Friday, September 07, 2007
Temas bíblicos (III)
SÃO PAULO E O SOFRIMENTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Apóstolo São Paulo fez do sofrimento o principal meio de seu apostolado. Ele, como mensageiro de Cristo, que percorreu mais de sete mil quilômetros a pé, movido pelo zelo pelo reino de Deus, era de aparência fraca. Sua saúde deixava a desejar. Aos Gálatas ele dizia: “Bem sabeis, eu estava fisicamente doente quando pela primeira vez vos anunciei o Evangelho” (4,13-15). Aos Coríntios afirmava: “Sim, alegramo-nos quando somos fracos, enquanto que vós sois fortes” (2 Cor 13,9). Um mal crônico experimentava o Apóstolo: “... foi colocado um espinho na minha carne ...” (Idem 12,7). Trata-se de uma verdadeira doença, de um incômodo físico e não de tentações. Com efeito, além de possuir o dom da continência (1 Cor 7,8) as dificuldades carnais são representadas por São Paulo pelo fogo (1 Cor 7,9). Poder-se-ia supor que ele se referisse às perseguições de seus inimigos, mas todos os demais discípulos de Cristo, sobretudo os apóstolos, eram duramente perseguidos. Além disto, Paulo se refere a algo muito pessoal: na minha carne. Muitos autores erroneamente diagnosticam a enfermidade de São Paulo. Walace Brockway, em sua obra “Momentos decisivos na vida dos grandes homens”, ao se referir à visão do Apóstolo na estrada de Damasco e à sua queda, assim se expressa: “Muitos dos eminentes críticos históricos e cientistas de religião acreditam que Paulo caiu em transe ou teve acesso. Isso não é improvável, pois ele sofreu de epilepsia durante toda a sua vida, como Kenkel demonstrou convincentemente”. Tal explicação não se coaduna nem com a História, nem com a Ciência. Com efeito, Allo mostra como “as visões de Paulo, que estavam gravadas tão profundamente em sua memória, não podiam ter por causa a epilepsia, pois há inconsciência total durante os grandes acessos, retendo uma lembrança muito atenuada e confusa do que lhe ocorreu e do que lhe aconteceu nos “estados crepusculares”, que precedem e que seguem” o ataque. Renié acrescenta um outro argumento: “... O epiléptico vive voltado para si mesmo e não está apto a exercer o papel de líder ou de condutor de homens, que foi o de São Paulo”. Hoje, renomados hermeneutas, especialistas no estudo da vida deste gênio do cristianismo, cientistas, particularmente médicos, ensinam que a doença que acometeu o Apóstolo foi a malária. Assim Ramsay, o Dr. Seeligmüller, Joseph Holzner. Este último assim se expressa: “... atravessando a Panfília (antiga região do Sul da Ásia Menor entre a Lícia e a Cilícia) Paulo contraiu a malária; esta febre se declara quando o organismo está em estado de esgotamento. Ele havia já passado já três vezes por este estado quando escrevia sua segunda carta aos coríntios”6.Num corpo que sofria, havia uma alma viril. Uma energia extraordinária o levaria a obrar prodígios nas quatro viagens missionárias que empreendeu. Diante do mundo pagão brilhou o valor do sofrimento. A doença passou a ser vista numa ótica cristã. Ele louvou os Gálatas: “Este meu estado físico foi para vós uma provação, e não me demonstrastes nojo nem desprezo” (4,14). Como ensina Holzner, “o sofrimento faz parte integrante da união com Cristo. Os sofrimentos dos cristãos se tornam os sofrimentos de Cristo”. São Paulo aplicava seus padecimentos pela difusão do bem: “Agora estou contente com os sofrimentos que tenho de suportar por vós. Porque assim completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor de seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24) “Per crucem ad lucem”. É pela dor cristamente aceita que se chega à luz da felicidade eterna e se pode cooperar eficazmente pela conversão dos que estão longe