Friday, September 07, 2007

 

Temas bíblicos (1)

OS TEXTOS DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*

Os textos bíblicos foram redigidos em três línguas: a maior parte dos livros vétero-testamentários em hebraico, alguns em aramaico e o segundo livro dos Macabeus e todo o Novo Testamento, com exceção do Evangelho de São Mateus, em grego.
Os hebreus falaram hebraico até o século sexto antes de Cristo, quando esta língua ficou restrita à liturgia e o aramaico se tornou o idioma do cotidiano.
O aramaico, muito próximo do hebraico, cujo nome vem de Aram, região do norte da Síria e da Mesopotâmia, foi, desde o oitavo século antes de Cristo a linguagem internacional da Ásia. Mais tarde o árabe o suplantou.
Todos os originais da Bíblia desapareceram. Isto se deu por causa da precariedade do material então utilizado.
Como Deus não costuma multiplicar milagres, só restaram cópias. Como sói acontecer, os copistas cometeram erros, pois apenas uma cadeia de prodígios excepcionais impediria os equívocos.
Entretanto, a mensagem divina foi transmitida integralmente.
A comparação dos diversos manuscritos comprovam ter havido modificações acidentais que não deturparam nunca o núcleo básico da revelação.
A integridade do escrito foi preservada. Descobertas de traslados antigos levam também a esta conclusão.
Diversos os motivos das falhas. Houve confusão dos caracteres então empregados muito semelhantes entre si.
No caso do hebraico, este não possuía vogais e a vocalização, que foi feita pelos rabinos, ditos massoretas, não é necessariamente a do original. Aditem-se a distração, a negligência e a ignorância de quem copiava.
Note-se que há hoje cerca de quatro mil cópias manuscritas do Novo Testamento, sendo a maior parte incompleta. As mais antigas remontam ao século quarto.
Notável foi a descoberta, em Qumran, nordeste do Mar Morto, entre 1947 e 1958 dentro de onze cavernas. Isaías completo, comentário de Habacuc, fragmentos de todo o Antigo Testamento, com exceção de Ester, dos deuterocanônicos Tobias e Eclesiásticos, mereceram especial atenção, uma vez que outros documentos foram também aí achados.
Os especialistas concluíram que a escrita é típica do século primeiro antes de Cristo e do primeiro século depois de Cristo.
A comunidade que os teria possuído seria a dos essênios, cuja característica era a santidade de vida.
Os estudos que prosseguem sobre o material encontrado vem enriquecendo a exegese bíblica, sobretudo a crítica neotestamentária.
As peripécias pelas quais passaram os livros revelados mostram que Deus, apesar de não ter querido multiplicar intervenções miraculosas, fez com que sua mensagem atravessasse íntegra os séculos e chegasse até hoje na sua prístina grandeza.
* Professor no Seminário de Mariana - MG


O CÂNON DOS LIVROS DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O catálogo dos livros inspirados da Bíblia tem sua história. O termo cânon que vem do grego e significa régua de caniço que servia para medir distâncias, na linguagem eclesiástica passou a ser regra de fé ou de conduta. Daí foi aplicado às Escrituras, que contêm esta norma e, depois, ao elenco dos livros que as compõem. Canonicidade e inspiração são termos intimamente relacionados entre si, pois todo livro canônico é inspirado. Pode haver um livro inspirado que não seja canônico, como, por exemplo, se viessem a ser encontradas certas epístolas perdidas de São Paulo. Entretanto cumpre observar que “quanto à questão teórica da possibilidade de algum livro inspirado se haver perdido, é preciso distinguir entre livro apenas inspirado e livro canônico. Ora, não parece possível que se haja perdido um livro inspirado e canônico, isto é, já universalmente reconhecido e declarado inspirado pela Igreja, pois isto suporia que a Igreja não tenha sido fiel à sua missão de guardiã das fontes da revelação, o que é inadmissível”. Deste modo ao se falar em canonicidade implicitamente se está colocando a existência da inspiração, de uma Revelação formal e verdadeira e o pronunciamento da Igreja, ainda que tácito. Uma distinção importante é entre os livros protocanônicos e