Friday, September 07, 2007
Temas bíblicos (IV)
A CARTA AOS EFÉSIOS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Uma das principais comunidades da Ásia estava em Éfeso. Questiona-se se realmente São Paulo endereçou esta epístola aos efésios. A crítica interna do texto encontra alguns problemas como a falta de informação pessoal, sem o extravasar do coração de Paulo, para uma comunidade na qual estivera três meses17. Uma hipótese é que “originariamente não trouxesse nenhum sobrescrito e tenha sido depois intitulada “aos efésios” por uma conjetura tirada de 2 Tm 4,12 ou então porque encontraram-na nos arquivos de Éfeso, quando, colecionaram as epístolas de São Paulo”18.
O importante é o conteúdo da carta, pois nela o apóstolo apresenta pontos fundamentais do dogma, focalizando a Redenção, a soberania de Cristo, do qual a Igreja é o corpo místico. A eclesiologia paulina é profunda e firma aspectos importantes das relações de Cristo com os batizados. Dá normas morais bem objetivas, visando precaver os cristãos das falsas doutrinas. São Paulo escreveu esta epístola provavelmente em Roma entre 61 e 62. Após a saudação (1,1-2), são expostas questões práticas (1,3-3,21). Eis os tópicos principais: a união de todos em Cristo; na Igreja se realiza esta união; tal a missão de Paulo: pregar este grande mistério. No final desta parte ele roga a Deus que confirme os efésios na fé. Vem, em seguida, instruções morais (4,1-6,20). A vocação cristã, a vida familiar, o combate espiritual são os temas principais que são tratados pelo apóstolo. A conclusão (6,21-24) enfoca a missão de Tíquico e apresenta a saudação final.
Esta epístola é a mais rica em conteúdo doutrinal. É um verdadeiro compêndio de teologia dogmática e moral. Deus, ensina São Paulo, “nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por (meio de) Jesus Cristo para a sua glória, por sua livre vontade, para fazer brilhar a glória de sua graça, pela qual nos tornou agradáveis (a seus olhos) em seu amado filho” (1,5). Adverte: “E nem sequer se nomei entre vós a fornicação, ou qualquer impureza ou avareza, como convém a santos; nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices, que são coisas inconvenientes; mas antes (saiam de vossa boca) ações de graças (a Deus). Porque, sabei bem, nenhum fornicador, ou impudico, ou avaro, o qual é um idólatra (do dinheiro), terá herança no reino de Cristo e de Deus” (5,3-5). Belos conselhos: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja” (5,25) ... “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento que tem promessa, a fim de que sejas feliz e tenhas larga vida sobre a terra” e “vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas educai-os na disciplina e nas instruções do Senhor” (6,1-4). As armas do cristão são espirituais para que ele resista “às ciladas do demônio” (6,11). Eis por que alerta: “Tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e ficai de pé depois de ter vencido tudo. Estais, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade e vestido a couraça da justiça, e tendo os pés calçados (prontos) para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus) ... (6,13-18).
Suporte espiritual encontra o batizado perlustrando os capítulos desta carta, sólido alimento para as almas de boa vontade.
* Professor no Seminário de Mariana - MG
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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG
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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG
APÓSTOLO DAS GENTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Participação decisiva teve São Paulo na marcha da nascente Igreja de Cristo a partir do ano de 42. Pelo Atos dos Apóstolos e por suas maravilhosas Epístolas, suas principais atividades podem ser seguidas.. Nasceu no ano 8 da era cristã em Tarso, importante cidade da Cilícia, Paulo afirmava ser cidadão romano (At 22,26). Foi baseado neste privilégio que o tribuno Cláudio Lísias o libertou, (At 23,27). Como Tarso não era colônia romana, a opinião de Renié é que “o pai de São Paulo ou um de seus ancestrais tinha recebido este título para recompensar serviços prestados à causa romana ou para reconhecer uma especial classe social a que pertencia...”. Judeu da dispersão teve sólida formação cultural, tendo sido discípulo do célebre Gamaliel. Seu talento extraordinário dotou-o de profunda erudição, mas seu caráter impetuoso levou-o ao fanatismo. Ei-lo na cena do desumano martírio de Estêvão (At 7,59), como um dos que fizeram sofrer o protomártir. Judeu ardente, combatia o cristianismo. Aos 26 anos se dirigiu ao príncipe dos sacerdotes e lhes pediu credenciais para ir a Damasco, a fim de prender os cristãos daquela cidade. Então, precisamente, se deu a sua conversão narrada nos Atos dos Apóstolos (9,4). A graça divina dele se apoderou. Ele seria o apóstolo dos gentios. Bem observou Renié: “Judeu de raça e pela educação; grego pelo lugar de seu nascimento e de sua língua; cidadão romano, ele era o ponto de contacto de três mundos” Desde que se converteu, Cristo foi o pensamento central de sua vida e pelo seu Senhor ele se sacrificou no afã de O fazer conhecido e amado. Entregou-se a tal apostolado com toda lealdade e total desprendimento, numa faina ininterrupta. Ananias foi o instrumento de Deus em Damasco na preparação para as lides a favor da evangelização do mundo. Por dois anos ele retirou depois para a Arábia, onde, na oração e na penitência, fez o grande noviciado para bem cumprir sua missão. Damasco, Jerusalém, Tarso foram os primeiros campos de trabalho, testemunhando Paulo aquele mesmo Jesus, que tão duramente combatera. Em 42 o vemos com Barnabé em Antioquia, onde esteve três anos. Sua primeira viagem apostólica deu-se nos anos de 45 a 49. Esteve na ilha de Chipre, onde converteu o procônsul romano Sérgio Paulo. Dirigiu-se depois a Antioquia da Pisídia e a outras cidades do interior. Esteve em Icônio e Listra, na Licaônica. Sua palavra arrastava milhares para a crença em Cristo. Operava em nome de Jesus, milagres estupendos. Em Derbe finalizou esta sua 1a viagem. Estabeleceu a hierarquia, ordenando presbíteros e deixando-os com seus representantes nos diversos núcleos cristãos. A porta da fé ficava inteiramente aberta aos gentios. Voltou a Antioquia, onde se opôs tenazmente à exigência que os judeus convertidos faziam de suas práticas. Participou do Concílio de Jerusalém, onde foi o paladino da liberdade cristã. Pedro proclamou claramente que a graça e a revelação de Cristo é que proporcionam aos homens a salvação. Como, posteriormente, o Príncipe dos Apóstolos, em Antioquia, se acomodou às práticas judaico-cristãs, São Paulo recriminou tal proceder que comprometia a expansão cristã (Gl 2,11). Ele foi de fato o corifeu do cristianismo supra nacional. No ano 50 iniciou a 2a viagem apostólica, que o levaria até à Grécia, ressoando no Aerópago de Atenas a voz que falava aos helenos do Deus desconhecido. Por três anos missionou a Ásia Menor até o sul da Europa, regressando a Corinto. Surgem, então, as Epístolas do grande teólogo. Nelas rebrilha seu gênio de escritor apaixonado por Cristo. Em 53 mesmo, iniciou sua 3a viagem apostólica. Tito, seu discípulo predileto, o acompanhou então.Regressou em 58 a Jerusalém satisfeitíssimo com o trabalho dos quatro anos de missão e trouxe para os cristãos de Jerusalém as esmolas que recolhera. Os judeus de Jerusalém (At 21,21) não o acolheram bem e Paulo, aconselhado por Tiago, resolveu, a bem da paz, se retirar. Esteve dois anos em Cesaréia sob custódia do procurador Félix. No ano 60 iniciou sua última viagem quando vai a Roma, onde desejava reivindicar seus direitos de cidadão romano. De 61 a 63, lá esteve cativo, mas podia pregar e “com franqueza, sem impedimento”, o Reino de Deus (At 21,28) a todos que vinham a ele. Em 63, posto em liberdade, vai até à Espanha. Em 66 foi de novo preso e levado a Roma. Era a época do terrível Nero. Em 67 foi decapitado na via ostiense, onde, mais tarde foi levantada grande basílica em sua honra. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Sua ação apostólica para a Igreja foi de transcendental importância. Com genial clarividência ele a orientou rumo ao universalismo cristão, operou a conversão dos gentios, sem os atar à lei antiga. Dirigiu-se sabiamente aos centros vitais do Império Romano e consolidou as Igrejas que se tornaram focos de irradiação da cultura cristã. * Professor no Seminário de Mariana - MG