da Verdade. *Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Apóstolo São Paulo fez do sofrimento o principal meio de seu apostolado. Ele, como mensageiro de Cristo, que percorreu mais de sete mil quilômetros a pé, movido pelo zelo pelo reino de Deus, era de aparência fraca. Sua saúde deixava a desejar. Aos Gálatas ele dizia: “Bem sabeis, eu estava fisicamente doente quando pela primeira vez vos anunciei o Evangelho” (4,13-15). Aos Coríntios afirmava: “Sim, alegramo-nos quando somos fracos, enquanto que vós sois fortes” (2 Cor 13,9). Um mal crônico experimentava o Apóstolo: “... foi colocado um espinho na minha carne ...” (Idem 12,7). Trata-se de uma verdadeira doença, de um incômodo físico e não de tentações. Com efeito, além de possuir o dom da continência (1 Cor 7,8) as dificuldades carnais são representadas por São Paulo pelo fogo (1 Cor 7,9). Poder-se-ia supor que ele se referisse às perseguições de seus inimigos, mas todos os demais discípulos de Cristo, sobretudo os apóstolos, eram duramente perseguidos. Além disto, Paulo se refere a algo muito pessoal: na minha carne. Muitos autores erroneamente diagnosticam a enfermidade de São Paulo. Walace Brockway, em sua obra “Momentos decisivos na vida dos grandes homens”, ao se referir à visão do Apóstolo na estrada de Damasco e à sua queda, assim se expressa: “Muitos dos eminentes críticos históricos e cientistas de religião acreditam que Paulo caiu em transe ou teve acesso. Isso não é improvável, pois ele sofreu de epilepsia durante toda a sua vida, como Kenkel demonstrou convincentemente”. Tal explicação não se coaduna nem com a História, nem com a Ciência. Com efeito, Allo mostra como “as visões de Paulo, que estavam gravadas tão profundamente em sua memória, não podiam ter por causa a epilepsia, pois há inconsciência total durante os grandes acessos, retendo uma lembrança muito atenuada e confusa do que lhe ocorreu e do que lhe aconteceu nos “estados crepusculares”, que precedem e que seguem” o ataque. Renié acrescenta um outro argumento: “... O epiléptico vive voltado para si mesmo e não está apto a exercer o papel de líder ou de condutor de homens, que foi o de São Paulo”. Hoje, renomados hermeneutas, especialistas no estudo da vida deste gênio do cristianismo, cientistas, particularmente médicos, ensinam que a doença que acometeu o Apóstolo foi a malária. Assim Ramsay, o Dr. Seeligmüller, Joseph Holzner. Este último assim se expressa: “... atravessando a Panfília (antiga região do Sul da Ásia Menor entre a Lícia e a Cilícia) Paulo contraiu a malária; esta febre se declara quando o organismo está em estado de esgotamento. Ele havia já passado já três vezes por este estado quando escrevia sua segunda carta aos coríntios”6.Num corpo que sofria, havia uma alma viril. Uma energia extraordinária o levaria a obrar prodígios nas quatro viagens missionárias que empreendeu. Diante do mundo pagão brilhou o valor do sofrimento. A doença passou a ser vista numa ótica cristã. Ele louvou os Gálatas: “Este meu estado físico foi para vós uma provação, e não me demonstrastes nojo nem desprezo” (4,14). Como ensina Holzner, “o sofrimento faz parte integrante da união com Cristo. Os sofrimentos dos cristãos se tornam os sofrimentos de Cristo”. São Paulo aplicava seus padecimentos pela difusão do bem: “Agora estou contente com os sofrimentos que tenho de suportar por vós. Porque assim completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor de seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1,24) “Per crucem ad lucem”. É pela dor cristamente aceita que se chega à luz da felicidade eterna e se pode cooperar eficazmente pela conversão dos que estão longe da Verdade. *Professor no Seminário de Mariana - MG