deuterocanônicos. Os primeiros são aqueles cuja inspiração nunca foi, com motivos plausíveis, colocada em dúvida, não havendo controvérsias sobre eles. Os outros foram questionados por alguma igreja particular e tiveram sua aceitação universal apenas depois de anos de controvérsias. Tais livros são chamados apócrifos pelos protestantes. Os católicos chamam apócrifos livros não inspirados e que foram tidos como tais. Os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento são: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, os dois livros dos Macabeus. Aditem-se os sete últimos capítulos de Ester e certas partes de Daniel: a prece de Azarias e o cântico dos três jovens na fornalha (Dan 3,24-90), a história de Suzana e a do ídolo Bel e do dragão (Dan 13,14). Há igualmente sete livros deuterocânonicos no Novo Testamento, a saber: a carta aos hebreus, as cartas de São Tiago e de São Judas, a segunda de São Pedro, a segunda e a terceira de São João, o Apocalipse e três fragmentos: o final de São Marcos (16,9-20), o episódio do suor de sangue em São Lucas (22,43-44), a cena da mulher adúltera em São João (7,53-8,11). As bíblias protestantes, porém, trazem este livros deuterocanônicos não, porém, os do Antigo Testamento.
Quanto aos textos vétero-testamentários a Igreja os recebeu da Sinagoga. Não se pode precisar qual o critério que permitiu aos judeus fixar o seu cânon. É possível que Deus tenha revelado por algum meio quais os textos inspirados e isto pode se ter dado através dos profetas.
Como os autores do Novo Testamento se serviam da tradução dos Setenta eles admitiam a inspiração dos livros deuterocanônicos. Estes até meados do século II foram aceitos sem reservas. Por circunstâncias históricas o cânon restrito começou a prevalecer. É que nas discussões com os judeus só se podia apelar para os protocanônicos. Assim nos séculos III e IV havia insegurança quanto a afirmativa da inspiração dos deuterocanônicos, tanto mais que os apócrifos eram, às vezes, apresentados como livros sagrados. São Cirilo de Jerusalém, Santo Hilário de Poitiers, São Gregório Naziazeno, Santo Atanásio, São Jerônimo, Rufino os consideravam apenas como livros edificantes. O concílio de Florença, em 1441, enumerou os livros vétero-testamentários sem fazer a distinção dos protocanônicos e deuterocanônicos. Quanto ao novo Testamento o cânon de Muratori é o mais antigo. Caso o autor deste cânon seja Hipólito que conheceu e empregou todos os escritos do Novo Testamento, menos a carta aos filipenses, a epístola de São Judas, a segunda e a terceira carta de São João, que entretanto enumeradas no cânon, se pode asseverar que pelo fim do século segundo o cânon da Igreja romana era idêntico ao de hoje.Muratori foi um sábio italiano que encontrou o referido cânon na Biblioteca ambrosiana de Milão e o editou em 1740. No que tange ao Antigo e ao Novo Testamento, o Concílio de Trento, na sessão de 8 de dezembro de 1546, definiu, uma vez por todas, a lista completa dos livros inspirados, sendo que o Concílio Vaticano I, na sessão de 24 de abril de 187030, ratificou a mesma doutrina. A Constituição Dogmática Dei Verbum do Vaticano II afirma: “Pela mesma tradição torna-se conhecido à Igreja o cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nela cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar atuantes .... * Professor no Seminário de Mariana - MG

A INSPIRAÇÃO BÍBLICA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Para os crentes os livros que compõem as Escrituras Sagradas são inspirados por Deus, que é, deste modo, o autor principal de todos os textos bíblicos. Trata-se de uma ação especial exercida pelo Espírito Santo sobre o hagiógrafo para levá-lo a escrever. O termo foi tirado de São Paulo: “Toda a Escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para formar na justiça; a fim de que o homem de Deus seja perfeito, apto para toda a obra boa”. São Pedro emprega o mesmo vocábulo: “... nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Porque a profecia nunca foi dada pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus (é que) falaram inspirados pelo Espírito Santo”.
