Monday, October 08, 2007
A beleza da gratidão
A BELEZA DA GRATIDÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Por ocasião da cura de dez leprosos (Lc 17,11-19) Cristo patenteou a grandeza da virtude da gratidão. Com efeito, Ele sempre pronto a desculpar as falhas humanas, no entanto, quando um dos miraculados, que por sinal era samaritano, veio agradecer tão grande benefício, a indagação de Jesus foi uma recriminação aos ingratos: “Não foram limpos os dez? Onde estão, pois, os outros nove?” (v. 17) Ele mesmo deu o exemplo, rendendo, enquanto homem, graças ao Pai: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado” (Lc 10,21). A gratidão é uma linguagem do coração e é um dos mais belos atributos das almas nobres. É uma qualidade de reconhecimento pela bondade e delicadeza recebidas. Ela conduz à reverência e à dedicação para com o benfeitor. Faz expandir as vibrações luminosas de um espírito elevado que sabe valorizar os dons recebidos. É um ornamento precioso do cristão, dado que expande o esplendor de uma admirável nobreza interior. Torna-se, além disto, uma chave aurífera que abre a porta de outros benefícios de Deus e dos homens. Momentos de gratidão purificam o coração e dispõem o ser racional a novas atitudes dignas de um discípulo do Mestre divino. Perfume celestial que espiritualiza, uma vez que flui ao ritmo do amor, o qual valoriza as benesses recebidas, modulando a vida do cristão, porque inclui inúmeras outras qualidades, como a humildade, a urbanidade, a ternura, a benevolência. Daí a tendência a se estar atento às manifestações da dileção divina e humana, uma valiosa espécie de homeóstase espiritual sem fronteiras. Abre os olhos do ser pensante que passa a perceber as maravilhas que estão em seu derredor e aparta as lamúrias nas quais muitos mergulham sua existência. Ser grato é fazer uma experiência salutar de vida, deixando-se envolver nas belezas que povoam o mundo, louvando ao Senhor de tudo e uma demonstração de sensibilidade perante os favores granjeados. Mesmo na tribulação permitida pelo Ser Supremo a gratidão leva ao agradecimento pelas lições que o sofrimento proporciona e, até, a um sentimento de ação de graças perante algumas atitudes bruscas do próximo, dado que se tornam ocasião de gestos de perdão, os quais enriquecem espiritualmente e dignificam quem é epígono de Cristo. É a sublime energia que a gratidão confere a quem a cultiva. Viver em tudo esta virtude e transcender as tendências malévolas que conduzem à soberba e à dureza do espírito. No que tange a Deus é uma expressão basilar da criatura que, num frêmito de alegria e de adoração, descobre algo de Deus, da sua majestade e sua glória nas maravilhas que espalhou pelo universo, lhe rendendo louvor por tudo que dele se recebe a cada instante. São Paulo diagnosticou com precisão o grande pecado dos pagãos, ou seja, o “não terem dado a Deus nem glória nem ação de graças” (Rm 1,21). Os salmos oferecem meio precioso para cantar hinos gratulatórios ao Onipotente. Cada benefício deste Pai bondoso deve ser sentido como momentos especiais no decurso de cada instante. É mister imitar Maria, a Mãe de Jesus, que assim se expressou: “Minha alma engrandece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46). Aí está o valor da Missa dominical, quando, após uma semana de tantas mercês divinas, em comunidade, participando da Eucaristia, todos juntos agradecem ao Todo-Poderoso e isto é uma garantia de benefícios maiores ainda para mais uma nova jornada semanal. As primeiras comunidades cristãs entenderam isto perfeitamente, concitadas pelos apóstolos. Lemos na Carta aos Efésios: “Entretei-vos uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor com todo o vosso coração, dando graças continuamente por tudo, em nome do Senhor Jesus Cristo, ao Pai e Deus” (Ef 5,19). Este agradecimento se prolongará por toda a eternidade, quando os eleitos proclamarão: “És digno, ó Senhor e nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas e pela tua vontade já possuíam um ser quando foram criadas” (Ap 4,11). Quem é grato a Deus o será também com os demais benfeitores que são canais dos bens celestes. Esta virtude enobrece o cristão e já Sêneca proclamava que “só os espíritos bem formados são capazes de cultivar a gratidão”. Professor no Seminário de Mariana-MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Por ocasião da cura de dez leprosos (Lc 17,11-19) Cristo patenteou a grandeza da virtude da gratidão. Com efeito, Ele sempre pronto a desculpar as falhas humanas, no entanto, quando um dos miraculados, que por sinal era samaritano, veio agradecer tão grande benefício, a indagação de Jesus foi uma recriminação aos ingratos: “Não foram limpos os dez? Onde estão, pois, os outros nove?” (v. 17) Ele mesmo deu o exemplo, rendendo, enquanto homem, graças ao Pai: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado” (Lc 10,21). A gratidão é uma linguagem do coração e é um dos mais belos atributos das almas nobres. É uma qualidade de reconhecimento pela bondade e delicadeza recebidas. Ela conduz à reverência e à dedicação para com o benfeitor. Faz expandir as vibrações luminosas de um espírito elevado que sabe valorizar os dons recebidos. É um ornamento precioso do cristão, dado que expande o esplendor de uma admirável nobreza interior. Torna-se, além disto, uma chave aurífera que abre a porta de outros benefícios de Deus e dos homens. Momentos de gratidão purificam o coração e dispõem o ser racional a novas atitudes dignas de um discípulo do Mestre divino. Perfume celestial que espiritualiza, uma vez que flui ao ritmo do amor, o qual valoriza as benesses recebidas, modulando a vida do cristão, porque inclui inúmeras outras qualidades, como a humildade, a urbanidade, a ternura, a benevolência. Daí a tendência a se estar atento às manifestações da dileção divina e humana, uma valiosa espécie de homeóstase espiritual sem fronteiras. Abre os olhos do ser pensante que passa a perceber as maravilhas que estão em seu derredor e aparta as lamúrias nas quais muitos mergulham sua existência. Ser grato é fazer uma experiência salutar de vida, deixando-se envolver nas belezas que povoam o mundo, louvando ao Senhor de tudo e uma demonstração de sensibilidade perante os favores granjeados. Mesmo na tribulação permitida pelo Ser Supremo a gratidão leva ao agradecimento pelas lições que o sofrimento proporciona