SEGUNDA E TERCEIRA CARTAS DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Duas cartas típicas são conhecidas como epístola de São João. O concílio de Trento as declarou canônicas. Não se sabe ao certo quem é o autor destes textos sagrados, embora tudo indique que seja o apóstolo João. Alguns pensam ser João Presbítero, referido por Pápias, dado que o autor se intitula “Presbítero”. A data mais provável destes textos é o fim do primeiro século. A segunda carta é dirigida a uma comunidade de fiéis asiáticos e os previne contra os pseudos profetas, confirmando-os na fé verdadeira. Os biblistas assim entendem a Senhora Eleita do versículo primeiro a quem é dirigida a missiva. Diz Harrington: “Não há a menor dúvida de que o título designa uma igreja (1,14,13) provavelmente da Ásia Menor”. Significativa esta passagem que retém o ideal de toda a igreja fiel: “Alegra-me muito saber que teus filhos caminham na verdade, conforme o mandamento que recebemos do Pai” (3 Jo 4). Eis uma sábia orientação para os discípulos de Cristo de todos os tempos: “... que nos amemos uns aos outros. Mas amar é viver segundo os mandamentos dele. E o mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que vivais no amor” (v. 6). Adverte: “... apareceram no mundo muitos sedutores, que não admitem que Jesus Cristo se tenha encarnado. Quem age assim deveis considerá-lo como sedutor e anticristo. Cuidado para não perder o que já ganhastes, mas pelo contrário, receber uma plena recompensa. Quem não permanecer na doutrina de Cristo e dela se afastar não possui a Deus. Quem permanece na doutrina possui o Pai e o Filho” (v. 7-9). Não se deve favorecer o erro: “Se alguém vier vos procurar e não tiver esta doutrina, não o recebais em casa, nem o saudeis. Quem o cumprimenta participa de suas más obras” (v.10-11). Quantos, ou por respeito humano, ou por comodismo, são hoje coniventes com os erros, sob pretexto de um falso ecumenismo! A terceira carta, dirigida a Caio foi escrita por força de um problema local. Diz o texto: “Tenho escrito à Igreja. Mas Diótrefes que ambiciona o primeiro posto aí, não nos recebe. Por isso, se eu for aí, vou chamar sua atenção para as más obras que faz, divulgando coisas falsas contra nós. Não contente com isto, deixa de receber os irmãos e expulsa da igreja os que querem recebê-los” (v.9-10). Comenta Mackenzie: “Gaio é elogiado por sua fé e lealdade. Segundo alguns, Demétrio, o portador da carta, teria sido enviado precisamente para depor Diótrefes e empossar Gaio; trata-se de um interessante esboço de uma tensão jurisdicional primitiva que permanece obscura”. Neste bilhete inspirado esta lição preciosa: “Caríssimo, não imites o mau, mas o bom. Quem faz o bem é de Deus. Quem faz o mal não viu a Deus” (v.11).Duas pequeninas cartas, mas a deixarem seus recados celestiais para os que se alimentam com a Palavra de Deus! * Professor no Seminário de Mariana - MG
PRIMEIRA CARTA DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao perlustrar a primeira carta do apóstolo João, o leitor percebe ao vivo que fala sobretudo um coração palpitante de amor a Deus. Não há uma ordem lógica entre as diversas partes, mas tão cadentes são as mensagens que prendem do começo ao fim a atenção de quem as percorre. Após os estudos feitos pelos peritos, apesar de algumas diferenças explicáveis pelo contexto e pelo objetivo, a conclusão é que o autor desta carta é o mesmo do quarto Evangelho. O discípulo amado, apresenta neste texto, que é mais uma homilia, aspectos sublimes da espiritualidade do cristão, o qual deve viver em função de Deus que é luz (1,5 s) e que é amor (4,7 s). Escrita nos últimos anos do primeiro século para os fiéis das igrejas asiáticas, o escopo é firmar os crentes na fé os erros. São João revela uma sábia postura: melhor do que simplesmente combater os hereges é esclarecer e robustecer os cristãos, pois, então sim, se bloqueia o erro e se difunde a verdade. Cumpre, é certo, denunciar as falsas doutrinas, mas o principal é que o discípulo de Cristo esteja firme numa fé esclarecida. O batizado é aquele que habita amorosamente em Deus e, assim, fica isento do pecado: “Quem é filho de Deus não peca, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (3,9). Esta união com Deus é a ventura suprema: “Esta é a mensagem que ouvimos dele e trazemos para vós: Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com ele e andamos na escuridão, mentimos, e não estamos agindo segundo a verdade. Mas se andamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1,5-7). Grande a confiança que se deve ter na bondade divina: “Meus filhinhos, eu vos escrevo isto para que não pequeis, mas, se alguém vier a pecar, temos um advogado, Jesus Cristo, junto ao Pai. Ele é vítima de expiação por nossos pecados, e não só pelos nosso, mas pelos de todo o mundo” (2,1-2). A caridade fraterna é atitude básica: “Quem diz estar na luz e odeia seu irmão, está ainda nas trevas. Quem ama seu irmão está na luz e nela não há nada que induza a pecar. Mas o que odeia seu irmão está nas trevas: caminha nas trevas, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (2,9-11). Adverte São João: “Não ameis o mundo, nem coisa alguma que existe nele. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo desejo incontrolado da carne, desejo incontrolado dos olhos e orgulho pelos bens da vida não vem do Pai do mundo. Mas o mundo passa e seus desejos imoderados também, mas o que cumpre a vontade de Deus permanecer para sempre” (2,15-17). Luminoso o destino de quem ama a Deus: “Se aquilo que ouvistes desde o começo permanecer em vós, vós também permanecereis no Filho e no Pai. Ora, esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (2,24-25). Que o batizado erga a fronte e marche impávido: “Vede como é grande o amor que o Pai nos dedicou, concedendo-nos ser chamados filhos de Deus. E nós o somos! Se o mundo não nos conhece é porque o não tem conhecido. Caríssimos, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto o que viremos a ser. Sabemos que, quando Cristo aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é” (3,1-2). Eis a condição para que a prece seja atendida: “Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, podemos recorrer confiantes a Deus, e tudo que pedirmos receberemos dele porque cumprimos seus mandamentos e fazemos o que é agradável aos seus olhos” (3,21-22). Crer em Cristo é fanal seguro de salvação: “Podereis reconhecer assim o Espírito