Atinentes a estas passagens a explicação de Mannucci: “O carisma da inspiração bíblica encontrou a sua plena e explícita formulação somente nos escritos mais recentes do Novo Testamento. O que não deve causar estranheza, visto que a reflexão sobre a natureza de um fato segue sempre a afirmação do mesmo. Israel tinha consciência de que possuía a realidade da palavra de Deus, feita livro; mas ainda não se dizia claramente em virtude de que ação divina se havia realizado a encarnação num Livro da Palavra de Deus. Para responder a esta interrogação, o Novo Testamento recupera a categoria da ação do Espírito Santo (2 Pd 1,21) e introduz a categoria mais técnica da Escritura inspirada por Deus (2 Tim 3,17), tirando-a do mundo helenístico, mas sem aceitar o sentido helenista da inspiração divinatória”.
Adite-se que Cristo afirmou claramente a inspiração do salmo 109, declarando que Davi falou pelo Espírito Santo. Ele, muitas vezes, apelou para o testemunho das Escrituras nos debates com os judeus. Assim esta passagem: “Examinais as Escrituras porque julgais ter nelas a vida eterna; e elas são as que dão testemunho de mim”.
Há no Novo Testamento trezentas e cinqüenta citações do Antigo Testamento, sendo que oitenta foram feitas por São Paulo. Ele e os demais apóstolos apelam para os trechos que provam ser Cristo o Messias. Vêem, assim, nas palavras dos autores da Antiga Aliança oráculos divinos. Quanto ao Novo Testamento, São Pedro coloca as cartas de São Paulo entre as Escrituras. São João no prólogo do Apocalipse declara a origem divina do livro que escreve. A tradição, por outra, confirma peremptoriamente o caráter inspirado dos livros canônicos da Nova Aliança. São Clemente de Alexandria assim se expressa sobre a inspiração: “O que com juízo firme crê nas divinas Escrituras recebe na voz de Deus, que as outorgou, uma demonstração inexpugnável; a fé, pois, não é algo que toma sua força de uma demonstração”. Ao se aprofundar a noção de inspiração se pode afirmar com Renié que esta ilumina a inteligência e as faculdades intelectuais dos escolhidos por Deus; determina a vontade a escrever e influencia sobre as diversas faculdades que concorrem para a composição das obras18. Lusseau et Colomb sintetizam assim esta questão: “Os livros que compõem a Bíblia são inspirados, isto é, redigidos por homens, que sob o influxo especial do Espírito Santo, têm Deus por autor; os escritores inspirados tomaram parte ativa na elaboração dos Livros Santos; eles são também verdadeiramente autores da Escritura; a colaboração de Deus e do homem na elaboração dos escritos sagrados não poderia ser explicado pela hipótese de um concurso simultâneo; ela exige uma subordinação do hagiógrafo ao Espírito Santo de tal forma que este seja, no sentido verdadeiro do termo, autor principal e aquele, autor instrumental da Sagrada Escritura. Cumpre observar com Mackenzie que “são poucos os livros bíblicos que contam com um único autor e os anônimos não são a minoria; eles são o resultado de longo processo de evolução. Neste caso Deus inspirou os diversos autores que participaram da elaboração de um livro na medida exata de sua contribuição. O Espírito Santo, portanto, guiou todo o processo da formação de um texto. Pierre Grelot especifica esta atuação divina, declarando que “Deus fez com que sua Palavra chegasse aos homens e fosse integralmente conservada no seu povo por meio de três espécies de carismas, conferindo a uns a missão de profeta e de apóstolo, assistindo outros no exercício de diversas funções, inspirando outros ainda para que escrevessem livros”. Por serem inspirados por Deus os Livros da Bíblia comunicam a Verdade que salva e liberta. * Professor no Seminário de Mariana - MG


REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO BÍBLICAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
