Friday, March 17, 2006
Zelo pela Casa de Deus e Combate contra a fé
ZELO PELA CASA DE DEUS
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A cena que se deu um dia no Templo de Jerusalém, o qual Jesus encontrou profanado pelos vendilhões (Jo 2,13-25), traz à baila uma série de reflexões práticas para a vida cristã. Cristo, depois de ter feito seu primeiro milagre em Caná da Galiléia, se dirigiu à capital de sua pátria e foi ao Templo para orar e pregar a Boa Nova. Grande sua surpresa ao ver a Casa santa de Deus repleta de mercadores e de traficantes de toda a espécie! O Ser Supremo, na pessoa do Redentor, vem à sua própria moradia e que depara Ele? Pessoas entregues à oração? Levitas cumprindo seu ministério de louvor? Nada disto. Havia ali trambiqueiros interessados não nos tesouros do céu, mas nas riquezas da terra. Situação paradoxal, chocante! A reação do Senhor, chicoteando e expulsando aqueles vendedores, fez com que seus discípulos se lembrassem do que está escrito no salmo: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 68,10). A casa é bem o símbolo de toda a realidade da criação mesma. A casa é o lugar de paz onde cada um se refugia para o repouso após as lutas diárias. É o oásis no deserto desta terra. É o espaço sagrado no qual se passam horas amenas com os familiares e amigos. É, sobretudo, a habitação de Deus entre os homens que se reúnem para, como seres sociais, adorar juntos o seu Criador, Lhe prestando o culto a Ele devido. Aí se recebem seus especiais favores. Apesar de ser um puro Espírito e estar presente por toda parte, no céu e na terra e nos espaços ilimitados do universo, para se comunicar com os seres racionais, Deus sempre quis ter uma mansão entre os homens. No Antigo Testamento grandioso o projeto de Davi realizado por Salomão, erguendo o Templo de Jerusalém, centro da adoração a Javé, réplica de seu palácio celeste (Ex 25,40). A edificação material em homenagem ao Todo-Poderoso seria sempre, porém, o sinal do templo espiritual que é o coração de cada fiel, conforme Cristo ensinaria dizendo: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 4,23). É o que Paulo lembraria mais tarde aos Coríntios: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (3,16). Que dignidade a do batizado! Se a atitude de Cristo, condenando a profanação de sua habitação feita de elementos materiais, foi tão veemente, como não deveriam temer e tremer os que profanam pelo pecado, seja ele qual for, seu próprio corpo, casa sacrossanta da divindade! Nisto é que deveriam pensar os jovens e as jovens que não respeitam o corpo de seus namorados ou aqueles que se entregam à bebida, às drogas ou a qualquer tipo de imoralidade! Quando alguém ofende gravemente o seu semelhante está, outrossim, agredindo a morada santa de Deus! Eis por que ir ao encontro dos que sofrem, dos marginalizados, é promover alguém que é o templo vivo do Senhor! Nem se poderia esquecer que Jesus foi por excelência o novo templo da divindade. O grande sinal que ele daria aos seus inimigos sobre sua autoridade foi exatamente este: seu corpo mortal seria destruído, mas reconstruído em três dias (Jo 2,19) e seus epígonos, depois da ressurreição do Mestre, compreenderam seus dizeres. Após sua vitória no dia da Páscoa, seu corpo, sinal da presença divina aqui na terra, conheceria um novo estado transfigurado que lhe permitiria tornar-se presente na celebração eucarística em todos os lugares e em todos os séculos. Por tudo isto, a Igreja, Corpo Místico de Cristo, não pode também ser profanada dentro da História e os fiéis, na fé e na caridade, devem cooperar para seu crescimento (Ef 4,1-16). Cada cristão é uma pedra viva do grande edifício espiritual para um sacerdócio santo, a fim de oferecer sacrifícios espirituais (1 Pd 2,4s). A Igreja, Corpo de Cristo, é o sinal da presença divina neste mundo. Eis por que todos aqueles que vivem tais realidades, um dia, entrarão no santuário eterno onde Jesus já penetrou como precursor (Hb 4, 14). Viver todo o simbolismo do Templo é, desde já, garantir um lugar na morada eterna do céu para uma beatitude sem fim! * Professor no Seminário de Mariana - MG