de Deus: quem confessar que Jesus Cristo se encarnou é de Deus. Quem não aceitar Jesus, esse não é de Deus, mas do anticristo” (4,2-3). Verifica um fato que merece toda a atenção: “É assim que o amor de Deus se manifestou a nós: Deus mandou seu Filho único ao mundo para que recebêssemos a vida por ele. Nisto consiste o seu amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele o primeiro que nos amou e mandou seu Filho como expiação pelos nossos pecados” (4,9-10). Acrescenta: “Este Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (4,16). Cumpre observar que a permanência de Deus no cristão é constante, mas a permanência do cristão em Deus é defectível, pois Ele respeita a liberdade de cada um. Esta é a triste sina do ser racional, poder desprezar o Bem Supremo, deixando-se arrastar pela voragem das paixões não dominadas. Daí o conselho de São João: “E nós amemos a Deus, porque ele nos amou primeiro” (4,19). Mostra, porém, que “se alguém diz: “Amo a Deus” e detesta seu irmão, está mentindo. Porque quem não ama seu irmão, a quem vê, não é possível que ame a Deus, a quem não vê” (4,20). Dá um sólido argumento para o crente: “Se aceitamos o testemunho dos homens, maior é o testemunho de Deus, que deu o testemunho de seu Filho” (5,9). Deste modo termina esta formosa carta: “Sabemos ainda que o Filho de Deus veio e que nos deu a inteligência para que conheçamos ao Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, em Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Filhinhos, cuidado com os ídolos!” (5,20-21). Num estilo didático e homilético São João mostra assim que a vida cristã é uma ontológica relação vital de comunhão com Deus. Esta epístola é, deste modo, de enorme importância para que a vivência do batizado atinja seu pleno esplendor, pois o imerge a luminosidade e no amor divinos.. * Professor no Seminário de Mariana - MG
A SEGUNDA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Grande a controvérsia sobre a autoria do texto sagrado conhecido como a segunda carta de São Pedro. Muitos pensam que foi algum seguidor deste Apóstolo, talvez um judeu-cristão, quem a escreveu, por volta dos últimos decênios do primeiro século. Ramazzotti adere à opinião dos que pensam ser Pedro o autor e assevera: “Tendo considerado tudo, pensamos que se pode defender ainda a tese mais tradicional da autenticidade, concedendo, porém, grande parte à obra do redator; este poderia ter reelaborado o texto após a morte do apóstolo, inserindo alguma referência à nova situação”. Quanto às discrepâncias no que tange à primeira carta do mesmo apóstolo, observadas pela crítica interna, se pode dizer com São Jerônimo que São Pedro teve secretários diferentes na redação destas cartas. Sobretudo após o concílio de Trento não paira para a mínima dúvida sobre a canonicidade deste livro. A finalidade do escrito é advertir os destinatários, provavelmente os mesmos da primeira epístola, contra os falsos doutores, que deturpam o pensamento paulino e disseminavam a cizânia na grei de Jesus Cristo. Há um breve preâmbulo (1,1-2), seguido da exortação à perseverança na fé (1,3-21). Logo após vem a admonição contra os pregadores de heresias (2,1-3,16). A conclusão (3,17-18) exprime um voto e apresenta bela doxologia. Sobre a generosidade de Deus, que elevou o homem a alta dignidade, assim se expressa São Pedro: “Seu poder divino nos concedeu tudo quanto se relaciona com a vida e a piedade. Pois nos deu a conhecer aquele que nos chamou pela sua própria glória e força. Por estas é que nos deu os bens preciosos e grandíssimos que tinham sido prometidos, para que graças a eles entreis em comunhão com a natureza divina, havendo escapado da corrupção que reina no mundo por causa dos maus desejos” (1,3-4). Notável este conselho atinente à postura cristã: “... empenhai todos os vossos esforços para acrescentar à vossa fé o bom procedimento, ao bom procedimento a ciência; esforçai-vos também por unir à ciência o autodomínio, ao autodomínio a constância, à constância a piedade, à piedade a estima fraterna e à estima fraterna o amor” (1,5-7). Ressalta o valor das profecias escriturísticas: “Deveis saber isto antes de tudo: nenhuma profecia da Escritura é assunto da interpretação pessoal, porque de uma vontade humana jamais veio uma profecia, mas, sim, homens movidos pelo Espírito Santo é que falaram da parte de Deus” (1,20-21). Ontem, hoje e enquanto o mundo existir, aparecerão os falsos doutores, oportunistas a serviço da desagregação inspirada pelo espírito das trevas. A este respeito, deste modo, se exprime São Pedro: “Mas apareceram também falsos profetas entre o povo; do mesmo modo, aparecerão entre vós falsos doutores. Eles introduziram sorrateiramente doutrinas perniciosas, chegando até a renegar o Soberano que o resgatou e atrairão sobre si uma repentina perdição” (2,1). Sério o alerta sobre a punição divina para os endurecidos no pecado, pois Deus “castigará especialmente os que seguem a carne, levados pelas paixões impuras, e desprezam a autoridade do Senhor” (2,10). É que os olhos de tais prevaricadores “são ávidos de adultério; e são insaciáveis seus desejos de pecar. Armam ciladas aos titubeantes e têm o coração afogado na avareza. A maldição do Senhor pesa sobre eles” (2,14). Não menos inditosa a sorte dos que tendo se emendado não perseveram, pois “se, na verdade, os que se apartaram das corrupções do mundo por meio do conhecimento de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, de novo nelas se enredam e se deixam vencer, seu estado final se torna pior do que o primeiro” (2,20). Brilha, porém, o raio luminoso da esperança fagueira, pois Deus é clemente e bondoso: “O Senhor não atrasa o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam. Mas usa de paciência para convosco, não querendo que ninguém pereça; pelo contrário, quer que todos cheguem a mudar de vida. Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão” (3,9-10). Apelo sublime à santidade e à vigilância faz o apóstolo: “Visto como tudo vai ser destruído, compreendeis bem qual deve ser o vosso comportamento, a saber, santo e piedoso, esperando e apressando a vinda do dia de Javé, o dia em que os céus inflamados vão se dissolver e os elementos abrasadores vão se fundir. Contudo, nós esperamos novos céus e nova terra, segundo a sua promessa, onde a justiça terá moradia estável. Eis, por que, meus amigos, esperando esse dia, envidai todos os vossos esforços por viverdes sem mancha e irrepreensíveis, para vos encontrardes em paz” (3,11-14). Com chave aurífera São Pedro encerra esta belíssima epístola; “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele, glória, agora e a eternidade. Amém” (3,18). Em nossos dias as cartas petrinas estão sendo objeto de particular atenção. É que eles fornecem preciosas lições que firmam pontos essenciais da fé cristã, alimentando a esperança e revigorando o amor a Deus e ao próximo. * Professor no Seminário de Mariana - MG