No que tange à revelação e à inspiração bíblicas, pertinente este esclarecimento de Dom Estêvão Bettencourt: “A inspiração não acrescenta noções novas ao autor humano, mas se serve das que ele possui, para que ele redija seu texto divino-humano. A revelação, porém, acrescenta ao autor conhecimento que ele não tem. Ora é verdade que nem todas as páginas da Bíblia nos trazem profecias ou noções inéditas em relação ao ambiente cultural do autor sagrado. Sabemos que o livro dos provérbios tem semelhança com textos do Egito; não obstante, o livro dos provérbios é todo inspirado, embora não traga revelação nenhuma”. Com efeito, a inspiração bíblica não significa revelação. Deus não comunicou ao autor sagrado verdades que ele não houvesse aprendido, mas se serviu delas para comunicar aos homens as realidades maravilhosas do mundo sobrenatural. O Espírito Santo iluminava o hagiógrafo de tal forma que ele percebesse claramente, com certeza divina, serem algumas nações já possuídas veículos da mensagem que Deus desejava transmitir aos homens e outras não aptas a tal sublime fim. Deste modo o que está na Bíblia vem de Deus. Uma explicação de Lagrange ilustra este fato: “Dando a luz da inspiração ... Deus comunicava à vontade do hagiógrafo o impulso necessário ... para rejeitar ou admitir. Desde então essa página humana tomava outra índole: ... em sua existência, essa página se tornava divina, garantida por Deus, inserida no livro de Deus, por especial efeito de sua vontade”. De tudo isto resulta que Deus é o inspirador de todos os textos bíblicos, sendo assim seu autor principal. É que Ele exerceu um influxo interno sobre o escritor sagrado, a saber, sobre sua inteligência, vontade e faculdades executivas. Deste modo o homem foi um instrumento, não objeto meramente mecânico, nas mãos do Ser Supremo. No ato da Inspiração, nem sempre houve revelação, mas sim um juízo sobrenatural sobre algo já conhecido. Adite-se que o autor inspirado pode não ter tido consciência de sua inspiração e ele gozou sempre de plena liberdade, mas, dada a ação divina, ele só escreveu o que Deus quis. Não houve um ditado por parte do Espírito Santo no sentido servil da palavra. Houve, sim, um ditado verbal, ou seja, uma real inspiração no que se refere aos conceitos. Daí resulta a inerrância bíblica, ou, como proclama a Constituição Dogmática, sobre a Revelação Divina, do Concílio Vaticano II, Dei Verbum, “os livros das Escrituras ensinam, firmemente, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, para nossa salvação, desejou ver confiadas às Sagradas Escrituras”. Célebre a declaração de Santo Tomás: “Tudo que diz a Sagrada Escritura é verdadeiro”. Ante as ciências históricas e naturais é mister, contudo, uma análise acurada de cada parte, observando-se o contexto, o significado que o autor humano deu a suas expressões, o modo de pensar oriental. Esta inerrância, além disto, deve ser compreendida em termos de usos lingüísticos habituais. Em síntese, a Bíblia não contém erro algum, pois é impossível que o Criador inspirasse algo formalmente errado. Os originais é que gozam de tal prerrogativa. É óbvio que os textos atuais não possuem erros enquanto estão de acordo com os originais. Na transmissão através dos tempos da Palavra de Deus as corruptelas se deram em partes não essenciais, de pouca importância, sem afetar o núcleo fundamental inspirado. Quando se fala em inerrância bíblica se entende isto referente ao sentido certo e determinado que o hagiógrafo teve intenção de exprimir. Note-se que a linguagem empregada pela Bíblia é a popular, não a científica. Cumpre se ater aos gêneros literários para que se possa captar a verdade bíblica. O que caracteriza o gênero literário é o liame que existe entre a forma e o conteúdo expresso. Trata-se assim de aspecto fundamental a ser observado. O Vaticano II ensina: “Entretanto, já que Deus na Sagrada Escritura falou através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras. Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também “os gêneros literários”. Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos que são de vários modos históricos, proféticos ou poéticos, ou nos demais gêneros de expressão. Ora, é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meios dos gêneros literários então em uso”. Desta maneira se compreende melhor a Palavra de Deus. * Professor no Seminário de Mariana - MG

VISÃO GLOBAL DA BÍBLIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