e, até, a um sentimento de ação de graças perante algumas atitudes bruscas do próximo, dado que se tornam ocasião de gestos de perdão, os quais enriquecem espiritualmente e dignificam quem é epígono de Cristo. É a sublime energia que a gratidão confere a quem a cultiva. Viver em tudo esta virtude e transcender as tendências malévolas que conduzem à soberba e à dureza do espírito. No que tange a Deus é uma expressão basilar da criatura que, num frêmito de alegria e de adoração, descobre algo de Deus, da sua majestade e sua glória nas maravilhas que espalhou pelo universo, lhe rendendo louvor por tudo que dele se recebe a cada instante. São Paulo diagnosticou com precisão o grande pecado dos pagãos, ou seja, o “não terem dado a Deus nem glória nem ação de graças” (Rm 1,21). Os salmos oferecem meio precioso para cantar hinos gratulatórios ao Onipotente. Cada benefício deste Pai bondoso deve ser sentido como momentos especiais no decurso de cada instante. É mister imitar Maria, a Mãe de Jesus, que assim se expressou: “Minha alma engrandece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46). Aí está o valor da Missa dominical, quando, após uma semana de tantas mercês divinas, em comunidade, participando da Eucaristia, todos juntos agradecem ao Todo-Poderoso e isto é uma garantia de benefícios maiores ainda para mais uma nova jornada semanal. As primeiras comunidades cristãs entenderam isto perfeitamente, concitadas pelos apóstolos. Lemos na Carta aos Efésios: “Entretei-vos uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor com todo o vosso coração, dando graças continuamente por tudo, em nome do Senhor Jesus Cristo, ao Pai e Deus” (Ef 5,19). Este agradecimento se prolongará por toda a eternidade, quando os eleitos proclamarão: “És digno, ó Senhor e nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas e pela tua vontade já possuíam um ser quando foram criadas” (Ap 4,11). Quem é grato a Deus o será também com os demais benfeitores que são canais dos bens celestes. Esta virtude enobrece o cristão e já Sêneca proclamava que “só os espíritos bem formados são capazes de cultivar a gratidão”. Professor no Seminário de Mariana-MG
Tuesday, October 02, 2007
Teologia de São João
TEOLOGIA DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
São João deixou claro o seu intento ao escrever o Evangelho: “Jesus fez ainda, na presença dos discípulos, muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creais que Jesus é Cristo, o filho de Deus, e, acreditando, tenhais vida no meu nome” (20,30-31).
Empenhou-se então em alimentar a fé na pessoa de Jesus, pelo qual, unicamente, se obtém a salvação. Isto por ser Ele o Messias, o Filho do Eterno. Ele é o Redentor, mas, frisa São João, cumpre aceitá-lo, aderir a Ele, entregar-se a Ele. Trata-se de um engajamento total. Daí a vida unida a Cristo, a videira da qual o batizado é o ramo (15,1-8). O cristão é, de fato, outro Cristo.
João salienta as palavras do Salvador: “Quem permanece em mim e eu nele, produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer” (15,5). Quem está com Ele vive na luz, está de posse da verdade, pois Jesus falou: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (8,31). Os sinais induzem à crença no poder soteriológico de Cristo. Donde o ato de fé de Marta: “Sim, Senhor, creio que és o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (11,27).
O epígono do Salvador participa de Sua vitória, pois o Mestre padeceu, triunfou gloriosamente e pôde afirmar categoricamente: “Eu sou a ressurreição e a vida. Todo aquele que crê em mim, mesmo se morrer viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá para sempre. (11,25).
O Espírito Santo que Cristo envia do Pai, “ele o Espírito da verdade” (16,13), é que conduz o crente à verdade completa. Ele, o Paráclito, é que leva o seguidor de Jesus a compreendê-lo plenamente.
O amor fraterno é amostra da fidelidade à fé e da presença do Espírito Santo. Eis por que João insiste tanto na caridade da qual resulta a unidade dos fiéis entre si e com Cristo, condição para a atuação do Espírito de Amor.
Especial realce dá João ao Batismo (3,1-21), enfatizando o que Jesus falou: “Se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus” (v. 5).
Todo o capítulo sexto é dedicado à Eucaristia, estando nesta parte o que Cristo asseverou: “O pão que vou dar é a minha carne, que eu ofereço para a vida do mundo (v. 51). A Penitência fulge nestas palavras do Salvador: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem retiverdes, serão retidos” (20,22-23).
A escatologia joanina tem uma peculiaridade, pois ele estende ao presente a realidade escatológica: “Este é o momento em que este mundo vai ser julgado. Este é o momento em que o príncipe deste mundo vai ser julgado” (12,31).
São João fixa, deste modo, verdades basilares que elevam o crente até o oceano infinito do amor que é o Deus, fonte de toda a santidade.
Este Evangelho é uma escola de profunda espiritualidade.
Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
São João deixou claro o seu intento ao escrever o Evangelho: “Jesus fez ainda, na presença dos discípulos, muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creais que Jesus é Cristo, o filho de Deus, e, acreditando, tenhais vida no meu nome” (20,30-31).
Empenhou-se então em alimentar a fé na pessoa de Jesus, pelo qual, unicamente, se obtém a salvação. Isto por ser Ele o Messias, o Filho do Eterno. Ele é o Redentor, mas, frisa São João, cumpre aceitá-lo, aderir a Ele, entregar-se a Ele. Trata-se de um engajamento total. Daí a vida unida a Cristo, a videira da qual o batizado é o ramo (15,1-8). O cristão é, de fato, outro Cristo.
João salienta as palavras do Salvador: “Quem permanece em mim e eu nele, produz muito fruto, porque, sem mim, nada podeis fazer” (15,5). Quem está com Ele vive na luz, está de posse da verdade, pois Jesus falou: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (8,31). Os sinais induzem à crença no poder soteriológico de Cristo. Donde o ato de fé de Marta: “Sim, Senhor, creio que és o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (11,27).
O epígono do Salvador participa de Sua vitória, pois o Mestre padeceu, triunfou gloriosamente e pôde afirmar categoricamente: “Eu sou a ressurreição e a vida. Todo aquele que crê em mim, mesmo se morrer viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá para sempre. (11,25).