A PRIMEIRA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O príncipe dos Apóstolos deixou na sua primeira carta valiosos ensinamentos, sobretudo quanto a uma existência cristã digna, autêntica. Esta epístola foi escrita em Roma, onde ele terminou os seus dias martirizado. A estadia e morte de São Pedro na capital do império romano são fatos inegáveis. Nenhuma outra igreja da cristandade primitiva reivindicou jamais a honra primacial que sempre foi atribuída a Roma. Os catálogos dos papas colocam Pedro como o primeiro bispo romano. O endereço da carta está consignado logo no início da mesma: “Eu, Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, a vós eleitos, que viveis como estrangeiros, dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1,1). Objetivava dar apoio aos fiéis daquelas comunidades nas provas que padeciam. Isto em derredor do ano 64. A divisão do texto é esta: prólogo (1,1-12); exortação à santidade (1,13-2,10); orientações sobre as relações dos cristãos com os pagãos entre si; instruções sobre a vida interna das comunidades (4,7-5,11) e a saudação final (5,12-14). Pedro destaca, logo no início, o mistério trinitário: “Louvado seja Deus, Pai de nosso Jesus Cristo! Em sua imensa misericórdia nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, imaculada, perene, reservada a vós nos céus ... Esta salvação foi objeto das atenções e investigações dos profetas, ao vaticinarem sobre a graça destinada a vós ... Foi-lhes revelado que propunham não a si próprios, mas a vós, estes mistérios que agora vos têm sido anunciados por aqueles que vos evangelizaram, movidos pelo Espírito Santo enviado do céu” (1,1-12). Faz veemente apelo à perfeição: “Sede santos em toda a vossa conduta, assim como é santo Aquele que vos chamou” (1,15). Exorta: “Amai-vos uns aos outros de coração puro e incessantemente” (1,22b). O batizado deve aborrecer a malícia, a falsidade, as hipocrisias, as invejas e toda espécie de maledicência” (2,1). Cristo é a pedra angular da Igreja e, assim, concita São Pedro: “Incorporai-vos a Ele que é pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhidas aos olhos de Deus. Também vós sois como pedras vivas. Sois erigidos em templo espiritual para um sacerdócio santo, a fim de oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (2,4-6). O mistério salvífico está compendiado neste trecho no qual o apóstolo patenteia que Cristo “carregou pessoalmente, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro a fim de que, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça, porquanto por suas chagas é que fostes curados” (2,24). Deveres especiais do cristão são então enumerados. Aconselha às mulheres: “Vosso adorno não deve consistir em exterioridades, como cabeleiras artísticas, jóia de ouro, trajes de gala, mas deve ser a pessoas interior, com o espírito de mansidão e tranqüilidade. Isto, sim, é altamente precioso diante de Deus” (3,3). Aos maridos recomenda que respeitem suas esposas, “porque também elas são co-herdeiras da graça da vida” (3,7). Insiste na fraternidade: “Todos, enfim, cultivai o espírito de concórdia, de compaixão, de amor fraterno, de misericórdia e humildade. Não pagueis mal com mal, nem injúria com injúria” (3,8). Faz este apelo: “Cristo padeceu na carne. Portanto, tende também vós os mesmos sentimentos, pois aquele que sofreu na carne rompeu com o pecado, para viver o resto de sua vida, não segundo as paixões humanas, mas segundo a vontade de Deus” (4,2). Fala da parusia: “O fim de todas as coisas está próximo. Sede pois sensatos e vigiai na oração” (4,7). Nas tribulações e perseguições cumpre coragem e alegria. Assevera então: “Felizes de vós, se padeceis ultrajes pelo nome de Cristo, porque e Espírito da glória, que é o Espirito de Deus, paira sobre vós” (4,14). Acrescenta advertências gerais, antes da conclusão. Aos presbíteros adverte: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, vigiando-o, não pela força mas de bom grado, como Deus o quer; não pela sórdida ganância de lucros, mas com zelo amoroso” (5,2). Aos fiéis deixa, entre outros, esta sábia admonição: “Sede sóbrios! Vigiai! Vosso adversário, o Diabo, ronda qual leão a rugir, buscando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé, certos de que os mesmos sofrimentos atingem vossos irmãos dispersos pelo mundo” (5,8-9). Num rasgo de pulcra inspiração acrescenta: “E o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua glória eterna, a vós que sofrestes um pouco, Ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer, e vos tornar inabaláveis. A Ele o poder dos séculos! Amém!” (5,10-11). É proveitoso ler e meditar esta bela epístola! Vivê-la é atingir a eminente perfeição cristã, afastando definitivamente o indesejável esplim. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Uma das principais comunidades da Ásia estava em Éfeso. Questiona-se se realmente São Paulo endereçou esta epístola aos efésios. A crítica interna do texto encontra alguns problemas como a falta de informação pessoal, sem o extravasar do coração de Paulo, para uma comunidade na qual estivera três meses17. Uma hipótese é que “originariamente não trouxesse nenhum sobrescrito e tenha sido depois intitulada “aos efésios” por uma conjetura tirada de 2 Tm 4,12 ou então porque encontraram-na nos arquivos de Éfeso, quando, colecionaram as epístolas de São Paulo”18.
O importante é o conteúdo da carta, pois nela o apóstolo apresenta pontos fundamentais do dogma, focalizando a Redenção, a soberania de Cristo, do qual a Igreja é o corpo místico. A eclesiologia paulina é profunda e firma aspectos importantes das relações de Cristo com os batizados. Dá normas morais bem objetivas, visando precaver os cristãos das falsas doutrinas. São Paulo escreveu esta epístola provavelmente em Roma entre 61 e 62. Após a saudação (1,1-2), são expostas questões práticas (1,3-3,21). Eis os tópicos principais: a união de todos em Cristo; na Igreja se realiza esta união; tal a missão de Paulo: pregar este grande mistério. No final desta parte ele roga a Deus que confirme os efésios na fé. Vem, em seguida, instruções morais (4,1-6,20). A vocação cristã, a vida familiar, o combate espiritual são os temas principais que são tratados pelo apóstolo. A conclusão (6,21-24) enfoca a missão de Tíquico e apresenta a saudação final.
Esta epístola é a mais rica em conteúdo doutrinal. É um verdadeiro compêndio de teologia dogmática e moral. Deus, ensina São Paulo, “nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por (meio de) Jesus Cristo para a sua glória, por sua livre vontade, para fazer brilhar a glória de sua graça, pela qual nos tornou agradáveis (a seus olhos) em seu amado filho” (1,5). Adverte: “E nem sequer se nomei entre vós a fornicação, ou qualquer impureza ou avareza, como convém a santos; nem palavras torpes, nem loucas, nem chocarrices, que são coisas inconvenientes; mas antes (saiam de vossa boca) ações de graças (a Deus). Porque, sabei bem, nenhum fornicador, ou impudico, ou avaro, o qual é um idólatra (do dinheiro), terá herança no reino de Cristo e de Deus” (5,3-5). Belos conselhos: “Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja” (5,25) ... “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra teu pai e tua mãe, que é o primeiro mandamento que tem promessa, a fim de que sejas feliz e tenhas larga vida sobre a terra” e “vós, pais, não provoqueis à ira vossos filhos, mas educai-os na disciplina e nas instruções do Senhor” (6,1-4). As armas do cristão são espirituais para que ele resista “às ciladas do demônio” (6,11). Eis por que alerta: “Tomai a armadura de Deus para que possais resistir no dia mau, e ficai de pé depois de ter vencido tudo. Estais, pois, firmes tendo cingido os vossos rins com a verdade e vestido a couraça da justiça, e tendo os pés calçados (prontos) para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos os dardos inflamados do maligno; tomai também o elmo da salvação e a espada do espírito (que é a palavra de Deus) ... (6,13-18).