O Antigo e Novo Testamento encerram a aliança que o Todo-Poderoso em sua admirável magnanimidade quis estabelecer com os homens. Primeiro com Moisés no Sinai e depois com Cristo, o qual no Gólgota selou, definitivamente, o pacto entre a divindade e a humanidade. Todos os quarenta e seis livros que compõem as Sagradas Escrituras giram em torno do mistério da Redenção humana.Apesar das partes da Bíblia serem escritas em várias línguas, por inúmeros autores e em contextos e lugares diversos, apresentando vários gêneros literários, nota-se uma impressionante unidade em toda a obra. Isto ocorre por ter ela um único autor principal e um mesmo objeto comum. A antiga aliança preparou a vinda do Messias; a nova aliança patenteia este Messias, suas obras e sua doutrina. Observa Paul Claudel que “o Antigo Testamento é incompreensível sem o Novo, que vem tudo preencher, justificar e explicar”. A revelação divina foi feita progressivamente. Adite-se a explicação de Richard France lembrando que enquanto se procura descobrir a autoridade de Jesus por Ele se é conduzido a descobrir a autoridade da Bíblia: “Não podemos atingir uma sem a outra. Sem dúvida, Jesus revelou Deus no homem de um modo que a letra do Antigo Testamento jamais teria podido fazer”. Adite-se que Cristo se referiu inúmeras vezes às Escrituras, estando sua doutrina enraizada nos ensinamentos vétero-testamentários, como se pode verificar a cada passo dos Evangelhos. É que o Antigo Testamento contém a Palavra Divina que Ele veio confirmar, esclarecer, completar e cumprir, realizando a obra salvífica por Ele preparada. O que confere às Escrituras um caráter sagrado é a inspiração divina. Desta é que vem a autoridade do Livro Santo. O papa Leão XIII na sua Encíclica Providentissimus Deus sobre o Estudo da Sagrada Escritura cita o Concílio Vaticano I: “Os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, em todas as partes, tais como são enumeradas pelo decreto do mesmo Concílio de Trento, e tais como estão contidos na antiga edição vulgata em latim, devem ser considerados como sagrados e canônicos. Tem-nos a Igreja por sagrados e canônicos não porque, redigidos só pela ciência humana, foram em seguida aprovados pela autoridade da dita Igreja; não porque só encerram a verdade sem erro; mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, a Deus têm por autor”. (Sess. III, c. II, de revel.). A Bíblia mostra este Deus agindo na história. Eis por que a Constituição Dogmática Dei Verbum do Concílio Vaticano II assevera que o plano de revelação divina “se concretiza através de acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras”. É que “a história faz parte do testamento de fé da Bíblia”. Como, porém, o objetivo bíblico é religioso, ou seja, salvífico e cristológico, ela não apresenta um tratado histórico no sentido moderno, cientifico do termo. A atuação divina é o primordial para o autor sagrado, o resto é secundário e só serve de pano de fundo para a mensagem a ser transmitida. Não obstante isto, historiadores, através de hodiernas pesquisas científicas, têm confirmado eventos narrados pela Bíblia, que, deste modo, se torna, por outra, valiosíssima fonte histórica. Observa com razão Diego Arenhoevel que “o fato de acontecimentos históricos estarem integrados na mensagem bíblica não implica absolutamente em que todos os minuciosos registros de um sem número de pormenores que ocupam páginas inteiras do Antigo Testamento foram elevados à categoria de verdade da fé”. A propósito nota Kenneth Howkins que “o mais importante não é saber se determinado fato aconteceu ou não, e sim saber o que ele significa”7. A divisão da Bíblia em capítulos numerados foi feita por Estêvão Langton, professor em Paris e mais tarde Arcebispo de Canterbury, falecido em 1228. A divisão em versículos é mais recente ainda. O dominicano Santos Pagnino em 1528 iniciou o trabalho didático-prático desta subdivisão. Roberto Etienne, redator parisiense, a empregou na margem de sua edição grega do Novo Testamento em 1551 e de outras publicações dos Livros Sagrados. Teodoro de Beza a passou para o texto em 1565. Tal maneira de proceder facilitou as citações e acabou se tornando universal. Cumpre ler e estudar a Bíblia, porque, como lembra Tanquerey, ela é para nós “a palavra de Deus, uma carta escrita para nós pelo nosso Pai do céu, a comunicar-nos o seu pensamento e os seus desígnio sobre nós”. Cumpre então apreender as tocantes mensagens deste manancial de sabedoria sobrenatural, nutrimento da vida espiritual. *Professor no Seminário de Mariana - MG





OS POBRES E A ORAÇÃO EM SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Os pobres têm um lugar privilegiado no texto do Evangelho de São Lucas.
