Sunday, March 26, 2006
dANÇA MACABRA
DANÇA MACABRA
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dança macabra é um poema sinfônico de Saint-Saens inspirado numa composição de Henrique Cazalis. Esta composição musical tem dois temas: um representando a dança da morte, o outro simbolizando a Noite e a Solidão do cemitério. Esses temas desenvolvem-se até o cantar do galo, dado em imitação do oboé, marcando o sinal para terminar a dança macabra. O poema termina ao raiar do dia. A lembrança desta peça musical vem à baila diante do fato ocorrido em plena Câmara dos Deputados. Com efeito, como já foi comentado na Imprensa de todo o país uma deputada, portanto, representante do povo brasileiro, achincalhou a população dançando após a impunidade de um seu colega também envolvido no escândalo do mensalão. Segundo Marcos Augusto Gonçalves, notável jornalista, foi “a expressão corporal da decadência”. Neste ponto vale a recordação da música do citado francês. Foi a dança da morte do renome do Congresso Nacional que já estava tão abalado diante da opinião pública desta nação. Pairam as trevas noturnas sobre um dos fundamentos institucionais da República democrática. Entretanto, outubro vem aí e o cantar sonoro da ave galinácea, de crista carnuda e asas curtas e largas, pode bem simbolizar o ressuscitar da classe política. Isto, porém, se os eleitores souberam escolher pessoas que não tripudiem faltando à decência que se requer de um bom Político. Que o décimo mês deste ano de 2006 marque uma aurora de novos tempos com a mudança no Parlamento deste país, renovando-se o mandato apenas daqueles que realmente pugnam contra a corrupção e todo tipo de suborno. A deputada paulista foi irônica ao excesso. A ironia é uma forma de extravasamento de um sentimento doentio de triunfo espúrio. Nem os grandes esgrimistas da palavra e dos gestos manejam com argúcia a zombaria, pois esta fere o mais íntimo dos corações. É ácido que corrói de tal sorte os seres sobre os quais cai os converte em esqueletos lavados e escovados. O sarcasmo faz chorar e pode esmigalhar os pés de quem o profere. É símbolo da jactância, da presunção. Pariram os montes, mas só nasceu um ridículo rato, pois a beleza do ritmo de uma dança foi maculado, dado que o nobre salão dos membros do Legislativo foi confundido com uma sala de bailarinos. Foi como se alguém jogasse futebol dentro do recinto sagrado de uma Igreja. Faltou à parlamentar senso de humor e muita sensatez. A mordacidade é como uma flecha que fere e mata. Segundo Jean de la Bruyère, “o deboche é sempre indigência do espírito e ainda que se peça desculpa do mesmo ele deixa uma cicatriz impagável”. De acordo com Tennyson ele “é a fumaça dos espíritos pequenos e tacanhos”. No dizer de Michelet a ironia mordaz indica que a pessoa ainda está na Idade da Pedra. A deputada da dança macabra deveria com urgência reler “Os Lusíadas” (X,58) onde Camões assim se expressou com rara sabedoria: “Quem faz injúria vil e sem razão / Com forças e poder em que está posto, / Não vence; que a vitória verdadeira / É saber ter justiça nua e inteira”. Seja como for como disse Chesterfield: “Uma injustiça se esquece muito mais depressa que um insulto” e a opinião pública desta nação foi injuriada. O ultraje se manifesta por meio de palavras, gestos ou atitudes, mas é sempre manifestação anti-social, que demonstra incapacidade de autodomínio e falta de boa formação ética. Cabe aos Deputados darem bom exemplo e a falta de educação moral de algum deles é sempre grave. É preciso formar nos cidadãos hábitos, atitudes e comportamentos impregnados de sentimento da dignidade da pessoa humana e compreensão da influência que cada ser racional exerce no meio social. Cumpre, então, incentivar o senso de responsabilidade e a capacidade de escolha consciente, de modo a levar o indivíduo a um esforço para aprimorar suas qualidades e vencer seus defeitos por meio da luta pela conquista de ideais que enobrecem. Os deputados quando bem escolhidos pelos eleitores são os parta-vozes do povo, oferecendo soluções para o bem comum. Do desempenho consciencioso, honesto e esclarecido de seu mandato dependem a ordem, a paz e o progresso país. O que se viu, contudo, na Câmara dos Deputados foi um fato degradante e de luto deve estar a classe política brasileira, mas ao povo cabe a luta para reabilitar o Parlamento desta nobre e digna nação. O voto é a arma de cada um para restabelecer o decoro no Congresso Nacional. * Professor no Seminário de Mariana - MG
Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho*
Dança macabra é um poema sinfônico de Saint-Saens inspirado numa composição de Henrique Cazalis. Esta composição musical tem dois temas: um representando a dança da morte, o outro simbolizando a Noite e a Solidão do cemitério. Esses temas desenvolvem-se até o cantar do galo, dado em imitação do oboé, marcando o sinal para terminar a dança macabra. O poema termina ao raiar do dia. A lembrança desta peça musical vem à baila diante do fato ocorrido em plena Câmara dos Deputados. Com efeito, como já foi comentado na Imprensa de todo o país uma deputada, portanto, representante do povo brasileiro, achincalhou a população dançando após a impunidade de um seu colega também envolvido no escândalo do mensalão. Segundo Marcos Augusto Gonçalves, notável jornalista, foi “a expressão corporal da decadência”. Neste ponto vale a recordação da música do citado francês. Foi a dança da morte do renome do Congresso Nacional que já estava tão abalado diante da opinião pública desta nação. Pairam as trevas noturnas sobre um dos fundamentos institucionais da República democrática. Entretanto, outubro vem aí e o cantar sonoro da ave galinácea, de crista carnuda e asas curtas e largas, pode bem simbolizar o ressuscitar da classe política. Isto, porém, se os eleitores souberam escolher pessoas que não tripudiem faltando à decência que se requer de um bom Político. Que o décimo mês deste ano de 2006 marque uma aurora de novos tempos com a mudança no Parlamento deste país, renovando-se o mandato apenas daqueles que realmente pugnam contra a corrupção e todo tipo de suborno. A deputada paulista foi irônica ao excesso. A ironia é uma forma de extravasamento de um sentimento doentio de triunfo espúrio. Nem os grandes esgrimistas da palavra e dos gestos manejam com argúcia a zombaria, pois esta fere o mais íntimo dos corações. É ácido que corrói de tal sorte os seres sobre os quais cai os converte em esqueletos lavados e escovados. O sarcasmo faz chorar e pode esmigalhar os pés de quem o profere. É símbolo da jactância, da presunção. Pariram os montes, mas só nasceu um ridículo rato, pois a beleza do ritmo de uma dança foi maculado, dado que o nobre salão dos membros do Legislativo foi confundido com uma sala de bailarinos. Foi como se alguém jogasse futebol dentro do recinto sagrado de uma Igreja. Faltou à parlamentar senso de humor e muita sensatez. A mordacidade é como uma flecha que fere e mata. Segundo Jean de la Bruyère, “o deboche é sempre indigência do espírito e ainda que se peça desculpa do mesmo ele deixa uma cicatriz impagável”. De acordo com Tennyson ele “é a fumaça dos espíritos pequenos e tacanhos”. No dizer de Michelet a ironia mordaz indica que a pessoa ainda está na Idade da Pedra. A deputada da dança macabra deveria com urgência reler “Os Lusíadas” (X,58) onde Camões assim se expressou com rara sabedoria: “Quem faz injúria vil e sem razão / Com forças e poder em que está posto, / Não vence; que a vitória verdadeira / É saber ter justiça nua e inteira”. Seja como for como disse Chesterfield: “Uma injustiça se esquece muito mais depressa que um insulto” e a opinião pública desta nação foi injuriada. O ultraje se manifesta por meio de palavras, gestos ou atitudes, mas é sempre manifestação anti-social, que demonstra incapacidade de autodomínio e falta de boa formação ética. Cabe aos Deputados darem bom exemplo e a falta de educação moral de algum deles é sempre grave. É preciso formar nos cidadãos hábitos, atitudes e comportamentos impregnados de sentimento da dignidade da pessoa humana e compreensão da influência que cada ser racional exerce no meio social. Cumpre, então, incentivar o senso de responsabilidade e a capacidade de escolha consciente, de modo a levar o indivíduo a um esforço para aprimorar suas qualidades e vencer seus defeitos por meio da luta pela conquista de ideais que enobrecem. Os deputados quando bem escolhidos pelos eleitores são os parta-vozes do povo, oferecendo soluções para o bem comum. Do desempenho consciencioso, honesto e esclarecido de seu mandato dependem a ordem, a paz e o progresso país. O que se viu, contudo, na Câmara dos Deputados foi um fato degradante e de luto deve estar a classe política brasileira, mas ao povo cabe a luta para reabilitar o Parlamento desta nobre e digna nação. O voto é a arma de cada um para restabelecer o decoro no Congresso Nacional. * Professor no Seminário de Mariana - MG