Suporte espiritual encontra o batizado perlustrando os capítulos desta carta, sólido alimento para as almas de boa vontade.
* Professor no Seminário de Mariana - MG
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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG
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O ESCRITOR DE CRISTO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
As treze cartas que trazem o nome de São Paulo são geralmente atribuídas a ele, havendo controvérsia maior quanto à autoria da epístola aos Hebreus. Quanto a esta, boa parte dos biblistas afirma tenha existido uma orientação paulina indireta, pois foi o Apóstolo das Gentes quem a inspirou. Segundo Dattler, são incontestavelmente da autoria de São Paulo: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon”8. Ballarini subdivide nestes grupos as cartas paulinas: “as duas epístolas dos tessalonicenses ligadas entre si pela data de composição e a afinidade do conteúdo, as quatro grandes cartas (1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos), as quatro da prisão (Filipenses, Colossenses, Filêmon, Efésios), as Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito). E fora de qualquer grupo se coloca a epístola aos Hebreus”9. Estas missivas foram fruto da solicitude que ele tinha para com todas as igrejas (2 Cor 11,28). As cartas de São Paulo sob o ponto de vista espiritual e teológico são um escrínio. Jóias, de fato, do que há de mais notável no mundo da comunicação, abordando temas profundos e aspectos pastorais que revelam um zelo abrasador. No dizer de Mackenzie, “ninguém questiona a sua posição como o maior pensador da história do cristianismo... Nele, pela primeira vez, a Igreja de Jesus que vive na Igreja se encontraram com a civilização do mundo; e a Igreja nunca aprendeu melhor linguagem para se dirigir ao mundo que a linguagem de Paulo”. Paulo colocou sua vasta cultura e sua penetrante inteligência a serviço da causa do Evangelho. Harrington afirmou com toda a razão que “o Paulo missionário e o Paulo teólogo imprimiu seu selo no cristianismo para sempre”11. Como seu coração pulsava uníssono com o coração de Jesus Cristo, de sua pena privilegiada jorraram textos preciosos que através dos tempos ornariam a literatura cristã. Matriculados na escola paulina os fiéis seguidores do Redentor sempre haveriam de se aprimorar espiritualmente, instruindo-se na doutrina do Mestre Divino através deste outro mestre que soube tão inspiradamente decodificar as mensagens sobrenaturais veiculadas pelo filho de Deus. Adite-se que São Paulo era um escritor realmente talentoso. Possuidor de um variado vocabulário, o que tornou suas frases sumamente expressivas, podendo ele comunicar com precisão seu pensamento, nele não se depara nunca o vazio sonoro. Era um conhecedor profundo da língua, recurso que muito contribui para que pudesse, por assim dizer, cristianizar expressões, carregando-as de um sentido que atravessariam os tempos para manifestar as verdades reveladas, num estilo próprio a serviço de tão alto objetivo. Aliás o Apóstolo mesmo diz aos coríntios: “Eu, pois, quando fui ter convosco, irmãos, anunciar-vos o testemunho de Cristo, não fui com sublimidade de estilo de sabedoria. Porque julguei não saber coisa alguma entre vós senão Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive entre vós com franqueza e temor e grande tremor; e minha conversão e a minha pregação não (consistiram) em palavras persuasivas da humana sabedoria mas na manifestação do espírito e da virtude; para que a vossa fé não se baseie sobre a sabedoria dos homens, mas sobre o poder de Deus” (1 Cor 2, 1-5). Movido pelo ardente amor que pulsava em seu coração Paulo muitas vezes atingiu o sublime. Para tornar ainda mais claras suas idéias, Paulo usa com propriedade de contrastes opondo, por exemplo, Adão e Cristo, o velho homem e o novo homem, o espírito e a carne, a fé e a lei mosaica. De maneira empática ele prevê possíveis dificuldades dos seus leitores e levanta as questões que logo responde com suma pertinácia. Vale-se dos vários recursos da lógica e leva o espírito de quem o lê com atenção a conclusões objetivas. O referencial de seu raciocínio é tão bem colocado que a mensagem é fixada na mente que a recebe. Assim, quando ele fala da Escritura Sagrada: “Como está escrito: Abraão creu em Deus e isto lhe foi imputado a justiça. Reconhecei, pois, que os que são da fé são os filhos de Abraão. Mas, antevendo a Escritura que Deus justificaria os Gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão: Em ti serão benditas todas as gentes” (Gl 3,6-8). As analogias paulinas são dignas de reparo, incorporando-se definitivamente à linguagem teológica o que ele diz sobre o corpo místico de Cristo. Ele fala nas armas espirituais: escudo da fé, couraça da justiça, elmo da salvação, espada do espírito (Ef 6,10 ss). A cada passo se deparam pulcras e significativas comparações nos escritos paulinos. Suas frases candentes seriam repetidas através dos tempos, quais chamas sagradas a iluminar a trajetória dos cristãos, conduzindo milhares ao amor de Jesus Cristo: “Já não sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Eu tudo posso naquele que é minha fortaleza” (Fl 4,13); “Eu sei em quem eu acreditei” (2 Tm 1,12). São Paulo, além disto, em suas missivas multiplica diretrizes que constituem pulcro programa de vida. Uma síntese de tudo se encontra nesta passagem: “Se ressuscitastes com Cristo procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não as coisas da terra” (Cl 3,1-2).* Professor no Seminário de Mariana - MG
APÓSTOLO DAS GENTES
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Participação decisiva teve São Paulo na marcha da nascente Igreja de Cristo a partir do ano de 42. Pelo Atos dos Apóstolos e por suas maravilhosas Epístolas, suas principais atividades podem ser seguidas.. Nasceu no ano 8 da era cristã em Tarso, importante cidade da Cilícia, Paulo afirmava ser cidadão romano (At 22,26). Foi baseado neste privilégio que o tribuno Cláudio Lísias o libertou, (At 23,27). Como Tarso não era colônia romana, a opinião de Renié é que “o pai de São Paulo ou um de seus ancestrais tinha recebido este título para recompensar serviços prestados à causa romana ou para reconhecer uma especial classe social a que pertencia...”