COMBATE CONTRA A FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Os que renegam o cristianismo em função do valor disseminam seus erros e abalam a fé dos que acreditam na existência do Ser Supremo.. A crença em Deus, segundo alguns, não exige assaz dos homens e não lhes propõe um alvo bastante elevado. Nietzsche, cujas obras infelizmente são tanto divulgadas, sobretudo nos meios universitários, é uma figura típica desta atitude irreligiosa.. Nietzsche despertou para a filosofia através de Schopenhauer. Assim Nietzsche exprimiu: “Schopenhauer foi, como filósofo, o primeiro ateísta confesso e inflexível que nós alemães tivemos”. Como quase todos os ateus depois de Feuerbach, Nietzsche também considera a religiosidade como uma inconsciente projeção. Deus não é senão uma ilusão do homem inquirindo uma compensação de sua miséria. Sonho mau que leva a um escape fora do mundo e das magnas tarefas humanas. O homem, em certos estados fortes e excepcionais tomaria conta da energia que está nele adormecida, ou do amor que o sustém. Não ousando atribuir a si mesmo este poder e esta dileção, faria disto os caracteres peculiares de um ser sobre-humano, que seria outro diferente dele. Ele repartiria, assim, entre duas esferas os dois ângulos de sua natureza. O lado ordinário, lamentável e fraco pertenceria ao que se intitula “homem”; a faceta rara, potente e surpreendente seria o apanágio da outra, do que se denomina Deus. Deste modo, o homem se veria espoliado por ele mesmo de tudo que há de excelente nele. De fato, a religião, a crença em Deus, seria um processo de aviltamento do homem. Deus é uma ficção, atraindo para o absoluto nossas tendências mais recrescentes, nossas aspirações mais altas, nossos desejos mais ardentes. O melhor de nossa essência se destaca de nós e se cristaliza num fantasma misterioso que parece nos dominar e merecer nossas homenagens. Nós o veneramos como uma entidade sagrada. Deus se resume nos atributos essenciais do homem. É uma caricatura do real, uma quimera. O homem não é criado à imagem de Deus, mas Deus sim é feito à semelhança do homem. O cristianismo é para ele como a mais deletéria das seduções e dos embustes. Ele é a Grande-Mentira e a blasfêmia personificada.Deus é, pois, segundo Nietzsche, o sintoma, o índice desta doença mortal do espírito. O cristianismo é, segundo este sacrílego, a máxima mistificação. Declara-lhe então guerra em nome do valor. No que há de mais autenticamente evangélico é que a religião de Cristo aparece como nefanda ao filósofo que por isto a combate tenazmente. Os Evangelhos arrancam o homem a ele mesmo, à sociedade, ao universo, dado que apresentam “doutrina que faz da liberdade e da salvação da alma o fim da vida”. Rebocam o homem para o céu fictício da divindade. A religião desumaniza, degrada e infantiliza o homem, assevera ele na sua empáfia. Daí, preconiza ele, que apagar a fé é a missão histórica de sua época, um encargo no qual todos os povos da Europa devem tomar parte. A fé, diz ele, é espoliação perniciosa do indivíduo, porque ela afasta seus olhares da terra para o além imaginário. Donde ser indispensável substituir os pretensos valores cristãos por novos, que longe de diminuir o homem o venham a exaltar.O ateísmo é para Nietzsche uma afirmação essencial. Anunciar a morte de Deus é dar ao homem todas as chances de se engrandecer. O desaparecimento de Deus é correlato com o desabrochar do homem. É a via da libertação. Assim, ele sairá do abismo. “Deus está morto” não é um quimérico enunciado de um evento constatado, nem o lamento de uma alma angustiada, nem a ironia de um espírito perspicaz. É uma resolução tomada. Esta proclamação solene, repetida pelos seus epígonos, domina a obra de seus últimos anos. É a inspiração suprema que lhe anima todo seu pensar ao proclamar a morte de Deus. Significa propor profeticamente, pelo menos aos eleitos que estão no mais alto cimo, a confiança de um triunfo sobre a morte. A morte de Deus é a morte da morte. Os dois principais temas positivos do pensamento, ou antes da visão nietzschiana, o super-homem e o retorno eterno não têm cabimento, senão por esta ambição de encontrar no ateísmo integral uma religião de salvação total para a terra e para o homem. O retorno eterno é a eterna salvação; o super-homem é ao mesmo tempo o salvador e o homem salvo. Nietzsche é, positivamente, um convicto deicida. Muitos bebem nos seus escritos a descrença e com ela a infelicidade! * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