A parábola de Lázaro e do mau rico é expressiva (16,19-31). Este endeusa seu bem-estar, enquanto que ao pobre nem é dado apanhar as migalhas que são lançadas fora da mesa. O Papa Bento XVI no seu extraordinário livro intitulado “Jesus de Nazaré” mostra que “esta parábola, à medida que nos desperta, é ao mesmo tempo um apelo para o amor e para a responsabilidade que precisamos agora ter para com os nossos irmãos pobres, quer no plano da sociedade mundial quer na pequenez do nosso cotidiano”.
Multiplicam-se no Evangelho de São Lucas as passagens em que a pobreza de espírito, o desapego dos bens terrenos que é sabiamente inculcado por Cristo. Encontram-se em Lucas passagens como estas: “Como é difícil para os que possuem riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (18,24-25)... “não andeis muito preocupados em relação à vossa vida, com o que tereis para comer, nem relação ao vosso corpo com o que tereis para vestir” (12,22 .) “Vendei o que possuís e dai-o de esmola. Fazei para vós bolsas que não se gastem, um tesouro nos céus que não se esvaziará, do qual o ladrão não aproxima e a traça nada destrói. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração” (12,34). É deste modo que os batizados se tornam uma verdadeira comunidade dos pobres de Deus, na qual não deve haver ricos de coração vazio, nem pobres que nada possuem mas que podem estar contaminados pela cobiça da posse das coisas terrenas. Alerta Bento XVI, na obra acima referida, que a verdadeira pobreza evangélica “não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus”.
No Evangelho de Lucas a oração tem realce especial. Jesus entregue à prece é um dos destaques feitos por este evangelista. Ele apresenta as qualidades da prece autêntica: humildade, tão bem traçada na parábola do fariseu e do publicano (18,9-14); a perseverança, é inculcada na parábola do amigo importuno (11,5-3), da viúva e do juiz iníquo supra referidas. Joseph Ratzinger lembra que “é muito característico para São Lucas ter atribuído à oração de Jesus um lugar muito especial no seu Evangelho. A ação de Jesus em geral surge da sua oração, é suportada por ela. Assim, acontecimentos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se desvela o seu mistério, aparecem como acontecimentos que brotam da oração. A confissão de Pedro a respeito de Jesus como o Santo de Deus relaciona-se ao encontro com o Jesus orante (Lc 9, 19 ss); a transfiguração de Jesus é um acontecimento que surge da oração (Lc 9,28ss). Por isto, é significativo que São Lucas coloque o Pai Nosso em relação com a própria oração de Jesus. Ele nos torna assim participantes na sua própria oração. Ele nos introduz no diálogo interior do amor trinitário, puxa, por assim dizer, para cima as nossas necessidades humanas até o coração de Deus”.