. Judeu da dispersão teve sólida formação cultural, tendo sido discípulo do célebre Gamaliel. Seu talento extraordinário dotou-o de profunda erudição, mas seu caráter impetuoso levou-o ao fanatismo. Ei-lo na cena do desumano martírio de Estêvão (At 7,59), como um dos que fizeram sofrer o protomártir. Judeu ardente, combatia o cristianismo. Aos 26 anos se dirigiu ao príncipe dos sacerdotes e lhes pediu credenciais para ir a Damasco, a fim de prender os cristãos daquela cidade. Então, precisamente, se deu a sua conversão narrada nos Atos dos Apóstolos (9,4). A graça divina dele se apoderou. Ele seria o apóstolo dos gentios. Bem observou Renié: “Judeu de raça e pela educação; grego pelo lugar de seu nascimento e de sua língua; cidadão romano, ele era o ponto de contacto de três mundos” Desde que se converteu, Cristo foi o pensamento central de sua vida e pelo seu Senhor ele se sacrificou no afã de O fazer conhecido e amado. Entregou-se a tal apostolado com toda lealdade e total desprendimento, numa faina ininterrupta. Ananias foi o instrumento de Deus em Damasco na preparação para as lides a favor da evangelização do mundo. Por dois anos ele retirou depois para a Arábia, onde, na oração e na penitência, fez o grande noviciado para bem cumprir sua missão. Damasco, Jerusalém, Tarso foram os primeiros campos de trabalho, testemunhando Paulo aquele mesmo Jesus, que tão duramente combatera. Em 42 o vemos com Barnabé em Antioquia, onde esteve três anos. Sua primeira viagem apostólica deu-se nos anos de 45 a 49. Esteve na ilha de Chipre, onde converteu o procônsul romano Sérgio Paulo. Dirigiu-se depois a Antioquia da Pisídia e a outras cidades do interior. Esteve em Icônio e Listra, na Licaônica. Sua palavra arrastava milhares para a crença em Cristo. Operava em nome de Jesus, milagres estupendos. Em Derbe finalizou esta sua 1a viagem. Estabeleceu a hierarquia, ordenando presbíteros e deixando-os com seus representantes nos diversos núcleos cristãos. A porta da fé ficava inteiramente aberta aos gentios. Voltou a Antioquia, onde se opôs tenazmente à exigência que os judeus convertidos faziam de suas práticas. Participou do Concílio de Jerusalém, onde foi o paladino da liberdade cristã. Pedro proclamou claramente que a graça e a revelação de Cristo é que proporcionam aos homens a salvação. Como, posteriormente, o Príncipe dos Apóstolos, em Antioquia, se acomodou às práticas judaico-cristãs, São Paulo recriminou tal proceder que comprometia a expansão cristã (Gl 2,11). Ele foi de fato o corifeu do cristianismo supra nacional. No ano 50 iniciou a 2a viagem apostólica, que o levaria até à Grécia, ressoando no Aerópago de Atenas a voz que falava aos helenos do Deus desconhecido. Por três anos missionou a Ásia Menor até o sul da Europa, regressando a Corinto. Surgem, então, as Epístolas do grande teólogo. Nelas rebrilha seu gênio de escritor apaixonado por Cristo. Em 53 mesmo, iniciou sua 3a viagem apostólica. Tito, seu discípulo predileto, o acompanhou então.Regressou em 58 a Jerusalém satisfeitíssimo com o trabalho dos quatro anos de missão e trouxe para os cristãos de Jerusalém as esmolas que recolhera. Os judeus de Jerusalém (At 21,21) não o acolheram bem e Paulo, aconselhado por Tiago, resolveu, a bem da paz, se retirar. Esteve dois anos em Cesaréia sob custódia do procurador Félix. No ano 60 iniciou sua última viagem quando vai a Roma, onde desejava reivindicar seus direitos de cidadão romano. De 61 a 63, lá esteve cativo, mas podia pregar e “com franqueza, sem impedimento”, o Reino de Deus (At 21,28) a todos que vinham a ele. Em 63, posto em liberdade, vai até à Espanha. Em 66 foi de novo preso e levado a Roma. Era a época do terrível Nero. Em 67 foi decapitado na via ostiense, onde, mais tarde foi levantada grande basílica em sua honra. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Toda a vida de São Paulo desde sua conversão foi entregue à causa do Evangelho. Sua ação apostólica para a Igreja foi de transcendental importância. Com genial clarividência ele a orientou rumo ao universalismo cristão, operou a conversão dos gentios, sem os atar à lei antiga. Dirigiu-se sabiamente aos centros vitais do Império Romano e consolidou as Igrejas que se tornaram focos de irradiação da cultura cristã. * Professor no Seminário de Mariana - MG
SEGUNDA E TERCEIRA CARTAS DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Duas cartas típicas são conhecidas como epístola de São João. O concílio de Trento as declarou canônicas. Não se sabe ao certo quem é o autor destes textos sagrados, embora tudo indique que seja o apóstolo João. Alguns pensam ser João Presbítero, referido por Pápias, dado que o autor se intitula “Presbítero”. A data mais provável destes textos é o fim do primeiro século. A segunda carta é dirigida a uma comunidade de fiéis asiáticos e os previne contra os pseudos profetas, confirmando-os na fé verdadeira. Os biblistas assim entendem a Senhora Eleita do versículo primeiro a quem é dirigida a missiva. Diz Harrington: “Não há a menor dúvida de que o título designa uma igreja (1,14,13) provavelmente da Ásia Menor”. Significativa esta passagem que retém o ideal de toda a igreja fiel: “Alegra-me muito saber que teus filhos caminham na verdade, conforme o mandamento que recebemos do Pai” (3 Jo 4). Eis uma sábia orientação para os discípulos de Cristo de todos os tempos: “... que nos amemos uns aos outros. Mas amar é viver segundo os mandamentos dele. E o mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que vivais no amor” (v. 6). Adverte: “... apareceram no mundo muitos sedutores, que não admitem que Jesus Cristo se tenha encarnado. Quem age assim deveis considerá-lo como sedutor e anticristo. Cuidado para não perder o que já ganhastes, mas pelo contrário, receber uma plena recompensa. Quem não permanecer na doutrina de Cristo e dela se afastar não possui a Deus. Quem permanece na doutrina possui o Pai e o Filho” (v. 7-9). Não se deve favorecer o erro: “Se alguém vier vos procurar e não tiver esta doutrina, não o recebais em casa, nem o saudeis. Quem o cumprimenta participa de suas más obras” (v.10-11). Quantos, ou por respeito humano, ou por comodismo, são hoje coniventes com os erros, sob pretexto de um falso ecumenismo! A terceira carta, dirigida a Caio foi escrita por força de um problema local. Diz o texto: “Tenho escrito à Igreja. Mas Diótrefes que ambiciona o primeiro posto aí, não nos recebe. Por isso, se eu for aí, vou chamar sua atenção para as más obras que faz, divulgando coisas falsas contra nós. Não contente com isto, deixa de receber os irmãos e expulsa da igreja os que querem recebê-los” (v.9-10). Comenta Mackenzie: “Gaio é elogiado por sua fé e lealdade. Segundo alguns, Demétrio, o portador da carta, teria sido enviado precisamente para depor Diótrefes e empossar Gaio; trata-se de um interessante esboço de uma tensão jurisdicional primitiva que permanece obscura”. Neste bilhete inspirado esta lição preciosa: “Caríssimo, não imites o mau, mas o bom. Quem faz o bem é de Deus. Quem faz o mal não viu a Deus” (v.11).Duas pequeninas cartas, mas a deixarem seus recados celestiais para os que se alimentam com a Palavra de Deus! * Professor no Seminário de Mariana - MG
