Monday, March 06, 2006
A Transfiguração do Senhor
A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Extraordinário o acontecimento da Transfiguração de Jesus no monte Tabor. Percebe-se na narrativa de São Marcos (9, 2-10) a identidade profunda do Filho de Deus Encarnado. Fulge sua divindade que sua humanidade encobria, ou melhor se diria, que nossa pobre humanidade manchada pelo pecado original era incapaz de ver. O que se passou com os apóstolos, Pedro, Tiago e João, foi também uma clara transfiguração, pois seus olhos humanos passaram a contemplar um pouco da glória do Redentor. Cristo deixou, por um instante, a opacidade de sua carne mortal chancelada pela mácula herdada de Adão e Eva. Transpareceu, em todo fulgor, Sua santidade. Algo de seu esplendor eterno que a Páscoa, que foi então anunciada, deveria patentear e comunicar a todas as gerações cristãs. A mensagem central da Transfiguração de Jesus é a manifestação de sua glória em uma humanidade que o pecado do mundo haveria de crucificar, donde o anúncio de sua paixão feita aos atônitos discípulos ao descerem do monte santo. Aquele episódio era uma antecipação da condição gloriosa do Ressuscitado adquirida pelo sangue da cruz. Quem sabe ver no Desfigurado da Cruz a manifestação de sua dileção salvífica, pode contemplar o Transfigurado que nos inebria com seu Amor. O evento da Transfiguração é, portanto, também uma transformação de nosso olhar e de nosso coração. É um solene convite a ver a beleza de Deus que age no mundo, não obstante as desfigurações, as deturpações humanas que tantas vezes agridem as belezas que o Criador espalhou por toda parte. É um apelo a não se desprezar a obra redentora. Além disto, cumpre, por entre as naturais dificuldades da existência terrena, que se mire, pela fé e pela esperança, o fausto que espera quem crê e aguarda a vida eterna junto do Ser Supremo. Há, por tudo isto, um liame profundo entre a paixão de Cristo e sua magnificência no Tabor. Toda a Escritura, a Lei, bem simbolizada com a presença de Moisés, e os Profetas, representados por Elias, converge para um incrível Messias que seria crucificado no Calvário. Há um paralelo denso de sentido entre o Desfigurado e o Transfigurado, entre o Crucificado e o Ressuscitado. Nesta montanha sacrossanta, espaço simbólico da transcendência, lugar que junta o mundo de Deus ao mundo dos homens, sublimes verdades se revelam. A humanidade de Jesus transfigurada nos leva a Lhe dizer com o salmista: “De majestade e magnificência revestido, sois vós que distendeis a luz como um manto” (Sl 104,2), dado que a humanidade do Filho de Deus está iluminada pela sua divindade. É que Jesus veio para deificar a natureza humana. No ofertório da Missa, o Sacerdote, ao colocar a gota de água no cálice com o vinho que vai ser transusbstanciado no sangue de Cristo reza: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade daquele que se dignou assumir nossa humanidade”. Deus desceu até os homens para os fazer subir até Ele. A vocação humana consiste em viver de Deus e, ao viver de Deus, é que cada um se torna um ser humano na plenitude de sua dignidade, agindo não pelos instintos, não se deixando prendar na materialidade, no hedonismo. Em Jesus, nos é revelada inseparavelmente a humanidade de um Deus que se encarnou e a divinização do homem que passa a participar da própria natureza divina (2 Pd 1,4). Deste modo, humanidade e divindade não se excluem, pois, num excesso de bondade, Deus quis que houvesse uma participação real na sua divindade, o que ocorre pelo sacramento do Batismo. É sintomático que os mesmos discípulos que assistiram sua Transfiguração sejam os mesmos que estarão na sua Agonia. Cumpre passar primeiro pelo Calvário para se atingir a glória eterna. É preciso, conforme ordenou o Pai, escutar Jesus e O seguir, carregando a cruz de cada dia. Pela cruz, Jesus nos faz entrar no Amor que O une ao Pai e é este amor que transfigura os espaços de nossa vida desfigurados pelo pecado. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Extraordinário o acontecimento da Transfiguração de Jesus no monte Tabor. Percebe-se na narrativa de São Marcos (9, 2-10) a identidade profunda do Filho de Deus Encarnado. Fulge sua divindade que sua humanidade encobria, ou melhor se diria, que nossa pobre humanidade manchada pelo pecado original era incapaz de ver. O que se passou com os apóstolos, Pedro, Tiago e João, foi também uma clara transfiguração, pois seus olhos humanos passaram a contemplar um pouco da glória do Redentor. Cristo deixou, por um instante, a opacidade de sua carne mortal chancelada pela mácula herdada de Adão e Eva. Transpareceu, em todo fulgor, Sua santidade. Algo de seu esplendor eterno que a Páscoa, que foi então anunciada, deveria patentear e comunicar a todas as gerações cristãs. A mensagem central da Transfiguração de Jesus é a manifestação de sua glória em uma humanidade que o pecado do mundo haveria de crucificar, donde o anúncio de sua paixão feita aos atônitos discípulos ao descerem do monte santo. Aquele episódio era uma antecipação da condição gloriosa do Ressuscitado adquirida pelo sangue da cruz. Quem sabe ver no Desfigurado da Cruz a manifestação de sua dileção salvífica, pode contemplar o Transfigurado que nos inebria com seu Amor. O evento da Transfiguração é, portanto, também uma transformação de nosso olhar e de nosso coração. É um solene convite a ver a beleza de Deus que age no mundo, não obstante as desfigurações, as deturpações humanas que tantas vezes agridem as belezas que o Criador espalhou por toda parte. É um apelo a não se desprezar a obra redentora. Além disto, cumpre, por entre as naturais dificuldades da existência terrena, que se mire, pela fé e pela esperança, o fausto que espera quem crê e aguarda a vida eterna junto do Ser Supremo. Há, por tudo isto, um liame profundo entre a paixão de Cristo e sua magnificência no Tabor. Toda a Escritura, a Lei, bem simbolizada com a presença de Moisés, e os Profetas, representados por Elias, converge para um incrível Messias que seria crucificado no Calvário. Há um paralelo denso de sentido entre o Desfigurado e o Transfigurado, entre o Crucificado e o Ressuscitado. Nesta montanha sacrossanta, espaço simbólico da transcendência, lugar que junta o mundo de Deus ao mundo dos homens, sublimes verdades se revelam. A humanidade de Jesus transfigurada nos leva a Lhe dizer com o salmista: “De majestade e magnificência revestido, sois vós que distendeis a luz como um manto” (Sl 104,2), dado que a humanidade do Filho de Deus está iluminada pela sua divindade. É que Jesus veio para deificar a natureza humana. No ofertório da Missa, o Sacerdote, ao colocar a gota de água no cálice com o vinho que vai ser transusbstanciado no sangue de Cristo reza: “Pelo mistério desta água e deste vinho possamos participar da divindade daquele que se dignou assumir nossa humanidade”. Deus desceu até os homens para os fazer subir até Ele. A vocação humana consiste em viver de Deus e, ao viver de Deus, é que cada um se torna um ser humano na plenitude de sua dignidade, agindo não pelos instintos, não se deixando prendar na materialidade, no hedonismo. Em Jesus, nos é revelada inseparavelmente a humanidade de um Deus que se encarnou e a divinização do homem que passa a participar da própria natureza divina (2 Pd 1,4). Deste modo, humanidade e divindade não se excluem, pois, num excesso de bondade, Deus quis que houvesse uma participação real na sua divindade, o que ocorre pelo sacramento do Batismo. É sintomático que os mesmos discípulos que assistiram sua Transfiguração sejam os mesmos que estarão na sua Agonia. Cumpre passar primeiro pelo Calvário para se atingir a glória eterna. É preciso, conforme ordenou o Pai, escutar Jesus e O seguir, carregando a cruz de cada dia. Pela cruz, Jesus nos faz entrar no Amor que O une ao Pai e é este amor que transfigura os espaços de nossa vida desfigurados pelo pecado. * Professor no Seminário de Mariana - MG