O Espírito Santo que Cristo envia do Pai, “ele o Espírito da verdade” (16,13), é que conduz o crente à verdade completa. Ele, o Paráclito, é que leva o seguidor de Jesus a compreendê-lo plenamente.
O amor fraterno é amostra da fidelidade à fé e da presença do Espírito Santo. Eis por que João insiste tanto na caridade da qual resulta a unidade dos fiéis entre si e com Cristo, condição para a atuação do Espírito de Amor.
Especial realce dá João ao Batismo (3,1-21), enfatizando o que Jesus falou: “Se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no reino de Deus” (v. 5).
Todo o capítulo sexto é dedicado à Eucaristia, estando nesta parte o que Cristo asseverou: “O pão que vou dar é a minha carne, que eu ofereço para a vida do mundo (v. 51). A Penitência fulge nestas palavras do Salvador: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem retiverdes, serão retidos” (20,22-23).
A escatologia joanina tem uma peculiaridade, pois ele estende ao presente a realidade escatológica: “Este é o momento em que este mundo vai ser julgado. Este é o momento em que o príncipe deste mundo vai ser julgado” (12,31).
São João fixa, deste modo, verdades basilares que elevam o crente até o oceano infinito do amor que é o Deus, fonte de toda a santidade.
Este Evangelho é uma escola de profunda espiritualidade.
Professor no Seminário de Mariana - MG
O evagelho de São João
O EVANGELHO DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
João filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago, o Maior, era pescador (Lc 5,10). João e Tiago eram sócios de Pedro. Esta tríade presenciou grandes eventos da vida de Cristo, como a Transfiguração no monte Tabor (Mt 17,1), a agonia no Horto das Oliveiras (Mt 26,37). Com Pedro, João foi encarregado por Jesus de preparar a ceia pascal (Lc 22,8). Lemos nos Atos que, após Pentecostes, Pedro e João ainda estavam falando ao povo, quando apareceram os sacerdotes e o comandante do Templo ... Eles os agarraram e deixaram presos até o dia seguinte, pois já era tarde” (4,1). A pregação do Evangelho na Samaria se liga também a João e a Pedro: “Quando os apóstolos souberam em Jerusalém que a Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e João para lá” (At 15,2 e Gl 2,9). Diz São Paulo que reconhecendo a graça que lhe foi concedida, Tiago, Cefas e João, considerados como as colunas, deram o aperto de mão a ele e a Barnabé, em sinal de comunhão (Gl 2,9). Sobre os últimos anos de São João, Renié escreve: “São Jerônimo nos assegura, seguindo Tertuliano, que São João foi conduzido a Roma por ordem de Domiciano e imerso numa cadeira de óleo fervendo, da qual saiu ileso. O imperador o exilou em Patmos, pequena ilha no mar Egeu, onde o discípulo amado escreveu o seu Apocalipse. Depois da morte do tirano, João voltou a Éfeso e aí organizou as igrejas da região. João morreu em avançada idade sob o reinado de Trajano. Éfeso conserva ainda seu túmulo”. A autoria de João é comprovada não apenas pela tradição, mas ainda pela crítica interna do texto. Esta patenteia que quem o redigiu era um judeu, pois abundam os semitismos. Adite-se que detalhes da vida religiosa e social judia aparecem a cada passo como, por exemplo, a aversão que havia contra os samaritanos (4,9 s). Além disto, pela leitura deste Evangelho logo se percebe que se trata de uma testemunha ocular. As peculiaridades das circunstâncias de certos eventos não apenas correspondem à realidade histórica, como ostentam um observador atento presente aos mesmos. Trata-se, pois, de um apóstolo e este é João, o qual foi o discípulo que durante mais tempo viveu e pôde fazer uma admirável análise teológica dos ditos e feitos de Senhor, refletindo profundamente sobre tudo que viu e ouviu. São João escreveu no fim do primeiro século, provavelmente em Éfeso, para cristãos gentios, com o fim de firmar a fé em Jesus, o Cristo, Filho de Deus, única salvação para a humanidade (20,31). Após o prólogo (1,1-18) no qual o Logos divino é objeto de belíssimas considerações, vem o corpo da obra. Neste se percebem duas grandes divisões: a vida pública de Jesus (1,19-15,20) e Sua trajetória de sofrimentos e de glórias (13,1-21), seguindo-se a conclusão (21,24-25). Muito se tem falado do vocabulário restrito, da falta de seqüência nas partes do texto, do estilo não tão apurado de São João. Entretanto também com relação a ele se dá o que, com razão, declara o provérbio: “O amor torna eloqüente aqueles que ele anima”. Em São João palpita um extremado amor a Cristo. Aliás ele era o discípulo amado (13,23). Repleto de entusiasmo, ele sentia de tal modo Deus dentro de si que borbulha em suas frases a dileção mais vibrante. É dele esta pulcra sentença: “Deus é amor e aquele que permanece no amor está em Deus (1 Jo 2,17). Este é, de fato, o Evangelho do amor. É esta dileção extraordinária que faz da dramaticidade, imprimida por este escritor a sua narrativa, o encanto que acaba prendendo o leitor. De rara beleza a figura do Bom Pastor que João realça com maestria (10,1-22). A ressurreição de Lázaro revela toda a ternura de Cristo: “Os judeus comentavam: “Vede como ele o amava” (11,36). Como secretário deste amor do Coração de Cristo, João estava na última ceia “reclinado bem perto de Jesus” (13,23). Registrou para a posteridade o que se passava com o Mestre naquela despedida: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1). Clássica esta passagem na qual o evangelista registrou o grande preceito do Filho de Deus: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos tenho amado, vós deveis também amar uns aos outros. É pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos” (13,34-35). Esta diretriz é, enfaticamente, repetida no capítulo quinze (vers. 12-17). Eis por que a doutrina joanina é tão apta a cativar as mentes. Por tudo isto, este é um dos textos bíblicos mais lidos em todos os tempos, atualíssimo para este início de milênio. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
João filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago, o Maior, era pescador (Lc 5,10). João e Tiago eram sócios de Pedro. Esta tríade presenciou grandes eventos da vida de Cristo, como a Transfiguração no monte Tabor (Mt 17,1), a agonia no Horto das Oliveiras (Mt 26,37). Com Pedro, João foi encarregado por Jesus de preparar a ceia pascal (Lc 22,8). Lemos nos Atos que, após Pentecostes, Pedro e João ainda estavam falando ao povo, quando apareceram os sacerdotes e o comandante do Templo ... Eles os agarraram e deixaram presos até o dia seguinte, pois já era tarde” (4,1). A pregação do Evangelho na Samaria se liga também a João e a Pedro: “Quando os apóstolos souberam em Jerusalém que a Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e João para lá” (At 15,2 e Gl 2,9). Diz São Paulo que reconhecendo a graça que lhe foi concedida, Tiago, Cefas e João, considerados como as colunas, deram o aperto de mão a ele e a Barnabé, em sinal de comunhão (Gl 2,9). Sobre os últimos anos de São João, Renié escreve: “São Jerônimo nos assegura, seguindo Tertuliano, que São João foi conduzido a Roma por ordem de Domiciano e imerso numa cadeira de óleo fervendo, da qual saiu ileso. O imperador o exilou em Patmos, pequena ilha no mar Egeu, onde o discípulo amado escreveu o seu Apocalipse. Depois da morte do tirano, João voltou a Éfeso e aí organizou as igrejas da região. João morreu em avançada idade sob o reinado de Trajano. Éfeso conserva ainda seu túmulo”. A autoria de João é comprovada não apenas pela tradição, mas ainda pela crítica interna do texto. Esta patenteia que quem o redigiu era um judeu, pois abundam os semitismos. Adite-se que detalhes da vida religiosa e social judia aparecem a cada passo como, por exemplo, a aversão que havia contra os samaritanos (4,9 s). Além disto, pela leitura deste Evangelho logo se percebe que se trata de uma testemunha ocular. As peculiaridades das circunstâncias de certos eventos não apenas correspondem à realidade histórica, como ostentam um observador atento presente aos mesmos. Trata-se, pois, de um apóstolo e este é João, o qual foi o discípulo que durante mais tempo viveu e pôde fazer uma admirável análise teológica dos ditos e feitos de Senhor, refletindo profundamente sobre tudo que viu e ouviu. São João escreveu no fim do primeiro século, provavelmente em Éfeso, para cristãos gentios, com o fim de firmar a fé em Jesus, o Cristo, Filho de Deus, única salvação para a humanidade (20,31). Após o prólogo (1,1-18) no qual o Logos divino é objeto de belíssimas considerações, vem o corpo da obra. Neste se percebem duas grandes divisões: a vida pública de Jesus (1,19-15,20) e Sua trajetória de sofrimentos e de glórias (13,1-21), seguindo-se a conclusão (21,24-25). Muito se tem falado do vocabulário restrito, da falta de seqüência nas partes do texto, do estilo não tão apurado de São João. Entretanto também com relação a ele se dá o que, com razão, declara o provérbio: “O amor torna eloqüente aqueles que ele anima”. Em São João palpita um extremado amor a Cristo. Aliás ele era o discípulo amado (13,23). Repleto de entusiasmo, ele sentia de tal modo Deus dentro de si que borbulha em suas frases a dileção mais vibrante. É dele esta pulcra sentença: “Deus é amor e aquele que permanece no amor está em Deus (1 Jo 2,17). Este é, de fato, o Evangelho do amor. É esta dileção extraordinária que faz da dramaticidade, imprimida por este escritor a sua narrativa, o encanto que acaba prendendo o leitor. De rara beleza a figura do Bom Pastor que João realça com maestria (10,1-22). A ressurreição de Lázaro revela toda a ternura de Cristo: “Os judeus comentavam: “Vede como ele o amava” (11,36). Como secretário deste amor do Coração de Cristo, João estava na última ceia “reclinado bem perto de Jesus” (13,23). Registrou para a posteridade o que se passava com o Mestre naquela despedida: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1). Clássica esta passagem na qual o evangelista registrou o grande preceito do Filho de Deus: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos tenho amado, vós deveis também amar uns aos outros. É pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos” (13,34-35). Esta diretriz é, enfaticamente, repetida no capítulo quinze (vers. 12-17). Eis por que a doutrina joanina é tão apta a cativar as mentes. Por tudo isto, este é um dos textos bíblicos mais lidos em todos os tempos, atualíssimo para este início de milênio. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Sedução do Poder, Ilustre Médico e Rligião e Pátria
A SEDUÇÃO DO PODER
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quem está a par das mordomias que um Presidente do Senado possui, além do alto poder de influências múltiplas em todos os setores da vida pública e privada, compreende melhor o apego do atual Senador que ocupa esta presidência. Repete ele insistentemente o refrão da música popular: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”! Num momento em que o Senado Federal está sendo tão questionado é consolador a lembrança de um Afonso Pena, Venceslau Brás, Arthur da Silva Bernardes, Milton Campos, entre tantos outros políticos que honraram a história republicana. Rui Barbosa advertiu que o “poder político é, de sua natureza, absorvente e invasivo”. Isto talvez explique a sua sedução. Entretanto, é do mesmo notável jurista baiano esta observação: “Há extremos no mau uso do poder, em presença dos quais a indignação transborda”. Esta repulsa está vibrante no que tange ao “affaire” Renan Calheiros.
Hoje, de fato, a neutralidade no Brasil é inadmissível. A opção é clara: ou será mantido o status quo ou uma nova ordem política será instalada neste país. É preciso valentia, discernimento para decidir. Luta pela evolução da mentalidade de certos homens públicos para que se evite a revolução. O desenvolvimento real do Brasil é uma aspiração nobre e, um dia, todos esperam que a bandeira nacional seja levantada para admiração do mundo todo, pregando, nestes tempos turbulentos, o pacífico reinado das grandes virtudes cívicas e morais que fazem a grandeza de um povo, todo ele, ansioso por verdade e sinceridade.A tempestade conceitual do renanzistas confunde a opinião pública que clama por uma antropologia de consistência ética.