PRIMEIRA CARTA DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Ao perlustrar a primeira carta do apóstolo João, o leitor percebe ao vivo que fala sobretudo um coração palpitante de amor a Deus. Não há uma ordem lógica entre as diversas partes, mas tão cadentes são as mensagens que prendem do começo ao fim a atenção de quem as percorre. Após os estudos feitos pelos peritos, apesar de algumas diferenças explicáveis pelo contexto e pelo objetivo, a conclusão é que o autor desta carta é o mesmo do quarto Evangelho. O discípulo amado, apresenta neste texto, que é mais uma homilia, aspectos sublimes da espiritualidade do cristão, o qual deve viver em função de Deus que é luz (1,5 s) e que é amor (4,7 s). Escrita nos últimos anos do primeiro século para os fiéis das igrejas asiáticas, o escopo é firmar os crentes na fé os erros. São João revela uma sábia postura: melhor do que simplesmente combater os hereges é esclarecer e robustecer os cristãos, pois, então sim, se bloqueia o erro e se difunde a verdade. Cumpre, é certo, denunciar as falsas doutrinas, mas o principal é que o discípulo de Cristo esteja firme numa fé esclarecida. O batizado é aquele que habita amorosamente em Deus e, assim, fica isento do pecado: “Quem é filho de Deus não peca, porque sua semente permanece nele; ele não pode pecar porque nasceu de Deus” (3,9). Esta união com Deus é a ventura suprema: “Esta é a mensagem que ouvimos dele e trazemos para vós: Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas. Se dissermos que estamos em comunhão com ele e andamos na escuridão, mentimos, e não estamos agindo segundo a verdade. Mas se andamos na luz, como ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1,5-7). Grande a confiança que se deve ter na bondade divina: “Meus filhinhos, eu vos escrevo isto para que não pequeis, mas, se alguém vier a pecar, temos um advogado, Jesus Cristo, junto ao Pai. Ele é vítima de expiação por nossos pecados, e não só pelos nosso, mas pelos de todo o mundo” (2,1-2). A caridade fraterna é atitude básica: “Quem diz estar na luz e odeia seu irmão, está ainda nas trevas. Quem ama seu irmão está na luz e nela não há nada que induza a pecar. Mas o que odeia seu irmão está nas trevas: caminha nas trevas, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos” (2,9-11). Adverte São João: “Não ameis o mundo, nem coisa alguma que existe nele. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo desejo incontrolado da carne, desejo incontrolado dos olhos e orgulho pelos bens da vida não vem do Pai do mundo. Mas o mundo passa e seus desejos imoderados também, mas o que cumpre a vontade de Deus permanecer para sempre” (2,15-17). Luminoso o destino de quem ama a Deus: “Se aquilo que ouvistes desde o começo permanecer em vós, vós também permanecereis no Filho e no Pai. Ora, esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (2,24-25). Que o batizado erga a fronte e marche impávido: “Vede como é grande o amor que o Pai nos dedicou, concedendo-nos ser chamados filhos de Deus. E nós o somos! Se o mundo não nos conhece é porque o não tem conhecido. Caríssimos, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não seja manifesto o que viremos a ser. Sabemos que, quando Cristo aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos como ele é” (3,1-2). Eis a condição para que a prece seja atendida: “Caríssimos, se o nosso coração não nos acusa, podemos recorrer confiantes a Deus, e tudo que pedirmos receberemos dele porque cumprimos seus mandamentos e fazemos o que é agradável aos seus olhos” (3,21-22). Crer em Cristo é fanal seguro de salvação: “Podereis reconhecer assim o Espírito de Deus: quem confessar que Jesus Cristo se encarnou é de Deus. Quem não aceitar Jesus, esse não é de Deus, mas do anticristo” (4,2-3). Verifica um fato que merece toda a atenção: “É assim que o amor de Deus se manifestou a nós: Deus mandou seu Filho único ao mundo para que recebêssemos a vida por ele. Nisto consiste o seu amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele o primeiro que nos amou e mandou seu Filho como expiação pelos nossos pecados” (4,9-10). Acrescenta: “Este Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (4,16). Cumpre observar que a permanência de Deus no cristão é constante, mas a permanência do cristão em Deus é defectível, pois Ele respeita a liberdade de cada um. Esta é a triste sina do ser racional, poder desprezar o Bem Supremo, deixando-se arrastar pela voragem das paixões não dominadas. Daí o conselho de São João: “E nós amemos a Deus, porque ele nos amou primeiro” (4,19). Mostra, porém, que “se alguém diz: “Amo a Deus” e detesta seu irmão, está mentindo. Porque quem não ama seu irmão, a quem vê, não é possível que ame a Deus, a quem não vê” (4,20). Dá um sólido argumento para o crente: “Se aceitamos o testemunho dos homens, maior é o testemunho de Deus, que deu o testemunho de seu Filho” (5,9). Deste modo termina esta formosa carta: “Sabemos ainda que o Filho de Deus veio e que nos deu a inteligência para que conheçamos ao Verdadeiro. E nós estamos no Verdadeiro, em Jesus Cristo. Ele é o verdadeiro Deus e a vida eterna. Filhinhos, cuidado com os ídolos!” (5,20-21). Num estilo didático e homilético São João mostra assim que a vida cristã é uma ontológica relação vital de comunhão com Deus. Esta epístola é, deste modo, de enorme importância para que a vivência do batizado atinja seu pleno esplendor, pois o imerge a luminosidade e no amor divinos.. * Professor no Seminário de Mariana - MG
A SEGUNDA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho
Grande a controvérsia sobre a autoria do texto sagrado conhecido como a segunda carta de São Pedro. Muitos pensam que foi algum seguidor deste Apóstolo, talvez um judeu-cristão, quem a escreveu, por volta dos últimos decênios do primeiro século. Ramazzotti adere à opinião dos que pensam ser Pedro o autor e assevera: “Tendo considerado tudo, pensamos que se pode defender ainda a tese mais tradicional da autenticidade, concedendo, porém, grande parte à obra do redator; este poderia ter reelaborado o texto após a morte do apóstolo, inserindo alguma referência à nova situação”. Quanto às discrepâncias no que tange à primeira carta do mesmo apóstolo, observadas pela crítica interna, se pode dizer com São Jerônimo que São Pedro teve secretários diferentes na redação destas cartas. Sobretudo após o concílio de Trento não paira para a mínima dúvida sobre a canonicidade deste livro. A finalidade do escrito é advertir os destinatários, provavelmente os mesmos da primeira epístola, contra os falsos doutores, que deturpam o pensamento paulino e disseminavam a cizânia na grei de Jesus Cristo. Há um breve preâmbulo (1,1-2), seguido da exortação à perseverança na fé (1,3-21). Logo após vem a admonição contra os pregadores de heresias (2,1-3,16). A conclusão (3,17-18) exprime um voto e apresenta bela doxologia. Sobre a generosidade de Deus, que elevou o homem a alta dignidade, assim se expressa São Pedro: “Seu poder divino nos concedeu tudo quanto se relaciona com a vida e a piedade. Pois nos deu a conhecer aquele que nos chamou pela sua própria glória e força. Por estas é que nos deu os bens preciosos e grandíssimos que tinham sido prometidos, para que graças a eles entreis em comunhão com a natureza divina, havendo escapado da corrupção que reina no mundo por causa dos maus desejos” (1,3-4). Notável este conselho atinente à postura cristã: “... empenhai todos os vossos esforços para acrescentar à vossa fé o bom procedimento, ao bom procedimento a ciência; esforçai-vos também por unir à ciência o autodomínio, ao autodomínio a constância, à constância a piedade, à piedade a estima fraterna e à estima fraterna o amor” (1,5-7). Ressalta o valor das profecias escriturísticas: “Deveis saber isto antes de tudo: nenhuma profecia da Escritura é assunto da interpretação pessoal, porque de uma vontade humana jamais veio uma profecia, mas, sim, homens movidos pelo Espírito Santo é que falaram da parte de Deus” (1,20-21). Ontem, hoje e enquanto o mundo existir, aparecerão os falsos doutores, oportunistas a serviço da desagregação inspirada pelo espírito das trevas. A este respeito, deste