Tuesday, October 02, 2007
O evagelho de São João
O EVANGELHO DE SÃO JOÃO
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
João filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago, o Maior, era pescador (Lc 5,10). João e Tiago eram sócios de Pedro. Esta tríade presenciou grandes eventos da vida de Cristo, como a Transfiguração no monte Tabor (Mt 17,1), a agonia no Horto das Oliveiras (Mt 26,37). Com Pedro, João foi encarregado por Jesus de preparar a ceia pascal (Lc 22,8). Lemos nos Atos que, após Pentecostes, Pedro e João ainda estavam falando ao povo, quando apareceram os sacerdotes e o comandante do Templo ... Eles os agarraram e deixaram presos até o dia seguinte, pois já era tarde” (4,1). A pregação do Evangelho na Samaria se liga também a João e a Pedro: “Quando os apóstolos souberam em Jerusalém que a Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e João para lá” (At 15,2 e Gl 2,9). Diz São Paulo que reconhecendo a graça que lhe foi concedida, Tiago, Cefas e João, considerados como as colunas, deram o aperto de mão a ele e a Barnabé, em sinal de comunhão (Gl 2,9). Sobre os últimos anos de São João, Renié escreve: “São Jerônimo nos assegura, seguindo Tertuliano, que São João foi conduzido a Roma por ordem de Domiciano e imerso numa cadeira de óleo fervendo, da qual saiu ileso. O imperador o exilou em Patmos, pequena ilha no mar Egeu, onde o discípulo amado escreveu o seu Apocalipse. Depois da morte do tirano, João voltou a Éfeso e aí organizou as igrejas da região. João morreu em avançada idade sob o reinado de Trajano. Éfeso conserva ainda seu túmulo”. A autoria de João é comprovada não apenas pela tradição, mas ainda pela crítica interna do texto. Esta patenteia que quem o redigiu era um judeu, pois abundam os semitismos. Adite-se que detalhes da vida religiosa e social judia aparecem a cada passo como, por exemplo, a aversão que havia contra os samaritanos (4,9 s). Além disto, pela leitura deste Evangelho logo se percebe que se trata de uma testemunha ocular. As peculiaridades das circunstâncias de certos eventos não apenas correspondem à realidade histórica, como ostentam um observador atento presente aos mesmos. Trata-se, pois, de um apóstolo e este é João, o qual foi o discípulo que durante mais tempo viveu e pôde fazer uma admirável análise teológica dos ditos e feitos de Senhor, refletindo profundamente sobre tudo que viu e ouviu. São João escreveu no fim do primeiro século, provavelmente em Éfeso, para cristãos gentios, com o fim de firmar a fé em Jesus, o Cristo, Filho de Deus, única salvação para a humanidade (20,31). Após o prólogo (1,1-18) no qual o Logos divino é objeto de belíssimas considerações, vem o corpo da obra. Neste se percebem duas grandes divisões: a vida pública de Jesus (1,19-15,20) e Sua trajetória de sofrimentos e de glórias (13,1-21), seguindo-se a conclusão (21,24-25). Muito se tem falado do vocabulário restrito, da falta de seqüência nas partes do texto, do estilo não tão apurado de São João. Entretanto também com relação a ele se dá o que, com razão, declara o provérbio: “O amor torna eloqüente aqueles que ele anima”. Em São João palpita um extremado amor a Cristo. Aliás ele era o discípulo amado (13,23). Repleto de entusiasmo, ele sentia de tal modo Deus dentro de si que borbulha em suas frases a dileção mais vibrante. É dele esta pulcra sentença: “Deus é amor e aquele que permanece no amor está em Deus (1 Jo 2,17). Este é, de fato, o Evangelho do amor. É esta dileção extraordinária que faz da dramaticidade, imprimida por este escritor a sua narrativa, o encanto que acaba prendendo o leitor. De rara beleza a figura do Bom Pastor que João realça com maestria (10,1-22). A ressurreição de Lázaro revela toda a ternura de Cristo: “Os judeus comentavam: “Vede como ele o amava” (11,36). Como secretário deste amor do Coração de Cristo, João estava na última ceia “reclinado bem perto de Jesus” (13,23). Registrou para a posteridade o que se passava com o Mestre naquela despedida: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1). Clássica esta passagem na qual o evangelista registrou o grande preceito do Filho de Deus: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos tenho amado, vós deveis também amar uns aos outros. É pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos” (13,34-35). Esta diretriz é, enfaticamente, repetida no capítulo quinze (vers. 12-17). Eis por que a doutrina joanina é tão apta a cativar as mentes. Por tudo isto, este é um dos textos bíblicos mais lidos em todos os tempos, atualíssimo para este início de milênio. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
João filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago, o Maior, era pescador (Lc 5,10). João e Tiago eram sócios de Pedro. Esta tríade presenciou grandes eventos da vida de Cristo, como a Transfiguração no monte Tabor (Mt 17,1), a agonia no Horto das Oliveiras (Mt 26,37). Com Pedro, João foi encarregado por Jesus de preparar a ceia pascal (Lc 22,8). Lemos nos Atos que, após Pentecostes, Pedro e João ainda estavam falando ao povo, quando apareceram os sacerdotes e o comandante do Templo ... Eles os agarraram e deixaram presos até o dia seguinte, pois já era tarde” (4,1). A pregação do Evangelho na Samaria se liga também a João e a Pedro: “Quando os apóstolos souberam em Jerusalém que a Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram Pedro e João para lá” (At 15,2 e Gl 2,9). Diz São Paulo que reconhecendo a graça que lhe foi concedida, Tiago, Cefas e João, considerados como as colunas, deram o aperto de mão a ele e a Barnabé, em sinal de comunhão (Gl 2,9). Sobre os últimos anos de São João, Renié escreve: “São Jerônimo nos assegura, seguindo Tertuliano, que São João foi conduzido a Roma por ordem de Domiciano e imerso numa cadeira de óleo fervendo, da qual saiu ileso. O imperador o exilou em Patmos, pequena ilha no mar Egeu, onde o discípulo amado escreveu o seu Apocalipse. Depois da morte do tirano, João voltou a Éfeso e aí organizou as igrejas da região. João morreu em avançada idade sob o reinado de Trajano. Éfeso conserva ainda seu túmulo”. A autoria de João é comprovada não apenas pela tradição, mas ainda pela crítica interna do texto. Esta patenteia que quem o redigiu era um judeu, pois abundam os semitismos. Adite-se que detalhes da vida religiosa e social judia aparecem a cada passo como, por exemplo, a aversão que havia contra os samaritanos (4,9 s). Além disto, pela leitura deste Evangelho logo se percebe que se trata de uma testemunha ocular. As peculiaridades das circunstâncias de certos eventos não apenas correspondem à realidade histórica, como ostentam um observador atento presente aos mesmos. Trata-se, pois, de um apóstolo e este é João, o qual foi o discípulo que durante mais tempo viveu e pôde fazer uma admirável análise teológica dos ditos e feitos de Senhor, refletindo profundamente sobre tudo que viu e ouviu. São João escreveu no fim do primeiro século, provavelmente em Éfeso, para cristãos gentios, com o fim de firmar a fé em Jesus, o Cristo, Filho de Deus, única salvação para a humanidade (20,31). Após o prólogo (1,1-18) no qual o Logos divino é objeto de belíssimas considerações, vem o corpo da obra. Neste se percebem duas grandes divisões: a vida pública de Jesus (1,19-15,20) e Sua trajetória de sofrimentos e de glórias (13,1-21), seguindo-se a conclusão (21,24-25). Muito se tem falado do vocabulário restrito, da falta de seqüência nas partes do texto, do estilo não tão apurado de São João. Entretanto também com relação a ele se dá o que, com razão, declara o provérbio: “O amor torna eloqüente aqueles que ele anima”. Em São João palpita um extremado amor a Cristo. Aliás ele era o discípulo amado (13,23). Repleto de entusiasmo, ele sentia de tal modo Deus dentro de si que borbulha em suas frases a dileção mais vibrante. É dele esta pulcra sentença: “Deus é amor e aquele que permanece no amor está em Deus (1 Jo 2,17). Este é, de fato, o Evangelho do amor. É esta dileção extraordinária que faz da dramaticidade, imprimida por este escritor a sua narrativa, o encanto que acaba prendendo o leitor. De rara beleza a figura do Bom Pastor que João realça com maestria (10,1-22). A ressurreição de Lázaro revela toda a ternura de Cristo: “Os judeus comentavam: “Vede como ele o amava” (11,36). Como secretário deste amor do Coração de Cristo, João estava na última ceia “reclinado bem perto de Jesus” (13,23). Registrou para a posteridade o que se passava com o Mestre naquela despedida: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1). Clássica esta passagem na qual o evangelista registrou o grande preceito do Filho de Deus: “Eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos tenho amado, vós deveis também amar uns aos outros. É pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos” (13,34-35). Esta diretriz é, enfaticamente, repetida no capítulo quinze (vers. 12-17). Eis por que a doutrina joanina é tão apta a cativar as mentes. Por tudo isto, este é um dos textos bíblicos mais lidos em todos os tempos, atualíssimo para este início de milênio. * Professor no Seminário de Mariana - MG