Toda uma estratégia de novas formas de manipulações linguísticas surge para justificar o injustificável. O Presidente do Senado vive a clamar que é inocente, não obstante tantos processos em curso. Como diz o ditado popular: “Onde a fumaça, há fogo”. Resta saber se aos partidos da oposição não se renderão a toda esta confusão, pois até os mais cultos políticos podem se deixar levar pelo roldão das deturpações semânticas que visam salvaguardar aquele que se julga o dono do Senado. Eis aí um sintoma grave de uma deformação da inteligência, levando-a a confundir apriorismos falsos com intuições verdadeiras. Tudo isto além de levar à corroção ética, conduz a um aumento de descrédito popular com a classe política. * Professor no Seminário de Mariana.
HOMENAGEM A UM NOTÁVEL MÉDICO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dia 23 de setembro Viçosa pranteou o falecimento do Dr. Carlos Raimundo Torres, sendo concorridíssima a Missa de Corpo Presente no Santuário Santa Rita, no dia seguinte, às 14 horas. Foi um dedicado galeno. A Medicina foi para ele um sacerdócio, na confortadora e verídica expressão de tantos que o conheceram nas lides de tão difícil múnus. Mitigou sofrimentos. A inúmeros restituiu a saúde. Conhecedor profundo da arte hipocrática, seus diagnósticos eram precisos. Cirurgião exímio, distinguiu-se pela dedicação a seus clientes. Diz o célebre aforismo latino: Opus divinum est, sedare dolorem - é obra divina dulcificar a dor. Quando, porém, essa atividade celestial é exercida ministrando a caridade, diuturna e silenciosamente, é o requinte da perfeição evangélica. A caridade é, no dizer do próprio Cristo, a síntese da Lei e dos Profetas. Ela condensa todas as virtudes. Leva à imolação. Vai ao tugúrio do pobre. Sobe às mansões dos ricos. Atravessa os espinheiros de todas as misérias humanas. Navega os rios dos sofrimentos alheios. Não conhece dia nem hora, pois está sempre atenta. Vaporiza lágrimas. Precata contra as ondas das tristezas. Desce ao mais profundo recôndito do coração que sofre. Oferece do muito. Oferece do pouco. Faz-se tudo para todos, para salvar a todos. Assim foi a caridade do Dr. Carlos Raimundo. Tal foi a ventura contínua deste médico caridoso, que levou a solidariedade humana a milhares de necessitados Espírito profundamente religioso. Possuía arraigada piedade. Nutria pela Religião um respeito muito grande. Fidelíssimo à Missa dominical. Em lógica conseqüência, a Mesa Eucarística era por ele assiduamente freqüentada. Fazia da assistência à Santa Missa uma de suas devoções prediletas. Nos últimos meses de vida os Ministros da Eucaristia, Alcides Braz Fernandes e Terezinha Gomige Mizubuti, lhe levavam sempre a Comunhão. Recebeu com rara fé a Unção dos Enfermos. Fora um Cursilhista dedicado, pertencendo ao Grupo São Lucas que atuou na Colônia e na Barrinha. Suas palestras eram admiradas e aplaudidas. Verídico, ainda uma vez, o ditado: Talis vita, finis ita - qual vida, tal fim. Comungou às 10 horas da manhã e às 13 horas e 30 minutos entregou a alma a Deus. Foi também um notável político tendo sido o Prefeito do Centenário, quando esteve em Viçosa o Arcebispo Dom Oscar de Oliveira que pronunciou na ocasião belíssima Oração Gratulatória, registrada em O ARQUIDIOCESANO. Cidadão benemérito de Viçosa, agraciado com a Medalha da Inconfidência Mineira, Cidadão honorário de várias cidades como Porto Firme e São Miguel do Anta, tem o seu nome no bloco cirúrgico de Ervália. Ensina a Igreja: “Para qualquer homem que reflete, apresentada com argumentos sólidos, a fé dá-lhe uma resposta à sua angústia sobre a vida futura. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de comunicar-se em Cristo com os irmãos queridos já arrebatados pela morte, trazendo a esperança de que eles tenham alcançado a verdadeira vida junto de Deus”. Essa doutrina tão profunda conforta e alivia. É lenitivo e bálsamo, para sua digna Esposa, Marisa Cordeiro Torres, seus três filhos e três netos, para todos os seus parentes e amigos. A morte é, de fato, a lúcida aurora da eterna vida. Para os justos, conduz a trono de glória. É o suave sono que à dor sucede, do qual se desperta no Éden do Senhor. O túmulo, para os que amaram a Deus, é a porta dos átrios do céu. Formal a promessa de Cristo: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6, 54 ) Há personagens que evitam o rolo compressor do tempo e vencem a intransigência do olvido. Uma obra imensa a favor de uma comunidade permanece perene através das gerações. O nome do Dr. Carlos Raimundo Alves Torres há de continuar na saudade e nas preces de todos. A memória dos grandes homens jamais é sepultada. * Professor no Seminário de Mariana – MG
RELIGIÃO E PÁTRIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dia 22 de setembro último foi um dia marcante na História do Brasil, dado que, exatamente há três décadas ocorrera a invasão da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e tal fato assinalou o processo de redemocratização do país. Hoje, com o fim da URSS e o fracasso ideológico do comunismo ateu, é preciso ir aos idos de 1964 para se entender o que houve no Brasil de 1964-1985. Este país correu sério risco de ser tomado pelo comunismo que ambicionava conquistar o mundo inteiro. Quem despertou a nação foi o Arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, que escreveu antológica Carta Pastoral intitulada “Comunismo, Religião e Pátria”, datada de 9 de fevereiro de 1964. Foi lida na Câmara Federal em Brasília e despertou os brios dos católicos e dos patriotas em geral. A “Marcha da Família”, no dia 2 abril, no Rio de Janeiro, em ação de graças pela vitória contra a invasão comunista reuniu mais de um milhão de pessoas de todas as classes sociais, de todos os credos, de todos os partidos democráticos. Um ano depois, Dom Oscar escrevia um primoroso artigo sob a epígrafe “Revolução Necessária”. Onde, porém, há os homens, há falhas e, depois, veio a ditadura militar que desvirtuou inteiramente os caminhos da democracia. A Igreja que sempre pugnou a favor da democracia muito sofreu durante este período. Os aparelhos repressivos atingiram de cheio as instituições eclesiásticas, sobretudo universidades e escolas católicas, rádios, jornais. Uma prova disto foi a invasão da PUC/SP a qual estava na vanguarda da pugna pela volta da normalidade política do Brasil. O destemido Cardeal-Arcebispo de São, Dom Paulo Evaristo Arns, participava sempre de todos os movimentos em prol dos direitos humanos. Os estudantes na referida data faziam um ato público do que resultou um confronto com as forças do regime militar. A brutalidade das ações repressivas tiveram um protesto veemente por todo o território nacional. Cumpre, contudo, acrescentar que, por isto mesmo, não obstante as dificuldades, Igreja se configurou como um espaço aberto no qual os arautos da liberdade encontraram um lugar seguro. A Igreja foi uma ilha de excelência num mar de conflitos e arbitrariedades. Nela se agruparam operários, cujos sindicatos eram patrulhados, estudantes e outros grupos atuantes, sob o lema “A verdade vos libertará”. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Quem está a par das mordomias que um Presidente do Senado possui, além do alto poder de influências múltiplas em todos os setores da vida pública e privada, compreende melhor o apego do atual Senador que ocupa esta presidência. Repete ele insistentemente o refrão da música popular: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”! Num momento em que o Senado Federal está sendo tão questionado é consolador a lembrança de um Afonso Pena, Venceslau Brás, Arthur da Silva Bernardes, Milton Campos, entre tantos outros políticos que honraram a história republicana. Rui Barbosa advertiu que o “poder político é, de sua natureza, absorvente e invasivo”. Isto talvez explique a sua sedução. Entretanto, é do mesmo notável jurista baiano esta observação: “Há extremos no mau uso do poder, em presença dos quais a indignação transborda”. Esta repulsa está vibrante no que tange ao “affaire” Renan Calheiros.