modo, se exprime São Pedro: “Mas apareceram também falsos profetas entre o povo; do mesmo modo, aparecerão entre vós falsos doutores. Eles introduziram sorrateiramente doutrinas perniciosas, chegando até a renegar o Soberano que o resgatou e atrairão sobre si uma repentina perdição” (2,1). Sério o alerta sobre a punição divina para os endurecidos no pecado, pois Deus “castigará especialmente os que seguem a carne, levados pelas paixões impuras, e desprezam a autoridade do Senhor” (2,10). É que os olhos de tais prevaricadores “são ávidos de adultério; e são insaciáveis seus desejos de pecar. Armam ciladas aos titubeantes e têm o coração afogado na avareza. A maldição do Senhor pesa sobre eles” (2,14). Não menos inditosa a sorte dos que tendo se emendado não perseveram, pois “se, na verdade, os que se apartaram das corrupções do mundo por meio do conhecimento de Nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, de novo nelas se enredam e se deixam vencer, seu estado final se torna pior do que o primeiro” (2,20). Brilha, porém, o raio luminoso da esperança fagueira, pois Deus é clemente e bondoso: “O Senhor não atrasa o cumprimento de sua promessa, como alguns pensam. Mas usa de paciência para convosco, não querendo que ninguém pereça; pelo contrário, quer que todos cheguem a mudar de vida. Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão” (3,9-10). Apelo sublime à santidade e à vigilância faz o apóstolo: “Visto como tudo vai ser destruído, compreendeis bem qual deve ser o vosso comportamento, a saber, santo e piedoso, esperando e apressando a vinda do dia de Javé, o dia em que os céus inflamados vão se dissolver e os elementos abrasadores vão se fundir. Contudo, nós esperamos novos céus e nova terra, segundo a sua promessa, onde a justiça terá moradia estável. Eis, por que, meus amigos, esperando esse dia, envidai todos os vossos esforços por viverdes sem mancha e irrepreensíveis, para vos encontrardes em paz” (3,11-14). Com chave aurífera São Pedro encerra esta belíssima epístola; “antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele, glória, agora e a eternidade. Amém” (3,18). Em nossos dias as cartas petrinas estão sendo objeto de particular atenção. É que eles fornecem preciosas lições que firmam pontos essenciais da fé cristã, alimentando a esperança e revigorando o amor a Deus e ao próximo. * Professor no Seminário de Mariana - MG
A PRIMEIRA CARTA DE SÃO PEDRO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O príncipe dos Apóstolos deixou na sua primeira carta valiosos ensinamentos, sobretudo quanto a uma existência cristã digna, autêntica. Esta epístola foi escrita em Roma, onde ele terminou os seus dias martirizado. A estadia e morte de São Pedro na capital do império romano são fatos inegáveis. Nenhuma outra igreja da cristandade primitiva reivindicou jamais a honra primacial que sempre foi atribuída a Roma. Os catálogos dos papas colocam Pedro como o primeiro bispo romano. O endereço da carta está consignado logo no início da mesma: “Eu, Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, a vós eleitos, que viveis como estrangeiros, dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia” (1,1). Objetivava dar apoio aos fiéis daquelas comunidades nas provas que padeciam. Isto em derredor do ano 64. A divisão do texto é esta: prólogo (1,1-12); exortação à santidade (1,13-2,10); orientações sobre as relações dos cristãos com os pagãos entre si; instruções sobre a vida interna das comunidades (4,7-5,11) e a saudação final (5,12-14). Pedro destaca, logo no início, o mistério trinitário: “Louvado seja Deus, Pai de nosso Jesus Cristo! Em sua imensa misericórdia nos fez renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, imaculada, perene, reservada a vós nos céus ... Esta salvação foi objeto das atenções e investigações dos profetas, ao vaticinarem sobre a graça destinada a vós ... Foi-lhes revelado que propunham não a si próprios, mas a vós, estes mistérios que agora vos têm sido anunciados por aqueles que vos evangelizaram, movidos pelo Espírito Santo enviado do céu” (1,1-12). Faz veemente apelo à perfeição: “Sede santos em toda a vossa conduta, assim como é santo Aquele que vos chamou” (1,15). Exorta: “Amai-vos uns aos outros de coração puro e incessantemente” (1,22b). O batizado deve aborrecer a malícia, a falsidade, as hipocrisias, as invejas e toda espécie de maledicência” (2,1). Cristo é a pedra angular da Igreja e, assim, concita São Pedro: “Incorporai-vos a Ele que é pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhidas aos olhos de Deus. Também vós sois como pedras vivas. Sois erigidos em templo espiritual para um sacerdócio santo, a fim de oferecer vítimas espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (2,4-6). O mistério salvífico está compendiado neste trecho no qual o apóstolo patenteia que Cristo “carregou pessoalmente, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro a fim de que, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça, porquanto por suas chagas é que fostes curados” (2,24). Deveres especiais do cristão são então enumerados. Aconselha às mulheres: “Vosso adorno não deve consistir em exterioridades, como cabeleiras artísticas, jóia de ouro, trajes de gala, mas deve ser a pessoas interior, com o espírito de mansidão e tranqüilidade. Isto, sim, é altamente precioso diante de Deus” (3,3). Aos maridos recomenda que respeitem suas esposas, “porque também elas são co-herdeiras da graça da vida” (3,7). Insiste na fraternidade: “Todos, enfim, cultivai o espírito de concórdia, de compaixão, de amor fraterno, de misericórdia e humildade. Não pagueis mal com mal, nem injúria com injúria” (3,8). Faz este apelo: “Cristo padeceu na carne. Portanto, tende também vós os mesmos sentimentos, pois aquele que sofreu na carne rompeu com o pecado, para viver o resto de sua vida, não segundo as paixões humanas, mas segundo a vontade de Deus” (4,2). Fala da parusia: “O fim de todas as coisas está próximo. Sede pois sensatos e vigiai na oração” (4,7). Nas tribulações e perseguições cumpre coragem e alegria. Assevera então: “Felizes de vós, se padeceis ultrajes pelo nome de Cristo, porque e Espírito da glória, que é o Espirito de Deus, paira sobre vós” (4,14). Acrescenta advertências gerais, antes da conclusão. Aos presbíteros adverte: “Apascentai o rebanho de Deus que vos foi confiado, vigiando-o, não pela força mas de bom grado, como Deus o quer; não pela sórdida ganância de lucros, mas com zelo amoroso” (5,2). Aos fiéis deixa, entre outros, esta sábia admonição: “Sede sóbrios! Vigiai! Vosso adversário, o Diabo, ronda qual leão a rugir, buscando a quem devorar. Resisti-lhe firmes na fé, certos de que os mesmos sofrimentos atingem vossos irmãos dispersos pelo mundo” (5,8-9). Num rasgo de pulcra inspiração acrescenta: “E o Deus de toda graça, que em Cristo vos chamou à sua glória eterna, a vós que sofrestes um pouco, Ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortalecer, e vos tornar inabaláveis. A Ele o poder dos séculos! Amém!” (5,10-11). É proveitoso ler e meditar esta bela epístola! Vivê-la é atingir a eminente perfeição cristã, afastando definitivamente o indesejável esplim. * Professor no Seminário de Mariana - MG