realce a figura do príncipe dos apóstolos. Logo no início de sua narrativa está a vocação de Pedro bem destacada (1,16 s). Os lances infelizes da vida de Pedro são narrados com detalhes. Como observa Eusébio, Pedro numa atitude de humildade não relatava tanto os instantes de glória, mas os momentos em que, por fraqueza humana, não foi fiel a Cristo. Assim lemos em Marcos a lamentável cena do Horto das Oliveiras, quando Cristo, que se retirara para orar, “voltou aos discípulos e os encontrou dormindo. E então disse a Pedro: “Simão, tu dormes? Não foste capaz de vigiar nem uma hora? Vigiai e orai, para não cairdes em tentação” (14,37-38). No mesmo capítulo está a negação de Pedro. Como se fôra uma testemunha ocular, Marcos, cinematograficamente, narra o que houve (14,66-71). Quando Pedro pela terceira vez negou o Mestre, diz Marcos: “E neste momento um galo cantou pela segunda vez. Pedro se lembrou do que Jesus lhe tinha dito: “Antes de o galo cantar duas vezes, tu me negarás três vezes. E prorrompeu em choro” (14,66-72). Com razão, pois a tradição atribuiu a Marcos o segundo Evangelho, dado que não tendo ele presenciado os acontecimentos, para ser deste modo tão preciso, deve ter escutado, muitas vezes, a pregação de outro apóstolo. Na verdade, ele foi um ouvinte de Pedro. O fio condutor da mensagem de Pedro era a vida pública do Filho de Deus, o taumaturgo (At 1,21-22;10,34-43). Raciocina Renié: “Ora, Marcos omite o evangelho da infância e apela sobretudo para o argumento do milagre para demonstrar a divindade de Nosso Senhor, colocando particularmente em relevo o império exercido por Jesus sobre os demônios”. O grande objetivo de Marcos é eminentemente catequético, intentando divulgar a pregação do príncipe dos Apóstolos, fixando na mente de seus leitores esta verdade sublime: Jesus Cristo é o Messias, o Filho de Deus. * Professor no Seminári0 de Mariana - MG

Teologia de São Marcos
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

O tema central do evangelista Marcos é a divindade de Cristo. Daí a ênfase dada aos milagres operados pelo Mestre.
Há um eixo na estrutura do texto, a partir desta indagação de Jesus: “Quem é que eu sou? (8,28). Percebe-se então uma primeira etapa na qual a messianidade de Cristo não devia ser divulgada. Depois, os discípulos têm a imagem de um Messias terreno (8,29; 8,31-33). Finalmente compreendem qual a vera missão do Prometido das nações, cujo reino não era deste mundo. Ele devia morrer e ressuscitar (Lc 24,26). Após a vinda do Espírito Santo ficaram, definitivamente, abertos os olhos deles à plena realidade da pessoa divina de Cristo.
No cerne da narrativa de Marcos está, assim, o segredo messiânico (1,34.44; 3,12; 5,43; 7,36; 8,26.30; 9,9). Hemelsoet explica que “o segredo messiânico não é um artifício literário de Marcos; tem as suas raízes no próprio acontecimento messiânico; sobre este o evangelho dá testemunho. Pode-se admitir, no entanto, que Marcos o tenha acentuado intencionalmente e de modo mais esquemático do que os demais evangelistas ... O segredo messiânico, portanto, não é apenas pedagogia em vistas dos ouvintes do Evangelho; é uma condição da revelação do Messias”. É que, como observa Léon-Dufour, “Jesus não reivindicou abertamente o título de Messias antes que sua morte houvesse demonstrado claramente o significado deste título”.
Marcos fixa a divindade de Cristo com passagens marcantes. A cena do paralítico de Cafarnaum é notável. Com maestria e vivacidade o que ocorreu é mostrado para destacar estes aspectos: “Jesus, vendo a fé que os animava, disse ao paralítico: “Meu filho, os teus pecados estão perdoados”. Assevera o evangelista que alguns mestres da lei, assim pensavam: “Quem pode perdoar os pecados, a não ser Deus? “Cristo faz então o milagre: “Para que saibais que o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados disse ao paralítico Eu te ordeno: Levanta-te, pega a tua padiola e vai para casa!” (2,1-12) Por que é Deus, Cristo expulsa os demônios: “Cala-te e sai deste homem”. O espírito impuro, sacudindo o homem com violência, deu um forte grito e saiu dele” (1,25-26). Jesus prediz sua Paixão e Ressurreição (8,31 ss) e o fim dos tempos (cap. 13). O fato da transfiguração (cap. 9) patenteia a divindade do Filho do Homem e em pleno Calvário ressoa a voz do centurião: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (15,39).