Hoje, de fato, a neutralidade no Brasil é inadmissível. A opção é clara: ou será mantido o status quo ou uma nova ordem política será instalada neste país. É preciso valentia, discernimento para decidir. Luta pela evolução da mentalidade de certos homens públicos para que se evite a revolução. O desenvolvimento real do Brasil é uma aspiração nobre e, um dia, todos esperam que a bandeira nacional seja levantada para admiração do mundo todo, pregando, nestes tempos turbulentos, o pacífico reinado das grandes virtudes cívicas e morais que fazem a grandeza de um povo, todo ele, ansioso por verdade e sinceridade.A tempestade conceitual do renanzistas confunde a opinião pública que clama por uma antropologia de consistência ética.
Toda uma estratégia de novas formas de manipulações linguísticas surge para justificar o injustificável. O Presidente do Senado vive a clamar que é inocente, não obstante tantos processos em curso. Como diz o ditado popular: “Onde a fumaça, há fogo”. Resta saber se aos partidos da oposição não se renderão a toda esta confusão, pois até os mais cultos políticos podem se deixar levar pelo roldão das deturpações semânticas que visam salvaguardar aquele que se julga o dono do Senado. Eis aí um sintoma grave de uma deformação da inteligência, levando-a a confundir apriorismos falsos com intuições verdadeiras. Tudo isto além de levar à corroção ética, conduz a um aumento de descrédito popular com a classe política. * Professor no Seminário de Mariana.
HOMENAGEM A UM NOTÁVEL MÉDICO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dia 23 de setembro Viçosa pranteou o falecimento do Dr. Carlos Raimundo Torres, sendo concorridíssima a Missa de Corpo Presente no Santuário Santa Rita, no dia seguinte, às 14 horas. Foi um dedicado galeno. A Medicina foi para ele um sacerdócio, na confortadora e verídica expressão de tantos que o conheceram nas lides de tão difícil múnus. Mitigou sofrimentos. A inúmeros restituiu a saúde. Conhecedor profundo da arte hipocrática, seus diagnósticos eram precisos. Cirurgião exímio, distinguiu-se pela dedicação a seus clientes. Diz o célebre aforismo latino: Opus divinum est, sedare dolorem - é obra divina dulcificar a dor. Quando, porém, essa atividade celestial é exercida ministrando a caridade, diuturna e silenciosamente, é o requinte da perfeição evangélica. A caridade é, no dizer do próprio Cristo, a síntese da Lei e dos Profetas. Ela condensa todas as virtudes. Leva à imolação. Vai ao tugúrio do pobre. Sobe às mansões dos ricos. Atravessa os espinheiros de todas as misérias humanas. Navega os rios dos sofrimentos alheios. Não conhece dia nem hora, pois está sempre atenta. Vaporiza lágrimas. Precata contra as ondas das tristezas. Desce ao mais profundo recôndito do coração que sofre. Oferece do muito. Oferece do pouco. Faz-se tudo para todos, para salvar a todos. Assim foi a caridade do Dr. Carlos Raimundo. Tal foi a ventura contínua deste médico caridoso, que levou a solidariedade humana a milhares de necessitados Espírito profundamente religioso. Possuía arraigada piedade. Nutria pela Religião um respeito muito grande. Fidelíssimo à Missa dominical. Em lógica conseqüência, a Mesa Eucarística era por ele assiduamente freqüentada. Fazia da assistência à Santa Missa uma de suas devoções prediletas. Nos últimos meses de vida os Ministros da Eucaristia, Alcides Braz Fernandes e Terezinha Gomige Mizubuti, lhe levavam sempre a Comunhão. Recebeu com rara fé a Unção dos Enfermos. Fora um Cursilhista dedicado, pertencendo ao Grupo São Lucas que atuou na Colônia e na Barrinha. Suas palestras eram admiradas e aplaudidas. Verídico, ainda uma vez, o ditado: Talis vita, finis ita - qual vida, tal fim. Comungou às 10 horas da manhã e às 13 horas e 30 minutos entregou a alma a Deus. Foi também um notável político tendo sido o Prefeito do Centenário, quando esteve em Viçosa o Arcebispo Dom Oscar de Oliveira que pronunciou na ocasião belíssima Oração Gratulatória, registrada em O ARQUIDIOCESANO. Cidadão benemérito de Viçosa, agraciado com a Medalha da Inconfidência Mineira, Cidadão honorário de várias cidades como Porto Firme e São Miguel do Anta, tem o seu nome no bloco cirúrgico de Ervália. Ensina a Igreja: “Para qualquer homem que reflete, apresentada com argumentos sólidos, a fé dá-lhe uma resposta à sua angústia sobre a vida futura. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de comunicar-se em Cristo com os irmãos queridos já arrebatados pela morte, trazendo a esperança de que eles tenham alcançado a verdadeira vida junto de Deus”. Essa doutrina tão profunda conforta e alivia. É lenitivo e bálsamo, para sua digna Esposa, Marisa Cordeiro Torres, seus três filhos e três netos, para todos os seus parentes e amigos. A morte é, de fato, a lúcida aurora da eterna vida. Para os justos, conduz a trono de glória. É o suave sono que à dor sucede, do qual se desperta no Éden do Senhor. O túmulo, para os que amaram a Deus, é a porta dos átrios do céu. Formal a promessa de Cristo: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (João 6, 54 ) Há personagens que evitam o rolo compressor do tempo e vencem a intransigência do olvido. Uma obra imensa a favor de uma comunidade permanece perene através das gerações. O nome do Dr. Carlos Raimundo Alves Torres há de continuar na saudade e nas preces de todos. A memória dos grandes homens jamais é sepultada. * Professor no Seminário de Mariana – MG