Eis aí aspectos fundamentais da teologia de São Lucas a deixar para os discípulos de Cristo lições sublimes, legadas pelo Mestre divino.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

O EVANGELHO DE SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Lucas, convertido do paganismo, não pertenceu ao grupo dos discípulos imediatos de Cristo, foi o autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos. São Paulo mostra sua nobre profissão ao se dirigir assim aos colossenses: “Lucas, o querido médico, vos saúda e Demas também” (Cl 4,14). Ele acompanhou Paulo a Filipos, “cidade do primeiro distrito da Macedônia e colônia romana” (At 16,12) e aí ficou. Seis anos mais tarde ele se junta de novo a seu mestre quando este passa de novo em Filipos, para levar a Jerusalém o dinheiro recolhido na Macedônia (At 20,5-6). Fez com Paulo uma viagem à capital do Império: “Quando chegamos a Roma, Paulo recebeu licença para morar em domicílio próprio com soldado para o guardar” (At 28,16). No segundo cativeiro de São Paulo em Roma ele lá estava pois o Apóstolo escreveu a Timóteo: “Somente Lucas está comigo. Procura Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério (2 Tm 4,11). Na carta a Filémon, escrita em Roma, lemos: “Epafras que partilha comigo a prisão por Cristo, e os meus colaboradores Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, te mandam muitas lembranças” (v. 23-24). São Lucas usou diversas fontes para escrever o seu Evangelho. Ele mesmo assevera: “Muitos se propuseram escrever uma narração dos fatos que aconteceram entre nós, como nos transmitiram os que deles foram testemunhas oculares desde o começo e, depois, se tornaram ministros da Palavra” (1,1-2). Ele compulsou documentos escritos como o Evangelho de São Mateus e São Marcos, e escutou pessoas, entre as quais os apóstolos. Utilizou-se destes fatos com maestria e reescreveu o que leu e ouviu com suma fidedignidade e raro talento. No que tange aos dois primeiros capítulos de São Lucas, Ortensio da Spinetoli observa que “ainda que apresente traços originais, não habituais numa obra histórica, o Evangelho da infância (Lc 1-2) não tem as características de uma composição lendária. Sem dúvida, quem não aceita o sobrenatural, considera o conjunto das narrativas de Lucas 1-2 como míticas. Todavia, tal prevenção preconcebida não pode ser levada em séria consideração. Por isto a historicidade de Lucas 1-2 não pode ser seriamente posta em dúvida. Do ponto de vista puramente literário, as narrações não têm o colorido e as características de uma obra de ficção. Os protagonistas reaparecem em outros escritos de historicidade não dúbia (os Evangelhos) e se movem em uma moldura topográfica suficientemente garantida”. Sobre estes episódios estas observações de Estêvão Bettencourt: “A infância de Jesus em São Lucas é narrada de maneira intencionalmente artificiosa. De um lado, refere-se fatos reais, pois São Lucas logo no prólogo de seu Evangelho faz questão de se apresentar como historiador criterioso e fidedigno. Verifica-se também que o estilo de Lucas 1-2 difere muito das lendas de heróis pagãos, assim como dos das estórias dos Evangelhos apócrifos; nestes o maravilhoso é desarrazoado ou despropositado, chegando às raias do ridículo [...] De outro lado, observa-se que as narrativas da infância de Jesus em Lucas 1-2 fazem eco a numerosas profecias do Antigo Testamento. Dir-se-ia que o Evangelista intencionou apresentar tais episódios como sendo o cumprimento de vaticínios das Escrituras de Israel, principalmente as profecias de Dn 9 e Ml 3 inspiram a maneira como São Lucas dispôs e apresentou os episódios da infância de Jesus”. Com dedicatória a Teófilo, ele escreveu este Evangelho para os gentios, provavelmente antes do ano 62. Observa-se Hemelsoet que “na antigüidade livros eram dedicados a alguma pessoa importante a fim de que cuidasse da divulgação. Lucas dedica seu escrito a Teófilo (At 1,1), mas sem dúvida o texto é destinado a um público mais vasto. Lucas dirige-se propriamente às comunidades gentio-cristãs”. Não se sabe onde foi redigido este Evangelho. Além do prólogo, há quatro partes: a infância de Cristo (1,5-2,52); o ministério de Jesus na Galiléia (3,1-9,50); a viagem a Jerusalém (9,51-19,28); a Paixão e Ressurreição (19,23-24,53). São Lucas descreve a vida de Cristo que, ao rumar para Jerusalém, faz isto com a consciência de quem só entra naquela cidade para realizar o ato redentor da humanidade decaída. Escreve ele com raro talento literário. Os biblistas unanimemente exaltam a maneira elegante com que São Lucas se exprime em grego, a ponto de Renan ter declarado que o terceiro Evangelho é “o mais belo livro que existe”. Diz Renié que “se Marcos é inigualável pela vivacidade de suas cenas, Lucas o suplanta pela fineza da observação, pela harmonia e equilíbrio da composição. Releiam-se as parábolas encantadoras, sob o simples ponto de vista literário, do bom samaritano, do filho pródigo, ou da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús”. Tudo isto é um convite a que se estudem estas pulcras páginas, cuja doutrina teológica é, por outra, tão sublime e profunda. * Professor no Seminário de Mariana - MG


TEOLOGIA DE SÃO LUCAS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Se de um lado tantos são aqueles que exaltam a beleza literária do Evangelho de São Lucas, não poucos são os que ressaltam a grandeza teológica deste texto.
