Saturday, September 06, 2014

 

Centenário do Côn. Antônio Mendes

“LAUDEMUS VIROS GLORIOSOS” – LOUVEMOS OS VARÕES ILUSTRES (Eclo 44,1) Discurso pronunciado pelo Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho na Câmara Municipal de Viçosa dia 4/09/2014 O concerto eloquentíssimo do júbilo que hoje toma de assalto inúmeros corações em mais esta homenagem a um dos vultos importantes da cidade de Viçosa é uma consagração aos merecimentos daquele cujo centenário celebramos, o Cônego Antônio Mendes. É que as aclamações, a apoteose, são uma dívida consagrada ao mérito e as emoções que ele desperta são tanto mais fortes quanto mais sublime sua origem. As saudações que, neste instante, são entoadas nesta veneranda Câmara Municipal a este ilustre homenageado denotam um ato profundamente bíblico, pois assim, de fato, preceitua o Livro do Eclesiástico: “Laudemus viros gloriosos” - louvemos os varões ilustres - publiquem os povos sua sabedoria e anuncie a Igreja seu louvor - “sapientiam ipsorum narrent populi et laudem eorum nuntiet Ecclesia”. Num preito unânime de justos encômios, todos aqui a avivar-lhe o nome e já os antigos afirmavam: “Laudare dignos, honesta actio est” - louvar os homens dignos é uma nobre ação. Com efeito, haurindo imensa riqueza moral de piedosíssima família, sobretudo de seus virtuosos pais, cujos nomes reverentemente pronunciamos, Antônio Alvim Mendes e Bárbara Simonini Mendes, a santa Da. Bininha, sobre o fundamento desta preciosa herança, patrimônio sacrossanto de ilustres antepassados que burilaram sob os lampejos da fé as mais puras grandezas humanas, soube ele erguer, com a austeridade de uma têmpera inabalável, a imagem viva do autêntico homem de fé, do cidadão prestante, do mestre admirável, ostentando uma cultura invejável e uma dedicação, de fato, inigualável à Igreja e à sociedade. Nunca deixou, continuamente, de lutar de maneira denodada pelo Evangelho, ao qual serviu com fidelidade no ministério sacerdotal, defendendo bravamente os direitos inalienáveis de Deus. Foi estimado Pároco de Alfié, Marliéria e Nova Era, sendo que, posteriormente, graças a seu prestígio político em Viçosa, ele colocou o nome de Nova Era em um dos mais progressistas bairros desta Cidade. Aliás, o que poucos sabem é que foi ele quem, com a anuência do então Pároco, Pe. Carlos dos Reis Baêta Braga, colocou um outro Bairro sob a proteção de um grande santo, Santo Antônio no Cantinho do Céu. Fez-se o pioneiro das Missas naquela comunidade. Em Viçosa foi também o primeiro capelão da então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais e da renomada Universidade Federal e isto durante 35 anos, ou seja, de 1950 a 1985. No decorrer deste longo período foi o Diretor Espiritual da Renovação Carismática Católica e instituidor da Comunidade “Cenáculo do Senhor”, no Paraíso. Fundou a Conferência Vicentina “Santo Tomás de Aquino”, a primeira no Brasil no âmbito universitário, contribuiu para a duplicação da Vila Vicentina, na Rua dos Passos e para construção do Centro Profissionalizante da Sociedade São Vicente de Paulo, na Rua Santana. Idealizou um encontro para os dias de Carnaval, denominado “Rebainho” que se transformou no Seara, um dos mais importantes eventos religiosos de toda a região, acontecimento este sempre prestigiado inclusive com sua presença pelos Arcebispos de Mariana Dom Oscar de Oliveira, Dom Luciano Mendes de Almeida e, agora, por Dom Geraldo Lyrio Rocha. Vice-Prefeito da Cidade de Viçosa, ele foi liderado por sua consciência impoluta e reta. Pensava, falava e agia de acordo com ela. Nos comícios populares jamais traiu a verdade e nunca cedeu às pressões dos poderosos, jamais se curvando aos donos do poder ou a interesses escusos. Promoveu o bem comum, imitando o Mestre divino, o qual, segundo o livro Atos dos Apóstolos, “pertransiit benefaciendo – Jesus de Nazaré passou fazendo o bem” (Atos 10,38). Sempre teve como principal objetivo a valorização do homem pela instrução, destacando-se a fundação e direção de dezesseis Ginásios na Zona da Mata, Estabelecimentos de Ensino que, até hoje, oferecem primorosa educação nos atuais Cursos Básico e Médio. Muitos se lembram de sua presença ilustre em vários desfiles cívicos marchando com garbo e galhardia à frente