RELIGIÃO E PÁTRIA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dia 22 de setembro último foi um dia marcante na História do Brasil, dado que, exatamente há três décadas ocorrera a invasão da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e tal fato assinalou o processo de redemocratização do país. Hoje, com o fim da URSS e o fracasso ideológico do comunismo ateu, é preciso ir aos idos de 1964 para se entender o que houve no Brasil de 1964-1985. Este país correu sério risco de ser tomado pelo comunismo que ambicionava conquistar o mundo inteiro. Quem despertou a nação foi o Arcebispo de Mariana, Dom Oscar de Oliveira, que escreveu antológica Carta Pastoral intitulada “Comunismo, Religião e Pátria”, datada de 9 de fevereiro de 1964. Foi lida na Câmara Federal em Brasília e despertou os brios dos católicos e dos patriotas em geral. A “Marcha da Família”, no dia 2 abril, no Rio de Janeiro, em ação de graças pela vitória contra a invasão comunista reuniu mais de um milhão de pessoas de todas as classes sociais, de todos os credos, de todos os partidos democráticos. Um ano depois, Dom Oscar escrevia um primoroso artigo sob a epígrafe “Revolução Necessária”. Onde, porém, há os homens, há falhas e, depois, veio a ditadura militar que desvirtuou inteiramente os caminhos da democracia. A Igreja que sempre pugnou a favor da democracia muito sofreu durante este período. Os aparelhos repressivos atingiram de cheio as instituições eclesiásticas, sobretudo universidades e escolas católicas, rádios, jornais. Uma prova disto foi a invasão da PUC/SP a qual estava na vanguarda da pugna pela volta da normalidade política do Brasil. O destemido Cardeal-Arcebispo de São, Dom Paulo Evaristo Arns, participava sempre de todos os movimentos em prol dos direitos humanos. Os estudantes na referida data faziam um ato público do que resultou um confronto com as forças do regime militar. A brutalidade das ações repressivas tiveram um protesto veemente por todo o território nacional. Cumpre, contudo, acrescentar que, por isto mesmo, não obstante as dificuldades, Igreja se configurou como um espaço aberto no qual os arautos da liberdade encontraram um lugar seguro. A Igreja foi uma ilha de excelência num mar de conflitos e arbitrariedades. Nela se agruparam operários, cujos sindicatos eram patrulhados, estudantes e outros grupos atuantes, sob o lema “A verdade vos libertará”. * Professor no Seminário de Mariana - MG
O serviço humilde
O SERVIÇO HUMILDE
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Entre as maravilhosas diretrizes de Cristo, todas elas alicerçadas nos seus exemplos nunca se fixa demais esta sentença fulgurante: “Uma vez feito tudo o que se vos ordenou, dizei: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”. Em qualquer circunstância da vida o ser racional está sempre a serviço do próximo nas múltiplas ocupações de cada hora e, se tais ações são feitas na ótica proposta por Jesus, os merecimentos são enormes para o tesouro celestial: "Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes" (Mt 25,40). O Mestre divino se fez um espelho para seus seguidores os quais se modelam sobre Sua sublime atitude: “E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso servo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão" (Mt 20,27-28). O Verbo Encarnado se tornou servo numa situação humana bem definida. Acentuou sua lição de uma maneira magnífica num gesto radical na última Ceia, quando se pôs a lavar os pés de seus discípulos e acrescentou: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Na verdade, a medida do serviço é o serviço sem medida. São Paulo entendeu isto perfeitamente e pode afirmar que se fizera tudo para todos para salvar a todos (1 Cor 9,22). Aconselhou então: "Tudo o que fazeis, fazei-o na caridade". (1Cor 16,14). Trata-se de viver não para si, mas para os outros. Cada um se realiza em plenitude na relação oblativa, nos gestos de doação. O verdadeiro cristão sabe auscultar as necessidade alheias e emprega toda eficiência nas tarefas de cada instante. É nas fábricas, nos escritórios, nos campos, nas escolas que o significado do amor a Deus e ao próximo devem se manifestar em todo seu esplendor. Não se trata de amar os outros de uma maneira abstrata, longínqua, mas através daquele vizinho, daquele companheiro de trabalho imediato que está ao nosso lado a cada instante, seja qual for sua origem, aspecto ou opiniões. Quantos infernizam a vida alheia por serem impertinentes com os outros, irritando-os, apoucando-os, Nem se pode esquecer que o próximo mais próximo é o que habita sob o mesmo teto. Ser cristão num serviço humilde é perceber que outros existem, é sair de si para ser atencioso com eles, é ser calmo nas relações de cada hora. Cumpre servir os outros até o esquecimento de si próprio. Este serviço se amplia no anúncio do Evangelho que salva, anima e vivifica os corações doridos. É mister oferecer ao mundo a imagem de uma Igreja ministerial, “na qual o maior tesouro é a pessoa humana, como lembrou o Pe. Paulo Dionê Quintão ao anunciar o projeto “Bom Pastor” na Paróquia de Santa Rita de Cássia em Viçosa (MG). Uma vida à disposição do próximo é um ideal sublime que deve direcionar a existência de todo batizado. O céu fúlgido da Igreja está constelado de figuras esplêndidas que alcançaram o cume da perfeição, sublimando o serviço cotidiano e multiplicando a imolação sobretudo para os mais necessitados, marginalizados da sociedade, em situação de risco. Cumpre sempre cultivar a mística do ofício caritativo, pedindo ao Divino Espírito Santo o carisma da dedicação aos outros. É ter consciência de que é preciso edificar uma Igreja voltada para a comunhão com Deus e com os irmãos. É o que se denomina também “a liturgia do próximo”, ou seja a visualização da presença divina no outro. O serviço humilde