A cena que se deu um dia no Templo de Jerusalém, o qual Jesus encontrou profanado pelos vendilhões (Jo 2,13-25), traz à baila uma série de reflexões práticas para a vida cristã. Cristo, depois de ter feito seu primeiro milagre em Caná da Galiléia, se dirigiu à capital de sua pátria e foi ao Templo para orar e pregar a Boa Nova. Grande sua surpresa ao ver a Casa santa de Deus repleta de mercadores e de traficantes de toda a espécie! O Ser Supremo, na pessoa do Redentor, vem à sua própria moradia e que depara Ele? Pessoas entregues à oração? Levitas cumprindo seu ministério de louvor? Nada disto. Havia ali trambiqueiros interessados não nos tesouros do céu, mas nas riquezas da terra. Situação paradoxal, chocante! A reação do Senhor, chicoteando e expulsando aqueles vendedores, fez com que seus discípulos se lembrassem do que está escrito no salmo: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 68,10). A casa é bem o símbolo de toda a realidade da criação mesma. A casa é o lugar de paz onde cada um se refugia para o repouso após as lutas diárias. É o oásis no deserto desta terra. É o espaço sagrado no qual se passam horas amenas com os familiares e amigos. É, sobretudo, a habitação de Deus entre os homens que se reúnem para, como seres sociais, adorar juntos o seu Criador, Lhe prestando o culto a Ele devido. Aí se recebem seus especiais favores. Apesar de ser um puro Espírito e estar presente por toda parte, no céu e na terra e nos espaços ilimitados do universo, para se comunicar com os seres racionais, Deus sempre quis ter uma mansão entre os homens. No Antigo Testamento grandioso o projeto de Davi realizado por Salomão, erguendo o Templo de Jerusalém, centro da adoração a Javé, réplica de seu palácio celeste (Ex 25,40). A edificação material em homenagem ao Todo-Poderoso seria sempre, porém, o sinal do templo espiritual que é o coração de cada fiel, conforme Cristo ensinaria dizendo: “Se alguém me ama, meu Pai o amará, viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 4,23). É o que Paulo lembraria mais tarde aos Coríntios: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (3,16). Que dignidade a do batizado! Se a atitude de Cristo, condenando a profanação de sua habitação feita de elementos materiais, foi tão veemente, como não deveriam temer e tremer os que profanam pelo pecado, seja ele qual for, seu próprio corpo, casa sacrossanta da divindade! Nisto é que deveriam pensar os jovens e as jovens que não respeitam o corpo de seus namorados ou aqueles que se entregam à bebida, às drogas ou a qualquer tipo de imoralidade! Quando alguém ofende gravemente o seu semelhante está, outrossim, agredindo a morada santa de Deus! Eis por que ir ao encontro dos que sofrem, dos marginalizados, é promover alguém que é o templo vivo do Senhor! Nem se poderia esquecer que Jesus foi por excelência o novo templo da divindade. O grande sinal que ele daria aos seus inimigos sobre sua autoridade foi exatamente este: seu corpo mortal seria destruído, mas reconstruído em três dias (Jo 2,19) e seus epígonos, depois da ressurreição do Mestre, compreenderam seus dizeres. Após sua vitória no dia da Páscoa, seu corpo, sinal da presença divina aqui na terra, conheceria um novo estado transfigurado que lhe permitiria tornar-se presente na celebração eucarística em todos os lugares e em todos os séculos. Por tudo isto, a Igreja, Corpo Místico de Cristo, não pode também ser profanada dentro da História e os fiéis, na fé e na caridade, devem cooperar para seu crescimento (Ef 4,1-16). Cada cristão é uma pedra viva do grande edifício espiritual para um sacerdócio santo, a fim de oferecer sacrifícios espirituais (1 Pd 2,4s). A Igreja, Corpo de Cristo, é o sinal da presença divina neste mundo. Eis por que todos aqueles que vivem tais realidades, um dia, entrarão no santuário eterno onde Jesus já penetrou como precursor (Hb 4, 14). Viver todo o simbolismo do Templo é, desde já, garantir um lugar na morada eterna do céu para uma beatitude sem fim! * Professor no Seminário de Mariana - MG
COMBATE CONTRA A FÉ