dos Colégios. Estampava no rosto seu intenso patriotismo e amor a esta urbe que ele tanto soube engrandecer. Nem o mais patriota dos espartanos da antiga Grécia ostentaria tão grande fulgor cívico, Cuidou ainda da saúde da população se dedicando ao Lar dos Velhinhos, tendo muito contribuído para que houvesse em Viçosa o Hospital São João Batista. Aliás, segundo o depoimento do Diácono Professor Dr. Luís Carlos Lopes em antológico artigo no jornal O POPULAR “nas frequentes e históricas inundações da rua D. Gertrudes, por diversas vezes, viu-se obrigado a nadar nas águas sujas do ribeirão São Bartolomeu, para salvar pessoas”. Assim, o Côn. Mendes faz também lembrar Dom Luciano Mendes de Almeida, o qual impressionou durante toda sua vida pela dedicação ao próximo. Célebre a frase deste Arcebispo quando alguém o procurava: “Em que lhe posso ser útil?”. O Côn. Mendes possuía um coração da dimensão do coração de D. Luciano e jamais alguém dele precisou sem deixar de receber sua ajuda fraternal. Acrescente-se que prestou assistência espiritual ao Centro de Treinamento de Professoras Rurais, na antiga Colônia Agrícola Vaz de Mello, no Colégio de Viçosa, no bairro Bela Vista, no Patronato Agrícola, no distrito de Cachoeirinha, onde também celebrava Missas dominicais, muitas vezes na companhia do Professor Luiz Carlos Lopes. Jornalista, fundou com o professor e historiador Pélmio Simões de Carvalho, o jornal Folha de Viçosa, atual Folha da Mata. Destacado Acadêmico da Academia de Letras de Viçosa, teve como Patrono o literato Raul de Leoni. Nem se poderia esquecer que o Côn. Antônio Mendes era Bacharel em Direito e foi um exímio Professor na Universidade Federal de Viçosa nos Cursos de Economia Doméstica, Administração do Lar e do Agrotécnico, do Colégio Universitário e da Engenharia Florestal, lecionando Política, Sociologia, Psicologia, Língua Portuguesa, Ética, Geografia, Legislação Florestal, Administração e Literatura. Navegava com rara sapiência pelos mares das Ciências Sociais nas quais era um expert no pleno sentido da palavra, demonstrando uma maravilhosa profundidade ao lado de uma inigualável versatilidade. Possuía uma cultura polivalente. Era também um amante dos esportes e, segundo o citado Diácono Professor Dr.Luiz Carlos Lopes, nos idos de 1940 ao entardecer jogava tênis com os professores Chotaro, Daker, Vanetti e outros. O Cônego Antônio Mendes se viu continuamente cercado de grandes amigos, pois sabia bem o que diz o livro do Eclesiástico: “Amicus fidelis medicamentum vitae et immortalitatis - o amigo fiel é medicina da vida e da imortalidade”. Não ignorava o que asseverou Aristóteles: “Amicus magis necessarius quam ignis et aqua – Um amigo é mais necessário do que o fogo e a água”, ou seja, não se pode viver sem amigos. Entretanto, não se poderia deixar de ressaltar neste instante, sobretudo, o Diácono Professor Dr. Luiz Carlos Lopes e sua esposa Maria Noêmia, os quais, inclusive, prestaram toda assistência a ele nos longos anos de sua enfermidade, já no fim de sua vida, acolhido que fora sob o teto do modelar casal cristão, exemplo vivo de solidariedade. Deu-se ainda uma vez a realização do famoso ditado latino lavrado por Marco Túlio Cícero: “Amicus certus in re incerta cernitur”. A tudo isto se acrescente que o Côn. Antônio Mendes foi um cultor exímio da Língua de Camões e se expressava num vernáculo digno dos grandes mestres, transmitindo sempre uma mensagem do mais alto nível humano e religioso. Seus pronunciamentos eram vazados num torneio de frase insuperável, fazendo-se êmulo dos maiores clássicos de todos os tempos. Sua prosa escultural rivalizava, de fato, com a dos príncipes da “última flor do Lácio”. O verbo de nosso homenageado despedia entoações largas, estas antíteses, essas rajadas subitâneas, estas imagens ciclópeas que arrebatavam seus ouvintes. O Côn. Antônio Mendes não falava, esculpia. Sua palavra, como um relâmpago, deslumbrava, fulminava! O estilo é o homem já dizia Buffon. A História Eclesiástica revela que, através dos tempos, grandes figuras do clero se serviram de seus talentos para lutar por nobres causas como políticos eméritos. Assim foi, diuturnamente, a ação política do Côn. Antônio Mendes também imerso num transluzentíssimo ideal