lembrado por Cristo é uma imitação do próprio Deus que tudo criou em benefício de suas criaturas. Mas o Ser Supremo multiplica seus dons para quem se doa aos outros. Se o serviço diário é realizado com toda competência, eficiência e amor se torna então fator de salvação para si e para os outros. Para quem não vê o próximo muito perto de si, o Criador ficará sempre mais longe. Cumpre se impregnar da palavra de Jesus: “Somos servos inúteis”, porque não fazemos mais do que a obrigação, estando a serviço dos outros. Na verdade, em cada ação é o Senhor que age, pois diz o Apóstolo: “Somos os cooperadores de Deus” (1 Cor 3,9). Isto não resulta de uma deficiência do poder divino, mas é o Ser Supremo que quer se servir das causas intermediárias para comunicar uns aos outros os seus benefícios. Cada um deve ser servidor por bondade e por amor. É belo estar consciente de que se é o canal da misericórdia do Criador. Quem exerce uma chefia qualquer deve se considerar um servidor especial dos subordinados. Não se trata de uma honra, mas de um ônus para o bem de todos. * Professor no Seminário de Mariana – MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Entre as maravilhosas diretrizes de Cristo, todas elas alicerçadas nos seus exemplos nunca se fixa demais esta sentença fulgurante: “Uma vez feito tudo o que se vos ordenou, dizei: “Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer”. Em qualquer circunstância da vida o ser racional está sempre a serviço do próximo nas múltiplas ocupações de cada hora e, se tais ações são feitas na ótica proposta por Jesus, os merecimentos são enormes para o tesouro celestial: "Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes" (Mt 25,40). O Mestre divino se fez um espelho para seus seguidores os quais se modelam sobre Sua sublime atitude: “E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro, se faça vosso servo. Assim como o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por uma multidão" (Mt 20,27-28). O Verbo Encarnado se tornou servo numa situação humana bem definida. Acentuou sua lição de uma maneira magnífica num gesto radical na última Ceia, quando se pôs a lavar os pés de seus discípulos e acrescentou: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15). Na verdade, a medida do serviço é o serviço sem medida. São Paulo entendeu isto perfeitamente e pode afirmar que se fizera tudo para todos para salvar a todos (1 Cor 9,22). Aconselhou então: "Tudo o que fazeis, fazei-o na caridade". (1Cor 16,14). Trata-se de viver não para si, mas para os outros. Cada um se realiza em plenitude na relação oblativa, nos gestos de doação. O verdadeiro cristão sabe auscultar as necessidade alheias e emprega toda eficiência nas tarefas de cada instante. É nas fábricas, nos escritórios, nos campos, nas escolas que o significado do amor a Deus e ao próximo devem se manifestar em todo seu esplendor. Não se trata de amar os outros de uma maneira abstrata, longínqua, mas através daquele vizinho, daquele companheiro de trabalho imediato que está ao nosso lado a cada instante, seja qual for sua origem, aspecto ou opiniões. Quantos infernizam a vida alheia por serem impertinentes com os outros, irritando-os, apoucando-os, Nem se pode esquecer que o próximo mais próximo é o que habita sob o mesmo teto. Ser cristão num serviço humilde é perceber que outros existem, é sair de si para ser atencioso com eles, é ser calmo nas relações de cada hora. Cumpre servir os outros até o esquecimento de si próprio. Este serviço se amplia no anúncio do Evangelho que salva, anima e vivifica os corações doridos. É mister oferecer ao mundo a imagem de uma Igreja ministerial, “na qual o maior tesouro é a pessoa humana, como lembrou o Pe. Paulo Dionê Quintão ao anunciar o projeto “Bom Pastor” na Paróquia de Santa Rita de Cássia em Viçosa (MG). Uma vida à disposição do próximo é um ideal sublime que deve direcionar a existência de todo batizado. O céu fúlgido da Igreja está constelado de figuras esplêndidas que alcançaram o cume da perfeição, sublimando o serviço cotidiano e multiplicando a imolação sobretudo para os mais necessitados, marginalizados da sociedade, em situação de risco. Cumpre sempre cultivar a mística do ofício caritativo, pedindo ao Divino Espírito Santo o carisma da dedicação aos outros. É ter consciência de que é preciso edificar uma Igreja voltada para a comunhão com Deus e com os irmãos. É o que se denomina também “a liturgia do próximo”, ou seja a visualização da presença divina no outro. O serviço humilde lembrado por Cristo é uma imitação do próprio Deus que tudo criou em benefício de suas criaturas. Mas o Ser Supremo multiplica seus dons para quem se doa aos outros. Se o serviço diário é realizado com toda competência, eficiência e amor se torna então fator de salvação para si e para os outros. Para quem não vê o próximo muito perto de si, o Criador ficará sempre mais longe. Cumpre se impregnar da palavra de Jesus: “Somos servos inúteis”, porque não fazemos mais do que a obrigação, estando a serviço dos outros. Na verdade, em cada ação é o Senhor que age, pois diz o Apóstolo: “Somos os cooperadores de Deus” (1 Cor 3,9). Isto não resulta de uma deficiência do poder divino, mas é o Ser Supremo que quer se servir das causas intermediárias para comunicar uns aos outros os seus benefícios. Cada um deve ser servidor por bondade e por amor. É belo estar consciente de que se é o canal da misericórdia do Criador. Quem exerce uma chefia qualquer deve se considerar um servidor especial dos subordinados. Não se trata de uma honra, mas de um ônus para o bem de todos. * Professor no Seminário de Mariana – MG