Deus e homem verdadeiro, Cristo, o Messias, é aquele que mostra uma nova ordem: “Quando ele ficou sozinho os doze, que estavam com ele, perguntaram-lhe o sentido das parábolas. Ele lhes respondeu: “A vós é revelado o mistério do Reino de Deus” (4,10). Este é um dos aspectos salientados pelo texto de Marcos: o Reino, que é escatológico e apocalíptico (cap. 13).
Após o estudo destas páginas admiráveis escritas por este evangelista, a fé do crente se robustece e ele passa a viver mais intensamente unido a Jesus, única esperança do homem.
Ler e meditar Marcos é imergir-se no que a cristologia tem de mais sublime.
* Professor no Seminário de Mariana - MG


O EVANGELHO DE MATEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Evangelho de São Mateus, dirigido a judeus cristãos, provavelmente escrito entre os anos 70 e 90, tem como objetivo primordial demonstrar que em Cristo se realizaram as profecias. Jesus é o Messias, Filho de Davi, prometido no Antigo Testamento.
Ao narrar a concepção e o nascimento do Redentor ele diz textualmente: “Ora tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha dito pelo profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho, ao qual será dado o nome de Emanuel, que quer dizer: Deus conosco” (1,22-23).
Adite-se que São Mateus tem em vista também mostrar que Cristo, o novo Moisés, veio não para abolir simplesmente a Lei mas para aperfeiçoar. O que visa o evangelista é colocar em relevo a obstinação dos judeus em não aceitar a Jesus. Este inclusive se submete à lei. Ostenta, porém, com seu poder e sabedoria a autêntica perfeição da Lei. Não aceitar Cristo é o resultado de uma oposição fortuita, fruto de uma intolerância descabida.
Uma questão pendente é quanto aos textos aramaico e grego deste evangelho. O primeiro desapareceu e só temos referência a ele através de Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, pelo ano de 110. Ele assevera que Mateus escreveu um evangelho em aramaico ou hebraico. Há ainda o testemunho de Santo Irineu, Orígenes, Clemente de Alexandria, São Jerônimo e outros. Quanto ao texto grego, a opinião tradicional é que o primeiro evangelho foi traduzido do aramaico e reproduz substancialmente o original. Não se sabe quem foi o tradutor. Trata-se não de uma tradução literal, mas de uma adaptação livre. O essencial foi conservado integralmente. Ignora-se onde e quando foi feita tal tradução, embora se possa pelos menos dizer que o trabalho foi realizado na Ásia Menor. Outros autores se afastam da explicação tradicional. Harrington assim se expressa: “A relação entre o tradicional escrito aramaico e o evangelho posterior é obscura. Mateus pode ter sido o autor da obra aramaica. É-nos impossível dar o nome do autor do Evangelho grego”. Scharbert assevera: “O atual Evangelho grego dificilmente pode ser idêntico ao tal redigido em hebraico. Mateus grego depende de Marcos; ora, parece impossível que o Apóstolo Mateus, a testemunha ocular da vida pública de Jesus, se tenha submetido tanto assim a uma testemunha secundária que nem era apóstolo. Ademais o grego de Mateus é tão castiço que não se parece com uma tradução dum original semítico, ao menos quanto às seções narrativas; os discursos de Jesus deixam entrever um fundo semítico”. Acrescenta, porém, que “em hipótese nenhuma deve ser menosprezada a tradição eclesiástica antiga, porquanto o Evangelho inteiro mostra ser escrito em benefício da comunidade judeu-cristã. Isso combina com os depoimentos no tocante a um texto original hebraico tendo Mateus como autor”.
Estas divergências em nada afetam o que é basilar: o texto do Evangelho que a tradição atribui a São Mateus é canônico, portanto inspirado. Assim o que interessa sobretudo é seu conteúdo teológico, seus pontos doutrinais.
Quanto à pessoa de Mateus, a narrativa de sua vocação se encontra nos sinóticos (Mt 9,9-13; Mc 2,13-17; Lc 5,27-32). Em Cafarnaum ele exercia o mister de publicano. Estava a serviço de Herodes como portageiro, uma espécie de guarda alfandegário. Hemelsoet observa que “como publicano, sem dúvida, sabia escrever e entendia, além de sua língua materna, o aramaico, bastante bem o grego” Em Marcos e Lucas ele aparece com o nome de Levi. Segundo São Marcos era ele filho de Alfeu (Mc 2,14). O Evangelho de São Mateus apresenta três partes: A infância e a vida oculta de Cristo (1-2); seu ministério público (3-25); sua Paixão e vida gloriosa (26-28). Lagrange tem esta magistral passagem: “Mateus não tem o realismo expressivo de Marcos nas suas narrativas, nem no mesmo grau a graça enternecedora de Lucas, nem o olhar de João fixado as coisas divinas, ele contém mais palavras de Jesus, simples e diretas, e tão penetrantes que se crê ouvi-las com o acento e quase as entoações com que foram pronunciadas”.