patriótico, professando a ciência política com P maiúsculo, edificando a sociedade e servindo às comunidades, se erguendo como figura ímpar dada sua valiosíssima parcela de contribuição para a grandeza desta gloriosa cidade. Na alheta do político maior de Viçosa, Dr. Arthur da Silva Bernardes, a quem seguiram Dr. Raymundo Alves Torres, Dr. Carlos Raymundo Torres, Antônio Chequer, José de Carvalho, Carlos Vaz de Mello Megale, Edgard de Vasconcellos e tantos outros, o Côn. Antônio Mendes, realmente, muito fez por Viçosa. Larga folha de serviços à Igreja e a esta Urbe o credencia assim a nossas vibrantes homenagens. Com efeito, dos bons médicos se diz que possuem um notável olho clínico. Côn. Antônio Mendes, como sacerdote e político, sabia diagnosticar os acontecimentos e, por isto, sempre agiu no momento oportuno, atento ao bem comum, sobretudo de sua amada Viçosa. O que superioriza o caráter de um homem é a firmeza de princípios. Ser útil obriga a ser bom; ser bom, leva a ser firme; ser firme, significa ser forte. Daí vem a sabedoria. Com efeito,“attingit sapientia a fine usque ad finem et disponit omnia suaviter” - a sabedoria atinge, pois, fortemente desde uma extremidade a outra e dispõe todas as coisas com ordem. Foi assim que, por longos anos labutou o Cônego Antônio Mendes. Não sem sacrifícios, tanto é verdade que há na gentileza do caráter toda a alteza da abnegação e na alteza da abnegação toda nobreza humana que não se curva jamais diante da injustiça. Ia-lhe sempre a certeza de que a verdadeira medida do agir é a lei sabiamente aplicada: “Juste fit quod lege permittente fit”. Eis porque se impôs pelo serviço aos outros, guardando em tudo uma atitude horaciana, pois do poeta é a advertência que retrata todo bom político: “Aequam memento servare mentem” - lembrai-vos que deveis guardar a alma sempre igual. Isto mesmo quando tinha que verberar veementemente falsos patriotas ou polemizar aguerridamente, corajosamente, com os profetas da mentira. Nas batalhas pela verdade soube sempre verter o melhor entusiasmo de sua alma vibrante. Unia a energia do intelecto com a força do amor à doutrina cristã. Então os sentimentos eram ainda mais vivazes e uma paixão indomável arrasava a falsidade e desmontava aleivosias e inverdades. Por vezes, sempre naquele aprumo de independência com que os intelectuais mantêm intemeratos os foros de sua pujança, apelava para uma ironia lapidada, mortal para quem dela era objeto. Combateu ininterruptamente o poder eticamente promíscuo. Tudo isto, porém, atauxiava, magnificamente, a eficiência de sua conduta patriótica. Deste modo, nunca faltou aos graves assuntos do Estado e da Religião. Como a verdadeira glória lança raízes e se estende - “vera gloria radices agit atque etiam propagatur”, seu trabalho em Viçosa se tornou uma árvore frondosa, patenteando obras formidáveis, sendo que suas belas alocuções foram também os monumentos que ergueu a bem da cultura e da saúde do povo. Cícero com razão afirmou que sempre imprimimos um vestígio na História: “Quacumque enim ingredimur in aliquam historiam vestigium ponimus”. A marca por ele deixada foi aurífera. Tudo que realizou manifesta uma trajetória luzidia. Neste instante histórico como o que vivemos no qual rareia a abnegação pessoal desprendida de alto idealismo e no qual cresce avassaladora a onda do egoísmo; quando um indiferentismo sem norte, por vezes, substitui convicções e os mais altos interesses cívicos e religiosos, é belo e confortador contemplar aqueles que corajosamente, monumentalmente, só intentaram o bem como o Cônego Antônio Mendes. A História sempre reverenciou os beneméritos e, por isto, “semper honos nomenque eius laudesque manebunt – sua honra, seu nome, seu louvor hão de sempre permanecer". A quem realmente, faz parte deste preluzentíssimo exército dos benfeitores da sociedade e impera soberano nas mais formosas províncias do saber, a este é devido, diuturnamente, omnis honor et gloria, como aqui acontece nesta solenidade que se constitui num verdadeiro plebiscito de corações. Assim neste instante, nesta nobre Câmara Municipal, obedecemos ao preceito bíblico “LAUDEMUS VIROS GLORIOSOS” – LOUVEMOS OS VARÕES ILUSTRES (Eclo 44,1).

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