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Os que renegam o cristianismo em função do valor disseminam seus erros e abalam a fé dos que acreditam na existência do Ser Supremo.. A crença em Deus, segundo alguns, não exige assaz dos homens e não lhes propõe um alvo bastante elevado. Nietzsche, cujas obras infelizmente são tanto divulgadas, sobretudo nos meios universitários, é uma figura típica desta atitude irreligiosa.. Nietzsche despertou para a filosofia através de Schopenhauer. Assim Nietzsche exprimiu: “Schopenhauer foi, como filósofo, o primeiro ateísta confesso e inflexível que nós alemães tivemos”. Como quase todos os ateus depois de Feuerbach, Nietzsche também considera a religiosidade como uma inconsciente projeção. Deus não é senão uma ilusão do homem inquirindo uma compensação de sua miséria. Sonho mau que leva a um escape fora do mundo e das magnas tarefas humanas. O homem, em certos estados fortes e excepcionais tomaria conta da energia que está nele adormecida, ou do amor que o sustém. Não ousando atribuir a si mesmo este poder e esta dileção, faria disto os caracteres peculiares de um ser sobre-humano, que seria outro diferente dele. Ele repartiria, assim, entre duas esferas os dois ângulos de sua natureza. O lado ordinário, lamentável e fraco pertenceria ao que se intitula “homem”; a faceta rara, potente e surpreendente seria o apanágio da outra, do que se denomina Deus. Deste modo, o homem se veria espoliado por ele mesmo de tudo que há de excelente nele. De fato, a religião, a crença em Deus, seria um processo de aviltamento do homem. Deus é uma ficção, atraindo para o absoluto nossas tendências mais recrescentes, nossas aspirações mais altas, nossos desejos mais ardentes. O melhor de nossa essência se destaca de nós e se cristaliza num fantasma misterioso que parece nos dominar e merecer nossas homenagens. Nós o veneramos como uma entidade sagrada. Deus se resume nos atributos essenciais do homem. É uma caricatura do real, uma quimera. O homem não é criado à imagem de Deus, mas Deus sim é feito à semelhança do homem. O cristianismo é para ele como a mais deletéria das seduções e dos embustes. Ele é a Grande-Mentira e a blasfêmia personificada.Deus é, pois, segundo Nietzsche, o sintoma, o índice desta doença mortal do espírito. O cristianismo é, segundo este sacrílego, a máxima mistificação. Declara-lhe então guerra em nome do valor. No que há de mais autenticamente evangélico é que a religião de Cristo aparece como nefanda ao filósofo que por isto a combate tenazmente. Os Evangelhos arrancam o homem a ele mesmo, à sociedade, ao universo, dado que apresentam “doutrina que faz da liberdade e da salvação da alma o fim da vida”. Rebocam o homem para o céu fictício da divindade. A religião desumaniza, degrada e infantiliza o homem, assevera ele na sua empáfia. Daí, preconiza ele, que apagar a fé é a missão histórica de sua época, um encargo no qual todos os povos da Europa devem tomar parte. A fé, diz ele, é espoliação perniciosa do indivíduo, porque ela afasta seus olhares da terra para o além imaginário. Donde ser indispensável substituir os pretensos valores cristãos por novos, que longe de diminuir o homem o venham a exaltar.O ateísmo é para Nietzsche uma afirmação essencial. Anunciar a morte de Deus é dar ao homem todas as chances de se engrandecer. O desaparecimento de Deus é correlato com o desabrochar do homem. É a via da libertação. Assim, ele sairá do abismo. “Deus está morto” não é um quimérico enunciado de um evento constatado, nem o lamento de uma alma angustiada, nem a ironia de um espírito perspicaz. É uma resolução tomada. Esta proclamação solene, repetida pelos seus epígonos, domina a obra de seus últimos anos. É a inspiração suprema que lhe anima todo seu pensar ao proclamar a morte de Deus. Significa propor profeticamente, pelo menos aos eleitos que estão no mais alto cimo, a confiança de um triunfo sobre a morte. A morte de Deus é a morte da morte. Os dois principais temas positivos do pensamento, ou antes da visão nietzschiana, o super-homem e o retorno eterno não têm cabimento, senão por esta ambição de encontrar no ateísmo integral uma religião de salvação total para a terra e para o homem. O retorno eterno é a eterna salvação; o super-homem é ao mesmo tempo o salvador e o homem salvo. Nietzsche é, positivamente, um convicto deicida. Muitos bebem nos seus escritos a descrença e com ela a infelicidade! * Professor no Seminário de Mariana - MG