Eis por que o Evangelho de São Mateus é o mais usado, estudado e citado.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

TEOLOGIA DE SÃO MATEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Além de deixar bem claro que em Cristo se cumpriam as Escrituras, São Mateus aborda com precisão o tema do Reino dos Céus, expressão que cinqüenta vezes aparece no texto. Diz ele que “Jesus circulava por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino, e curando toda a espécie de doença e enfermidade que havia no povo” (Mt 4,23). Aos doze apóstolos Jesus dirá: “Pregai pelo mundo: o Reino dos céus está perto” (10,17). Através de parábolas, Cristo dá a seus ouvintes uma idéia deste reino (cap. 13). Assim Ele diz: “O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra. Então esconde-o novamente e, cheio de alegria, vai vender tudo o que tem e compra esse campo” (13,44)”... é como o fermento, que uma mulher toma e mistura com uma boa quantidade de farinha, até que toda a massa fique fermentada (13,33). “... é como um grão de mostarda, que um homem pega e semeia no seu campo. É a menor de todas as sementes, mas quando cresce vira a maior das hortaliças, tornando-se até uma árvore em cujos ramos as aves do céu vão pousar” (13,31-32). É que este reino deve, de fato, se entender a todos os povos, abrigando todas as gentes. É imenso trigal no qual o homem inimigo semeia o joio (Mt 13,24). Para entrar neste reino uma condição é o desapego total dos bens materiais: “Felizes os pobres em espírito, porque a eles pertence o reino dos céus” (5,3). Outra condição é a humildade, pois Cristo disse: “Eu vos declaro esta verdade: se não vos tornardes de novo como meninos, não podereis entrar no Reino dos Céus” (Mt 18,2). Este deve ser o referencial constante em tudo: “Portanto, acima de tudo tende todo o interesse pelo Reino e pela justiça de Deus ...” (6, 33). Cumpre, porém, suportar as diversidades para alcançá-lo: “Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque a eles pertence o reino dos céus” (5, 10). Acrescente-se que elevada deve ser a perfeição de quem o aspira: “Porque eu vos digo: se a vossa justiça não superar a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (5,20). A Igreja possui as chaves deste reino, pois Cristo disse a Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha igreja, e as forças diabólicas não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus” (18, 19).
O Sermão da Montanha é uma sinopse que mostra o que deve praticar o candidato a este reino. É a carta magna da nova ordem fundada por Cristo. Proferido por Ele numa colina próximo a Cafarnaum, entre a segunda Páscoa e o Pentecostes seguinte, tem como tema central a verdadeira justiça, ou seja, a perfeição moral, indispensável ao cristão. No exórdio estão as bem-aventuranças (5, 3-12) e o papel dos discípulos neste mundo (5, 13-16). O corpo deste discurso apresenta as relações entre a Lei evangélica e a Lei mosaica (17, 48), as obras de justiça da Lei evangélica (cap. 6), a partir deste princípio geral: “Evitai praticar vossas boas obras diante dos homens para serdes notados por eles, porque assim não tereis recompensa de parte de vosso Pai que está nos céus” (6, 1). Daí as aplicações práticas: esmola, prece e jejum, sendo que tais devem ser as disposições interiores do cristão: pobreza, pureza de intenção, confiança em Deus, caridade, piedade confiante através da prece. Antes da peroração esta regra de ouro, síntese admirável de tudo: “Portanto, tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei o mesmo também vós a eles: nisso está a Lei e os Profetas” (7,12). A exortação à vigilância (7, 13-23) e a parábola da casa construída sobre a rocha encerram magistralmente esta extraordinária peça oratória que é uma sinopse da mais sublime moral prática.