Lucas tem em vista apresentar um escrito coeso, fazendo trilhar a solidez doutrinária daquilo que Cristo ensinou.
A vida, paixão, morte e ressurreição de Cristo são apresentadas de uma forma orgânica, numa concatenação admirável, culminando com a ascensão. Este é o fecho do Evangelho, no qual Lucas mostra que Jesus conduziu os apóstolos “até perto de Betânia e, impondo as mãos sobre eles, os abençoou. E, enquanto os abençoava, foi se afastando deles, e subindo para o céu. Eles se prostraram diante de Jesus e, depois, voltaram cheios de alegria a Jerusalém e permaneciam continuamente no Templo bendizendo a Deus” (24,50-51).
Admirável o universalismo deste Evangelho: A mensagem de Cristo se dirige a todas as gentes.
Eis alguns lances desta visão universal lucana: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens por ele amados” (1,14). Ele registra as palavras de Simeão no templo, o qual se refere a Cristo, “uma luz para iluminar as nações” (2,32). O Redentor ressuscitado abre o espírito de seus epígonos e lhes diz: “Estava escrito que Cristo iria sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados seria proclamada às nações a começar de Jerusalém” (24,47). Relata ainda o que Cristo disse a um gentio, o centurião do qual ele cura o servo: “Eu vos garanto: nem mesmo em Israel achei tamanha fé” (7,9). A parábola do bom samaritano é por ele narrada muito a propósito (10,30-37). Comenta Harrington: “Com certeza Jesus achou que através dessa história pungente e sugestiva, tirada do mundo cotidiano de seu povo, poderia inculcar-lhe a verdade de que todas as barreiras, todas as distinções de pessoas caem perante as exigências absolutas do amor”.
Mackenzie observa que “uma das provas do universalismo de Lucas reside na importância que ele dá às mulheres: em Lucas aparecem mais mulheres do que nos outros três evangelhos”.
No mundo helenista, a posição social e legal da mulher era melhor do que no judaísmo, e Lucas desejava mostrar claramente que o evangelho não assumia a atitude judaica em relação à mulher”. De fato, através de seu Evangelho deparamos, além da figura excelsa da deípara Maria, Isabel, mãe de João Batista (1,39-58); a profetiza Ana (2,36-38); a viúva de Naim (7,11-17); a pecadora arrependida (7,36-58); as mulheres da Galiléia que acompanhavam a Jesus no ministério público, como Maria Madalena, Joana, Suzana (8,2 s; 23,55 s); Marta e Maria (10,38-42). Foi uma mulher que proclamou bem-aventurada a Mãe de Jesus (11,27 s). Ele registrou ainda a cena das mulheres de Jerusalém que saíam ao encontro de Jesus a caminho do Gólgota (23,27-31). Nas parábolas da dracma perdida (15,8-10) e do juiz iníquo (15,1-8), duas mulheres estão em cena.
Adite-se que Lucas é o evangelista da misericórdia. Duas parábolas sobretudo falam da generosidade divina; a do filho pródigo e a da ovelha perdida (cap. 15).
Em ambas aparece claramente a bondade divina para com os pecadores. Imensa é sua compaixão.
* Professor no Seminário de Mariana - MG

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