Segundo Algisi o Evangelho de São Mateus pode ser considerado o Evangelho do Pai, pois o autor “mostra predileção especial pela primeira pessoa da SS. Trindade e para o seu Nome”. Este biblista mostra que vinte e uma vezes São Mateus patenteia que Jesus fala de Deus como Pai dos homens e dezessete vezes se refere a seu Pai. Aditem-se as parábolas do Pai: a parábola do servo infiel (18,23-35), a parábola dos trabalhadores na vinha (20,1-16); a parábola das bodas reais (22,1-14), a parábola dos dois filhos (21,28-31), a parábola da cizânia (13,24-30). Em São Mateus, Jesus é o Mestre que doutrina. Eis por que a mensagem celestial do Filho de Deus flui nestas páginas de maneira tão diáfana. Aí está o motivo também porque o Evangelho de São Mateus é tão referido nas pregações e na catequese em geral. * Professor no Seminário de Mariana - MG

O OBJETIVO DOS EVANGELISTAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Cada evangelista teve um escopo específico. São Mateus objetivava mostrar que Jesus é o Messias, o Filho de Davi, anunciado no Antigo Testamento e ansiosamente esperado, mas rejeitado pelos judeus. Marcos intenta focalizar Cristo também como Messias, mas dá ênfase à sua filiação e missão divinas. São Lucas é claro quanto ao fim que teve em vista: “Muitos se propuseram escrever uma narração dos fatos que acontecem entre nós, como nos transmitiram o que deles foram testemunhas oculares desde o começo e, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, eu também resolvi te escrever um relato com ordem e seqüência, para que tenhas na devida conta a solidez dos ensinamentos que recebestes oralmente” (1,1-4). São João também deixou claro o móvel de seu escrito; “Jesus fez ainda, nas presença dos discípulos, muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, acreditando, tenhais vida no seu nome” (20,30-31). Nota Lavergne que “Mateus escuta e argumenta; Marcos observa e narra; Lucas examina e expõe; João reflete e comunica”7. Por isto mesmo se pode dizer que Mateus é o evangelho dos sermões; Marcos o texto dos eventos; Lucas a boa nova do gáudio cristão e João a carta dos sinais da glória de Cristo. No que tange aos textos cumpre notar que os autógrafos do Novo Testamento se perderam por força da fragilidade do material usado. Restam-nos cópias antigas desses autógrafos que são os papiros, os códices unciais, ou seja, escritos em caracteres maiúsculos sobre pergaminho, os códices minúsculos, isto é, escritos tardiamente em caracteres minúsculos e os lecionários, que são antologias de textos para o uso litúrgico. Tais antigos manuscritos do Novo Testamento se acham espalhados por bibliotecas do mundo inteiro, inclusive de Moscou e São Petersburgo. No tocante aos milagres de Cristo narrados pelos Evangelistas, objetos de ferrenha crítica por parte dos racionalistas, é preciso observar vários aspectos. Em primeiro lugar não se percebe nos textos dos evangelistas narrativas tendenciosas que explorem o maravilhoso para impor determinada doutrina. Não se percebe nada de fantasioso. Cristo realiza seus prodígios em estado de vigília, não em estados hipnóticos ou em instantes de transes psíquicos. É sua poderosa palavra que atua com autoridade de Senhor da vida e da morte, que tem poder sobre a natureza. Outras vezes, Ele, enquanto homem, se dirige ao Pai em ardentes preces e opera o milagre. Nada de práticas mágicas ou rituais esdrúxulos. Usa, por vezes, sinais significativos como o uso da saliva o caso do surdo-mudo e do cego (Mc 7,33-35; 8,23; Jo 9,6) mas fez isto à vista de todos, seguindo um uso de medicina antiga. Age com toda a sobriedade e superioridade de quem age pelo poder divino, sem mistificações, sem tratamento anterior ou preparação planejada; valeu-se dos mesmos meios e modos de agir para atingir efeitos diversos; curou pessoas à distância. Caracterizam, de fato, os milagres de Cristo a benevolência, a simplicidade, a instantaneidade da cura em quase todos os casos, a religiosidade do contexto, a discrição, a variedade dos casos, incluindo ressurreição dos mortos. Além disto, convém observar que os evangelistas não apresentam a figura de Cristo de maneira deturpada. Por não serem relatos biográficos, mas escritos voltados unicamente para a obra salvífica do Redentor, só se preocupam seus autores com o que basicamente a isto se refere. Adite-se que os autores narram o que viram e ouviram. Não inventam episódios como os escritos apócrifos que violam a realidade histórica com ficções literárias, no intuito de alimentar a fantasia de seus leitores. Os Evangelhos canônicos são sóbrios e se percebe que não há nada inventado para apresentar um melhor perfil de Cristo. Narraram o que de fato aconteceu. Os milagres de Jesus estão inseridos na sua tarefa messiânica (Mt 21,2 s). Sobre os prodígios operados por Cristo, sinais de seu poder divino, Santo Agostinho tem esta bela passagem: “Perguntemos aos próprios milagres o que eles nos dizem de Cristo. Se bem os compreendermos, veremos que têm a sua linguagem. Cristo é o Verbo de Deus, e todo o fato realizado pelo Verbo é para nós uma palavra”. Cumpre ler, reler, meditar e praticar o que transmitiram os quatro Evangelistas. Aplicar sempre as palavras na conduta de cada instante. É preciso questionar-se todos os dias, se, realmente,o que se diz e se faz está de acordo com o que Jesus ensinou. A caminhada espiritual de cada um depende, exatamente, da total e completa conformidade com a doutrina do Mestre Divino. * Professor no Seminário de Mariana – MG.



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